Chego a casa gelada, o inverno voltou!, abraço-me no casaco velho, azul, cheio de cheiros e lembranças, e fecho os olhos. Dormi mal, pesadelei, fui assaltada por recordações, medos, sustos inexplicáveis e, por isso também, sinto que a invernia da rua entrou, abusivamente, no meu coração. A chuva agride as vidraças, sem melodia, sem poesia alguma, fazendo ecoar em mim a violência que, por vezes, o quotidiano impõe.
Enrosco-me no meu sofá, olho o lume, e chamo para mim as memórias boas, as recordações, as vivências recentes da redescoberta da vida. Insisto no esforço de ser feliz. Porque, para além da chuva e dos pesadelos, tenho em mim a certeza de um presente prenhe de futuro de plenitude.
terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Final de Período
Chegou o final do período, o momento das avaliações e das malditas, e infindáveis, reuniões de avaliação. Os miúdos perguntam as notas e eu, que discordo completamente do sistema absurdo e das malditas grelhas excel, tenho vontade de lhes dizer que pensem menos na nota e mais em ser gente de verdade. Apetece-me falar-lhes de afectos, contar-lhes do fascínio de se encontrarem sentidos e sentires, da importância do amor! Apetece-me garantir-lhes que aprender implica gostar, aderir, participar, intervir. Apetece-me dizer-lhes que não gosto de ter de os classificar em somas e percentagens, que preferia poder dizer-lhes qual o nível de competência em que se encontram. Mas, infelizmente, no meu país não há lugar para a pessoa que mora em cada aluno! No meu país, há excel, somas, percentagens e absurdas comparações com, claro..., obrigatórias estratégias de recuperação!! Ao mesmo tempo, enquanto preparo as reuniões absurdas, o meu coração vagueia na saudade. Para ele, para o meu coração apaixonado, não há excel nem percentagens. Para mim, finalmente!, há um amor real, pleno, verdadeiro, cúmplice, livre e declarado. Esqueço, então, as malditas reuniões. Recosto-me na cadeira velha, enrosco-me no casaco velho, nesse mesmo que ele deixou, e lembro os momentos bons, as partilhas, as conversas, os toques, as promessas e os planos. É assim a vida: - Misturas estranhas de pensares e sentires!!
domingo, 28 de março de 2010
Despedida
Veio num abraço forte, intenso, daqueles só deles que a faziam ficar com os olhos húmidos de paixão. Com doçura, beijou-lhe as pálpebras sorrindo carinho e futuro antecipado. Partia com o regresso marcado, deixava-a levando-lhe a alma, os sentires, as emoções. Ela, tremendo, estreitou-o sentindo o corpo amado, viril, colar-se ao seu. Baixinho, pediu aos deuses, e a Deus também, que lho devolvesse depressa, que acelerasse o regresso. Adivinhando-lhe a angústia, com os dedos nos cabelos dela, ele prometeu vivências de plenitude. Ela, com a segurança de quem ama, viu-o seguir, num último adeus, certa de que o regresso estava já no início.
sábado, 27 de março de 2010
Saudades

Pode, sim, ter-se saudades por antecipação. Saudades de uma ausência anunciada, certa, obrigatória e imposta pela vida. E sente-se a partida antes de acontecer, e experimentam-se, dolorosas, as saudades antes de o serem.
Muitas vezes, tantas que lhes perdi o conto, trabalhei com os meus alunos as Despedidas de Belém. Falamos, então, das lágrimas dos que ficam, da hesitação dos que partem, dos afectos estilhaçados, dos amores adiados, das presenças ausentes num quotidiano de espera e angústia. Também com os miúdos, falamos de Pessoa e cantamos, com um certo distanciamento que nos permite ausência de dor, que o mar se salga com lágrimas dos portugueses. Mas, agora, sou eu convocada a dizer adeus. Até breve. Sou eu quem fica, Penélope de uma modernidade ingrata, longe do poesia do mar que lágrimas porventura salgaram, perto da mágoa sofrida que a ausência de quem se ama impõe.
É a vida, tento convencer-me. Mas os afectos gritam ausência de sentidos numa vida que se faz de dor e, sofrendo embora, protejo-me da distância, da solidão, embrulhada nas memórias, nas certezas de cumplicidades a acontecer, segura na rapidez do tempo que se faz de idas mas, FELIZMENTE!, de regressos também!
quinta-feira, 25 de março de 2010
Viveres

Cada dia surge lavado de novo, se o traz a chuva. Mas é sempre novo, a estrear, quando, cedinho, abro os olhos e penso/sinto que estou viva.
Por vezes, apetece-me estar dentro da minha concha, ostra por descobrir, e ficar. Outras vezes, pelo contrário, apetece-me atirar-me à vida, agarrá-la energicamente pelas orelhas e obrigá-la a cumprir-se a meu gosto. Então, cheia de esperança, esgoto os segundos em coisas de ser, de sentir e de fazer.
Nestes dias, em que olho o tempo real, observo o mundo em redor de mim, é frequente esbarrar com a hipocrisia, com a falsidade, com as eternidades prometidas que se esgotam em velocidades alucinantes. Mas resisto, luto, e, muitas vezes, quando retorno à protecção da minha cama, rebobino com saudade todos os bons momentos.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Plenitude
Com força, num abraço que os tornava um só, mergulhando os dedos longos nos cabelos dela, garantia a eternidade, a plenitude de um amor adulto, cúmplice, verdadeiro e confiante. Ela aninhava-se nele, sentindo a protecção que só um Amor assim, inteiro, pode assegurar. Para trás deixara águas turvas, mares agitados, furacões de desespero com chuvas de muitas lágrimas. Agora, sentindo a pele dele na dela, deixando-se levar na consciente senda do desejo que tempera o amor real, sorria de novo, confiante, adivinhando o calor de um amor inteiro, íntegro e total, na sua existência. Brincando, falavam de memórias, de sonhos, tecendo, a dois, projectos de um futuro já presente. Sim, garantia ela, a vida pode mesmo fazer sentido!
Navegações e Leituras
Carregada de livros, a biblioteca, moderna e a enquadrar-se no cenário antigo, entra no rio Cam como a proa de um navio. Alta, elegante, corajosa, deixa-se afagar pelas águas calmas, contemplar pelos olhares turísticos, com indiferença e segurança. Feita turista também, desfrutando do puntting balanceado e carregado de histórias ditas pelo Martin, ela olha o edifício que a fascina. São os livros, claro!, mas são, também, as recordações das suas próprias leituras, tantas, as memórias tecidas por muitas páginas de diferentes sentidos, sempre, ou quase, carregados de sentires. Fecha os olhos aproveitando o balancear suave e desfia saudades.
Chega, então, a sua rotina, agora interrompida, o desgostar da leitura de muitos alunos e a mágoa, modernamente apelidada de frustração, de nem sempre ser capaz de os cativar para o ler. No seu país, em eterna crise, fala-se da violência nas escolas, anunciam-se agressões, ódios, desinteresses, apontam-se culpas. E ela, ali, sentindo os olhos a estupidamente inundarem-se, pensa como poderia ser diferente se, nas mesmas escolas, se falasse de alegria, de livros e leituras, de Pessoas e cresceres. Sim, acredita que poderia ser diferente SE. Um SE enorme, prenhe de possibilidades mas exigindo mudança...
Subscrever:
Mensagens (Atom)