quarta-feira, 24 de março de 2010

Navegações e Leituras


Carregada de livros, a biblioteca, moderna e a enquadrar-se no cenário antigo, entra no rio Cam como a proa de um navio. Alta, elegante, corajosa, deixa-se afagar pelas águas calmas, contemplar pelos olhares turísticos, com indiferença e segurança. Feita turista também, desfrutando do puntting balanceado e carregado de histórias ditas pelo Martin, ela olha o edifício que a fascina. São os livros, claro!, mas são, também, as recordações das suas próprias leituras, tantas, as memórias tecidas por muitas páginas de diferentes sentidos, sempre, ou quase, carregados de sentires. Fecha os olhos aproveitando o balancear suave e desfia saudades.
Chega, então, a sua rotina, agora interrompida, o desgostar da leitura de muitos alunos e a mágoa, modernamente apelidada de frustração, de nem sempre ser capaz de os cativar para o ler. No seu país, em eterna crise, fala-se da violência nas escolas, anunciam-se agressões, ódios, desinteresses, apontam-se culpas. E ela, ali, sentindo os olhos a estupidamente inundarem-se, pensa como poderia ser diferente se, nas mesmas escolas, se falasse de alegria, de livros e leituras, de Pessoas e cresceres. Sim, acredita que poderia ser diferente SE. Um SE enorme, prenhe de possibilidades mas exigindo mudança...

sábado, 20 de março de 2010

Presenças ausentes

No Pub cheirava a lenha, a calor real, e a mesa de madeira, bancos de couro, recebeu-nos com conforto. Apetecia um vinho, fresco e com picos, três flûtes de champagne (não francês!) a assinalar a presença, à mesma mesa, de quatro gerações diferentes. De repente, a família a fazer sentido, a sentir-se no sangue aquecido a correr nas veias, nas memórias partilhadas que nos faziam sorrir e, também, humedecer o olhar. Tecem-se assim os tempos, quero crer, com instantâneos de sentidos, com cumplicidades reais, com experiências feitas de mil partilhas. A acompanhar-me, as saudades. De quem não está e que, não estando, sempre está comigo, sempre diz presente! Soube-me bem o chicken breast, estranhei o café, nunca a minha bica forte e saborosa, mas saí do Pub com vontade de fazer as pazes com a humanidade.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cambridge - Again

Recebeu-me a chuva, o céu choroso, algum frio também. Depois, de repente, chegou o beijo quente e ternurento do meu neto, o abraço forte da minha filha.
A essência do ser, o carinho real, o amor inteiro disseram presente e a chuva deixou de me incomodar. Cambridge a cada regresso mais me encanta, e, parafraseando o piroso do Malato, tipicamente português, não resisto a lembrar que "Já fui muito feliz aqui!". IMENSAMENTE feliz!!!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Os Maias

Há mais de 30 anos que, nas escolas portuguesas, se lêem (ou fingem ler) Os Maias. O programa de português, felizmente! , não o impõe, sequer o sugere. Refere, apenas
"um romance de Eça de Queirós" como leitura para o 11º ano. Mas, seja porque Os Maias já estão preparados por todos os professores, seja porque existem milhentos resumos e sebentas sobre a obra, seja porque os livros dos professores já estão bem assinalados, ou seja, apenas, por uma questão de hábito, Os Maias, nas escolas, parecem ser o único romance de Eça de Queirós...
Eu, que por acaso até prefiro a Cidade e as Serras, ou o Crime do Padre Amaro, todos os anos tento ensinar Os Maias sem deixar transparecer o meu enfado. É que estou farta da idiotice do Dâmaso, do gato Bonifácio feito Reverendo pançudo, do Carlos cheio de charme, do Ega refilão, da careca luzidia do velho Afonso, dos bigodes lânguidos do Alencar, dos cabelos negros da Cohen, dos serões da Monforte, das denguices da condessa de Gouvarinho e até da beleza da Maria Eduarda!! Hoje, no entanto, soube-me bem trabalhar Os Maias porque assisti, com os meus alunos, a uma representação da obra, centrada na caricatura das personagens, que me encheu de entusiasmo. No final, os actores contaram que, há DEZ ANOS!!!, aguardam pelo apoio prometido pelo Ministério da Cultura... e eu, por acaso???, dei comigo a, uma vez mais, me surpreender com a actualidade das críticas queirosianas, feitas a um Portugal onde os políticos são, na sua maioria, uns verdadeiros asnos!!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Morte e Educação

Suicidou-se um miúdo, 12 anos. Suicidou-se um professor, desesperado. Enchem-se, por isso, parangonas de jornais, aberturas de telejornais, sessões no Parlamento, sob o tema da autoridade. Olho, e oiço, tudo com incredulidade.
Sou professora, conheço os miúdos, os professores, os problemas, sérios e graves, que invadem a escola. Mas, no entanto, não acredito que o problema seja, essenciamente, de falta de autoridade. À Escola Portuguesa falta muito mais do que isso! Falta o ESPAÇO PARA SE OLHAR A PESSOA QUE MORA EM CADA ALUNO, falta o ambiente de conforto onde se tecem afectos, falta o Tempo de qualidade onde se constroem aprendizagens, falta humanismo! Para além dos que se suicidam, em desespero extremo, há os moribundos diários, os que esgotam cada dia sem o viverem, os que cumprem programas, circulares, decretos, despachos, etc. sem sentirem a validade do que fazem! Na Escola Portuguesa, na Escola que integro, falta a certeza de que o processo de ensino e aprendizagem tem dois vectores: Ensinar e Aprender! Falta perceber que não basta servir conteúdos em tempos (excessivamente longos...) fechados numa sala,que é preciso edcar para a cidadania, promover competências, desenvolver sentidos estéticos.
Sim,claro que é importante haver autoridade. Mas não, ela não se atribui por decreto! As mortes, que fizeram incidir (até quando???) os holofotes sobre a realidade da Escola, deveriam servir, também, para provocar a mudança, para fomentar a diferença. A Escola de hoje, organizada tal como no século XIX, não responde às necessidades da sociedade do século XXI.
A morte é trágica, sempre dolorosa, terrível quando, como agora, atinge gente com um futuro para cumprir. Mas não é o pior... Para mim, por vezes, é pior a agonia lenta que leva ao desespero diário milhares de outros jovens e muitos professores...

domingo, 7 de março de 2010

RIR

Faz bem à alma e, garantem, ao espírito, rir. Rir é soltar angústias e cantar, de uma forma livre, a vida. Tenho-me rido, com gosto e verdade, nos últimos tempos. Riso cúmplice, libertador, de estar bem e ter vontade, imagine-se..., de fazer até troça da Vida.
Olho o mundo, desesperado (enlouquecido?) , surpreendo-me, angustio-me mas, como há muitos anos não me acontecia, redescubro a Fé, a esperança, e rio-me com gosto.
Hoje, é bom estar viva.

sábado, 6 de março de 2010

Alice no País das Maravilhas

"Pode dizer-me, por favor, qual o caminho que devo tomar?" - Perguntava Alice. "Isso depende do lugar para onde queres ir!" - Respondia o coelho branco, de colete verde vestido e relógio na mão, sempre cheio de pressa. Muitas vezes este diálogo ecoa em mim.
Será que sabemos (saberei eu?) sempre para onde quero ir? Não farei, por vezes, os percursos que me sugerem sem coragem para escolher?
E a Alice acompanhou-me, acompanha-me ainda, na vida feita de mil coisas e direcções.
Ontem, encontrei a Alice a três dimensões, num lugar cheio de pipocas e gente jovem. Foi uma Alice diferente e, no entanto, de novo me alertou para as dificuldades de realizar um sonho, para a força castradora da normalidade, para os perigos e monstros que se escondem nos caminhos que escolhemos. Esta noite, sonhei com a Alice e desejei, intensamente, ter uma espada oom o poder da que ela encontrou, para, ainda que com menos violência, ser capaz de arrancar a cabeça a todos os monstros que me amedrontam.