domingo, 13 de dezembro de 2009

Bem cedo


Os Domingos sempre me parecem dias lavados. Como se, com o passar do tempo, a semana se fosse sujando e, no Domingo, surgisse de banho tomado e pronta para recomeçar. Hoje, bem cedo em Cambridge, confirmaram-se as minhas suspeitas: Veio a chuva de noite e deixou tudo num brinquinho! Porque era cedo, a cidade movimentada estava ainda adormecida e, quando cheguei ao centro, esbarrei com um ambiente imaculado e sedutor. Gosto de Cambridge, cada dia mais! Passeei nas ruas vazias, tomei a minha bica (escandalosamente cara: 1 libra e 65...) e fui à Missa. Escolhi, de novo, a capela do Trinity. Hoje, era o dia das ovelhas, coisas de ingleses..., e os miúdos, muitos, levavam todos uma ovelha de peluche, ou de cartão, ou de qualquer material. No banco à minha frente estava um miúdo loirinho com um chupa-chupa em forma de ovelha mas, quando chegou o momento de todos mostrarem o animal, ele já só tinha o pauzinho vazio e as bochechas lambuzadas.
Na Missa não pedi nada. Ouvi, conversei um bocadinho com o meu Cristo e saí um pouco mais confortada. Este Natal britânico vai ser singular.Diferente mesmo da minha rotina de quase meio século.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Tempo


Todos os dias, a caminho do centro, antesaboreando o meu café no Costa, passo junto ao bicho do tempo. Normalmente, há lá muitos turistas a fotografarem-no, sobretudo japoneses. Hoje, talvez porque o fog londrino se estendeu a Cambridge, ou apenas porque era cedo e estava muito-muito frio, não estava lá ninguém e eu pude observá-lo de perto. É, de facto, assustador!! Não pára, entontece e irrita com a cadência constante, e o bicho mete medo. Olhar este marco, ou deveria escrever monumento?, faz-me pensar na frugalidade da existência e na necessidade, e urgência, de se viver cada dia em pleno, com vontade, para que o bicho horrível não se sacie deixando-nos irremediavelmente vazios.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O meu Menino



Olho o Manel no fundo dos olhos curiosos. Procuro-lhe a alma, a essência, o lugar onde inscrever o Amor, a Confiança, a Fé. Falo-lhe, baixinho, da força do amor, da verdade necessária, da ternura capaz de aquecer os corações de alguns homens. Fixo o meu Manel, temo o futuro, seguro-lhe nas mãos frágeis e garanto, para sempre, a minha atenção cúmplice.
Aproxima-se o Natal, Natal frio nesta Cambridge secular, e este Manel Bernardo é, para mim, o Menino Jesus que quero proteger.
Já conto histórias ao Manel. Histórias de bichos, com o Tango e o Buda, histórias de passarinhos viajantes, histórias de meninos felizes. Quero encher o disco rígido do Manel, enquanto está limpo, de referências de ternura, carinho e compreensão. Quero que o meu menino seja um Homem de Verdade. Um homem daqueles que também sabem chorar!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

8 de Dezembro

Quando eu era miúda, quando, como diz o Poeta, "Festejavam o Dia dos meus Anos e ninguém estava morto", no dia 8 de Dezembro fazia-se o presépio lá em casa. O meu Pai, por ser feriado, estava em casa e saíamos com ele, no gelo da Serra, a arrancar tapetes de musgo. Levávamos cestos, cestos feitos pelo senhor António, de canastras que cheiravam intensamente, e mostrávamos uns aos outros, muito orgulhosos, os tapetes que conseguiamos arrancar, ficando as unhas negras, sem desfazer nada. Brigávamos também, irmãos com irmãos, ou por causa do tamanho dos tapetes conseguidos, ou pelo número dos mesmos, ou apenas porque sim. Depois, em casa, era a algazarra. Tiravam-se os bibelots de cima do móvel do canto, junto à lareira, protegia-se o fundo com jornais, e o meu pai, ajudado por nós, colocava o musgo dando início ao montar do Presépio. Havia serras, iamos buscar pedras, lagos, alisávamos muito bem pratas de chocolates da Regina, pontes, umas mais nicadas que outras, caminhos feitos com farinha, galinhas, pastores, ovelhas, árvores, e, no ponto mais visível, a cabana do Menino com os pais, uma vaca cinzenta sem cornos , que eu sempre achei ser um burro adaptado, e um burrinho castanho só com uma orelha. No cimo da cabana, presa com uma linha de pesca, transparente, o meu Pai punha uma estrela brilhante. Depois, perto, segurava-se o pinheiro cheio de resina dentro de um balde, e fazia-se a árvore de Natal. Então, penduravam-se chocolates que nos eram oferecidos. Acho que a Regina, nesta altura, devia ter muitos lucros...
Desde o dia 8 até ao Dia 25, ou melhor, à noite de 24, o Tempo era de ansiedade, de agitação, de cheiros diferentes, filhós, azevias, o recheio do perú que eu ainda hoje adoro. A mesa da sala de jantar estava sempre posta, havia bolo rei, e chegavam todos os dias perús que os doentes, e os amigos, ofereciam ao meu Pai. Eu, que até hoje detesto penosas, desaparecia da cozinha sempre que chegavam aqueles animais pretos de patas atadas, condenados à morte. Às vezes, de Belver, chegavam lampreias vivas, lembrando cobras e gerando gritaria entre nós, miúdos.
Hoje, quase 40 anos depois, estou em Cambridge, na Inglaterra das minhas leituras adolescentes, junto da minha filha e do meu primeiro (de muitos, espero) neto Manel Bernardo. Temos uma árvore de Natal, standard, mas ainda não temos Presépio. E eu também sinto falta do Presépio...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A Velha Árvore


Em Portugal, é conhecida a frase, boa peça de Teatro aliás, "As árvores morrem de pé!". Aqui, isso não é verdade. Esta árvore velha, cansada, deitou-se e morreu, quero eu crer. Possivelmente, a árvore cansou-se da sua existência, ou da indiferença com que era olhada, ou simplesmente apeteceu-lhe sossegar e deitou os ramos. Apetecia-me fazer como a velha árvore. Encostar-me, deixar que me levassem sem sentir, nem sentires, e que me reciclassem, depois, em qualquer coisa mais fácil, menos dolorosa do que viver. A velha árvore está juntinho ao King's College. Deve ter ouvido e aprendido muita coisa mas, mesmo assim, acabou um dia. Eu não sei nada, sinto demais, e, hoje, apetecia-me também desistir e encostar os ramos. Queria a compreensão da vida, a ternura de um beijo, um silêncio feito verdade, um abraço feito cumplicidade.

domingo, 6 de dezembro de 2009

De Longe

Pessoa, o meu Pessoa, defendia que a Arte surge, as vivências também, não no momento real mas, antes, no momento da recordação dessas vivências. Defendia a reconstrução do vivido, no pensado, para assim conseguir a essência. Hoje, concordo com ele. Aqui, longe do meu Portugal que tanto critico, tenho saudades daquela terra onde a idiotice lidera. Confrontada com a modernidade, com o sentido da existência nesta cidade de Cambridge, penso no meu Portugal desordenado e desejo-o intensamente. Contaram-me, ou li, que houve a cimeira ibero-lusa, que o amigo Chávez faltou, que o Sócrates quer vender os Magalhães à Venezuela, e eu nem me irritei. Sorri e aceitei. À distância, pintado com saudades..., o meu país até quase faz sentido.
Hoje, apetecia-me o Convento de São Paulo, a calma do velho Convento, as recuperadas celas acolhedoras dos frades, os ruídos de Inverno do meu Alentejo, o acordar para o pequeno-almoço de pão quente com boa manteiga!!!

A Missa


Missa em Cambridge, este Domingo no Trinity. No início, tempo para as pessoas se conhecerem. Hello, how are you?, e as pessoas a apresentarem-se, a dizerem de onde vêm, porque estão ali. E começa a cerimónia, música alegre, cânticos, gente nova, as leituras da Bíblia. Hoje, a referência a Zacarias e a João Baptista. A espera, o saber aguardar, a confiança no Deus que nos Ama. Eu, sozinha num canto no banco longo, depois de ter conversado com um jovem que me cumprimentou, a pedir a Deus uma luz, um sinal, uma orientação. Eu, perdida, sem a fé de Zacarias, agradecendo o meu Manuel Bernardo e pedindo ajuda, apoio, força, num momento tão intenso como o que estou a viver. Os Cânticos, alegres e cheios de vida, a fazerem-me cantar também.
Saí da Igreja, para a chuvinha de hoje, com a alma reconfortada, capaz de enfrentar a semana. Ou, pelo menos..., o Domingo...