Quando eu era miúda, quando, como diz o Poeta, "Festejavam o Dia dos meus Anos e ninguém estava morto", no dia 8 de Dezembro fazia-se o presépio lá em casa. O meu Pai, por ser feriado, estava em casa e saíamos com ele, no gelo da Serra, a arrancar tapetes de musgo. Levávamos cestos, cestos feitos pelo senhor António, de canastras que cheiravam intensamente, e mostrávamos uns aos outros, muito orgulhosos, os tapetes que conseguiamos arrancar, ficando as unhas negras, sem desfazer nada. Brigávamos também, irmãos com irmãos, ou por causa do tamanho dos tapetes conseguidos, ou pelo número dos mesmos, ou apenas porque sim. Depois, em casa, era a algazarra. Tiravam-se os bibelots de cima do móvel do canto, junto à lareira, protegia-se o fundo com jornais, e o meu pai, ajudado por nós, colocava o musgo dando início ao montar do Presépio. Havia serras, iamos buscar pedras, lagos, alisávamos muito bem pratas de chocolates da Regina, pontes, umas mais nicadas que outras, caminhos feitos com farinha, galinhas, pastores, ovelhas, árvores, e, no ponto mais visível, a cabana do Menino com os pais, uma vaca cinzenta sem cornos , que eu sempre achei ser um burro adaptado, e um burrinho castanho só com uma orelha. No cimo da cabana, presa com uma linha de pesca, transparente, o meu Pai punha uma estrela brilhante. Depois, perto, segurava-se o pinheiro cheio de resina dentro de um balde, e fazia-se a árvore de Natal. Então, penduravam-se chocolates que nos eram oferecidos. Acho que a Regina, nesta altura, devia ter muitos lucros...
Desde o dia 8 até ao Dia 25, ou melhor, à noite de 24, o Tempo era de ansiedade, de agitação, de cheiros diferentes, filhós, azevias, o recheio do perú que eu ainda hoje adoro. A mesa da sala de jantar estava sempre posta, havia bolo rei, e chegavam todos os dias perús que os doentes, e os amigos, ofereciam ao meu Pai. Eu, que até hoje detesto penosas, desaparecia da cozinha sempre que chegavam aqueles animais pretos de patas atadas, condenados à morte. Às vezes, de Belver, chegavam lampreias vivas, lembrando cobras e gerando gritaria entre nós, miúdos.
Hoje, quase 40 anos depois, estou em Cambridge, na Inglaterra das minhas leituras adolescentes, junto da minha filha e do meu primeiro (de muitos, espero) neto Manel Bernardo. Temos uma árvore de Natal, standard, mas ainda não temos Presépio. E eu também sinto falta do Presépio...