terça-feira, 22 de abril de 2014

A VIA SACRA

Eram quase onze da noite quando a banda começou a ouvir-se. Curiosa, aproximei-me da janela e olhei o largo. Ali mesmo à porta era a estação X "Jesus é despojado das suas vestes" podia ler-se na cruz que marcava o lugar. A banda anunciava a via sacra, acompanhava as mil velas, os passos arrastados e silenciosos da multidão, a voz do padre que o microfone roufenho fazia mais terrível ainda. Tudo parou e, no silêncio, surgiu o discurso "pedagógico" do vigário: " A Jesus arrancaram-lhe as vestes mas, este ano, os bombeiros do Seixal fotografaram os corpos nus, sensuais, para venderem. Uma vergonha! Bem fez a Cáritas que recusou o dinheiro vindo de um acto destes! Eu, sobretudo no Verão,quando caso as raparigas, tenho muitas vezes vontade de as mandar a casa vestirem-se antes de entrarem na casa do senhor! Pai Nosso..." E seguiu a procissão para a estação XI. Voltei a fechar a janela com vontade de rir e de chorar. Teve graça, tenho de confessar. Mas, ao mesmo tempo, é dolorosa a forma desajustada de alguns discursos da minha Igreja. 

O senhor padre falava com ódio na voz e eu precisava, e preciso, de ver reinventar o amor e não apregoar o ódio.
Não quero crer que a nossa vida seja uma via sacra. Acredito que Deus, que é Pai,  quer que sejamos felizes e, por isso também, entristeceu-me o discurso que considerei ridículo do senhor padre...

3 comentários:

  1. É por essas e por outras que a Igreja Católica afasta as pessoas.

    Lena

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  2. À Cáritas faltou a humildade de um gesto despojado dos bombeiros... e esse Sr. Padre mantém o facto (falta de humildade) vivo!!

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  3. O Srº Padre estava... Alterado. É a única explicação para aquele discurso!!

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