É bom amar. É uma dádiva, uma entrega, uma vivência para além do eu, com um foco exterior que, ainda que por vezes nos angustie, dá euforia e vontade de viver. Eu acho mesmo que é muito melhor amar, do que ser amado. Obviamente, perfeito é amar e ser amado, numa reciprocidade real e muito prolongada. Mas isso, às vezes, é difícil. Quando acontece, até a vida parece fácil de viver, até o Tempo parece protector, até as trovoadas parecem vindas do céu para exigir o abraço ainda mais apertado. Quem ama, dá, protege, compreende, perdoa, mima, partilha, numa amálgama verbal que sintetiza a energia do verbo mais necessário na humanidade!!
Eu amo intensamente. Amo com uma força avassaladora que supera oceanos, ultrapassa ventos e Adamastores da realidade.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Os meus miúdos

Eu lamento-me, protesto, digo desejar a reforma mas, de verdade mesmo, não sei como sobreviveria ao quotidiano, às esquinas da vida e do tempo, sem os meus alunos. Sem os meus miúdos.
Ontem, ao longo de todo o dia, moeram-me a paciência. Ou era o João Pedro, de olhar castanho vivo e franja nos olhos, exigindo a minha atenção sobre os casalinhos de namorados, oh professora, tem de ver isto! Isto é um crime público! , e eu, para sua indignação, defendia que namorar faz bem; ou era o Pedro, que se recusa a crescer..., sempre em pé no autocarro e exigindo os meus senta o rabo no banco Pedro! contantes; ou era a Raquel, de olhar doce, garantindo que não, não é refilona, só justa; ou eram as meninas de Nisa, Ritas e companhia, com muito (TANTO) sempre que dizer.
Hoje, bem cedo, de novo os encontrei, numa sala ruidosa e antipática, trabalhando em grupo. E de novo desesperei! Com a conversa paralela, com as brincadeiras, com a necessidade de dizer as coisas muitas vezes, porque a distracção é imensa.
Saio das aulas do 11º B, muitas vezes, exausta. Mas o que eu não lhes digo é que eles são fundamentais para que eu mantenha a minha saúde mental! O que eu não lhes digo é que, tal como o tema de hoje para oficina de escrita, é com eles que consigo, na Escola, tecer cumplicidades; o que eu não lhes digo, é que adoro os meus alunos!!
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Sintra

Rostos bem dispostos, mal contida a vontade de partir, pouco convincentes os protestos com a hora de madrugada quase, foi assim que, hoje, encontrei os meus alunos de 11º ano às sete da manhã. Não lhes contei da minha insónia, de como as alergias me deixam exausta, ou sequer dos três Kestines que tomei mal me levantei. Afinal, esperava-nos uma ida a Sintra, ainda por cima na rota de Eça, de mais a mais a reboque de Carlos da Maia.
Começámos o dia num bom autocarro, motorista educado, os namorados a beijoricarem as saudades do fim-de-semana. Sob um sol envergonhado, ora com, ora sem óculos de sol, lá chegámos a Sintra, depois da obrigatória gargalhada em torno da antiga Porcalhota, agora Amadora (ou será ao contrário??...)
Sempre me impressionam as chaminés colossais "talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino...", e nunca resisto a exigir a atenção dos meus miúdos para aquele edifício quase disforme. Sem perder o rumo, e o objectivo pedagógico,seguindo Carlos e Cruges, fomos ao Nunes que já não o é e, por isso, não encontrámos o viúvo Euzébiozinho. No entanto, as espanholas estavam por lá. Mais modernas, de shorts e decotes, fotografavam tudo, fazendo concorrência aos constantes japoneses. Decididamente, pensei, o mundo já não é o que era...
Mas nem a velha Lawrence, nem a ausência dos longos bigodes românticos do Alencar me impressionaram com a força com que a vista do velho Palácio da Pena sempre faz.
Nunca fui feliz em Sintra. Ou, com mais exactidão, nunca vivi em Sintra nada que me marcasse de facto. Mas sempre Sintra me emociona, me faz encolher a alma e tremer os sentires. Lá, (aqui também mas com menos intensidade, talvez...), sempre me apetece uma presença cúmplice, um ombro onde me encostar, um abraço forte e único do meu amor ausente. Lá, olhando os verdes jovens, os monumentos rebuscados, as ruas escusas, sempre penso que a vida devia ser talhada assim, de teias de afectos!!
Há mais de dez anos que, com os meus alunos, faço o roteiro Queirosiano de Sintra. E sempre chego a casa, exausta, dorida por dentro, e sentindo que valeu a pena. Que Sintra deveria ser obrigatória no processo de crescer.
domingo, 11 de abril de 2010
Educação Sexual
De vez em quando, já desde o 25 de Abril de 1974, alguém no Ministério de Educação se lembra da Educação Sexual. Então, agitam-se bandeiras, fazem-se declarações sonoras e lá vem a lume, que é como quem diz a texto. o Dr. Daniel Sampaio que é, em Portugal, a sumidade no assunto. Às vezes, numas tiradas mais ousadas, surge também o Dr. Júlio Machado Vaz, ele mesmo com uma voz orgásmica, a fazer propostas e a sugerir soluções.
Curiosamente, ou talvez não porque de Portugal (e do ME) se trata, quem menos se ouve são os professores... Também, ouvi-los para quê? Provavelmente diriam que devia ser uma área transdisciplinar, que não faz sentido ser pensada em termos de aquisição de conteúdos, que se prende com Valores, com ética, com filosofias de vida, que exige um trabalho articulado, que mais do que falar de sexo, ou antes de falar dele, se devem educar afectos, humanismos, que é essencial encontrar, nas Escolas, espaço para "a pessoa que mora em cada aluno". E estas opiniões, claro, não interessam aos decisores políticos. Assim, voltamos aos médicos assumindo que isto da sexualidade, mais ou menos educável (??) é uma questão de fisiologia. Ou será uma patologia??
Ontem, navegando pelo blog de um grande-enorme amigo, esbarrei com a transcrição de um texto dos Media , do Jornal Público, voltando à vaca fria que, neste caso, é um naco bem quente. Lá vem escarrapachado, em parangonas sonoras, a proposta de programa para a dita Educação Sexual. Lá vêm as propostas de conteúdos: - 1º ciclo, a fisiologia humana (não integra já, há anos, o programa de Estudo do Meio?); no 2º ciclo, os meios contraceptivos, o aborto, a aprendizagem do não (só não se sabe QUEM, COMO, QUANDO, isto vai ser "ensinado" às criancinhas); no Secundário, os Valores, a ética (curiosamente, neste mesmo país reduziram-se as horas de Filosofia nos curricula). Como eventual responsável, ou coordenador (termo amado pela equipa do ME), um professor da área das ciências naturais. Afinal, os animais e as plantas também se reproduzem e, ainda por cima, não precisam de preservativos...
Li, com especial atenção, todo o texto, sentindo crescer a minha irritação/indignação. No final, apetecia-me gritar a minha revolta.
A educação é, TEM DE SER, algo olhado com seriedade e não feito de experimentações e remendos. O ME deve pensar como vai fazer, que objectivos quer de facto alcançar. Se é apenas para combater a gravidez na adolescência e reduzir comportamentos de risco, talvez os senhores doutores tenham razão com o que propõem. Mas se, realmente, existe a preocupação de formar seres MAIS HUMANOS, mais autênticos e, essencialmente, mais livres, então o caminho não é por aí.
Curiosamente, ou talvez não porque de Portugal (e do ME) se trata, quem menos se ouve são os professores... Também, ouvi-los para quê? Provavelmente diriam que devia ser uma área transdisciplinar, que não faz sentido ser pensada em termos de aquisição de conteúdos, que se prende com Valores, com ética, com filosofias de vida, que exige um trabalho articulado, que mais do que falar de sexo, ou antes de falar dele, se devem educar afectos, humanismos, que é essencial encontrar, nas Escolas, espaço para "a pessoa que mora em cada aluno". E estas opiniões, claro, não interessam aos decisores políticos. Assim, voltamos aos médicos assumindo que isto da sexualidade, mais ou menos educável (??) é uma questão de fisiologia. Ou será uma patologia??
Ontem, navegando pelo blog de um grande-enorme amigo, esbarrei com a transcrição de um texto dos Media , do Jornal Público, voltando à vaca fria que, neste caso, é um naco bem quente. Lá vem escarrapachado, em parangonas sonoras, a proposta de programa para a dita Educação Sexual. Lá vêm as propostas de conteúdos: - 1º ciclo, a fisiologia humana (não integra já, há anos, o programa de Estudo do Meio?); no 2º ciclo, os meios contraceptivos, o aborto, a aprendizagem do não (só não se sabe QUEM, COMO, QUANDO, isto vai ser "ensinado" às criancinhas); no Secundário, os Valores, a ética (curiosamente, neste mesmo país reduziram-se as horas de Filosofia nos curricula). Como eventual responsável, ou coordenador (termo amado pela equipa do ME), um professor da área das ciências naturais. Afinal, os animais e as plantas também se reproduzem e, ainda por cima, não precisam de preservativos...
Li, com especial atenção, todo o texto, sentindo crescer a minha irritação/indignação. No final, apetecia-me gritar a minha revolta.
A educação é, TEM DE SER, algo olhado com seriedade e não feito de experimentações e remendos. O ME deve pensar como vai fazer, que objectivos quer de facto alcançar. Se é apenas para combater a gravidez na adolescência e reduzir comportamentos de risco, talvez os senhores doutores tenham razão com o que propõem. Mas se, realmente, existe a preocupação de formar seres MAIS HUMANOS, mais autênticos e, essencialmente, mais livres, então o caminho não é por aí.
sábado, 10 de abril de 2010
Ridículas
"Todas as cartas de Amor são ridículas", diz o meu Poeta. E eu tenho saudades dos tempos em que, felizmente ridícula, enchia cuidadosamente a caneta com tinta Parker castanha, escolhia um papel suave e, sentada à eterna camilha, escrevia cartas de amor. Então, os CTT funcionavam, lentos claro, mas levavam e traziam novidades, saudades, presenças ausentes. Abrir uma carta era, para mim, uma ridícula emoção. Às vezes, guardava o envelope, adiava o momento, e só mais tarde lia o que me segredavam.
Então, escreviam-me amigas, familiares, amores adolescentes também. Eu escrevia longas cartas. Aliás, eu hoje ainda escrevo longas cartas, respeitando o ritual da tinta, para quem tem porventura o tempo ridículo para me ler. No entanto, é raro receber cartas ridículas. Agora, seja em correio azul, verde, normal, ou anormal (o mais frequente) os envelopes que recebo trazem, a maioria das vezes, contas, facturas, informação que, mesmo que não ridícula, eu de boa vontade dispensaria. Hoje, os meus amigos, o meu Amor, enviam emails rápidos, ora exclusivos, ora reencaminhados em forwards que o estrangeirismo torna ainda mais ridículos...
Com a alma pegajosa e o olhar absurdamente húmido, hoje apeteceu-me ser ridícula e escrever uma carta daquelas que o meu Poeta apelida de ridículas. Apeteceu-me escrever ao Amor, com tinta castanha, e fi-lo de novo sentada à camilha.
Falei-lhe da Primavera atrasada, do acidente do Buda, do comprimento angustiantemente longo das noites em que ele não está. Contei-lhe do cheiro a mar, do desejo de partir, da vontade de fugir do quotidiano que cumpro. Disse-lhe, sem sequer precisar de rasurar a escrita, do desgaste das memórias que constantemente desfio. Contei-lhe, também, dos meus desejos, dos inconfessáveis e profundos. Depois de soprar a tinta para que secasse depressa (não tenho mata borrão!)meti a carta no envelope amarelo e escrevi uma direcção comprida com a certeza, de facto ridícula, de que dificilmente chegará ao seu destino.
Hoje, lembrei-me que o meu Poeta também diz que "Só quem nunca escreveu uma carta de amor, é que é ridículo"!
Então, escreviam-me amigas, familiares, amores adolescentes também. Eu escrevia longas cartas. Aliás, eu hoje ainda escrevo longas cartas, respeitando o ritual da tinta, para quem tem porventura o tempo ridículo para me ler. No entanto, é raro receber cartas ridículas. Agora, seja em correio azul, verde, normal, ou anormal (o mais frequente) os envelopes que recebo trazem, a maioria das vezes, contas, facturas, informação que, mesmo que não ridícula, eu de boa vontade dispensaria. Hoje, os meus amigos, o meu Amor, enviam emails rápidos, ora exclusivos, ora reencaminhados em forwards que o estrangeirismo torna ainda mais ridículos...
Com a alma pegajosa e o olhar absurdamente húmido, hoje apeteceu-me ser ridícula e escrever uma carta daquelas que o meu Poeta apelida de ridículas. Apeteceu-me escrever ao Amor, com tinta castanha, e fi-lo de novo sentada à camilha.
Falei-lhe da Primavera atrasada, do acidente do Buda, do comprimento angustiantemente longo das noites em que ele não está. Contei-lhe do cheiro a mar, do desejo de partir, da vontade de fugir do quotidiano que cumpro. Disse-lhe, sem sequer precisar de rasurar a escrita, do desgaste das memórias que constantemente desfio. Contei-lhe, também, dos meus desejos, dos inconfessáveis e profundos. Depois de soprar a tinta para que secasse depressa (não tenho mata borrão!)meti a carta no envelope amarelo e escrevi uma direcção comprida com a certeza, de facto ridícula, de que dificilmente chegará ao seu destino.
Hoje, lembrei-me que o meu Poeta também diz que "Só quem nunca escreveu uma carta de amor, é que é ridículo"!
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Esplanada e Sumol

A esplanada junto ao mar convidava a um café soalheiro. Combatendo a escuridão dos meus sentires, cedi ao convite e instalei-me olhando mar. Gosto tanto de olhar o mar!!!
Ali, com uma bica mal tirada (não era café Delta...), fiquei desfiando memórias, chamei para junto de mim a companhia desejada. Fechei nos olhos e senti-o chegar, de mansinho, brincando com os meus cabelos e pedindo a velha SUMOL - água do poço - para me ensinar a entrada entre torres, para me apontar o Bugio, para se rir da minha certeza de que há sereias por ali. Encostei-me a ele, ao ombro largo onde tanto gosto de me aninhar, e falei-lhe de sonhos. De sonhos que, porque o são, nunca acontecem. Desses que, bem cimentados, temperam a realidade num adiamento eterno e consciente. Eléctrico como sempre, dez minutos sentado é demais...,sugeriu um passeio a pé. Tirei os sapatos e senti a areia molhada, dura, gozando o prazer de me sentir viva.
Caminhando para o meu carro, batendo os pés para soltar a areia, percebi um raiozinho de sol rompendo a escuridão inicial. As saudades vinham, agora, temperadas de possíveis sentidos e, porque há certezas que não precisam de razão, voltei para o meu Alentejo de coração pleno de sentires. Ele, o meu amor, partiu de novo, no sonho que o trouxera, deixando a certeza da sua comunhão dos meus sentires. Vou beber, sempre, Sumol de laranja!!
quinta-feira, 8 de abril de 2010
O BUDA

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Mal abri a porta, entrou a correr e escondeu-se na camilha. Estranhando tal prontidão, fui ver o que se passava. O Buda estava todo mordido!! Tinha buracos largos, fundos, rasgões um pouco por todo o corpo. Corri para o veterinário, veterinária aliás, e ele teve de ficar internado. Mais humano que muitas pessoas, chorou desesperado quando me viu vir embora.
Hoje, bem cedo, fui buscá-lo. Ainda eu não tinha estacionado o carro, e já ele, dentro de casa, avisava que eu chegara. Correu para mim, saltou de alegria, lambeu-me contente por me rever e, creio, aliviado por voltar para casa. Agora, fechado no canil, tem um lindo e incomodativo colar à volta do pescoço, não pode brincar com o Tango e está tão rapado que, se fosse a um concerto rock, faria de certeza sensação. Vai ficar fechado no canil, coitado!, doze longos dias. Depois, espero, vai tirar os pontos e voltar às correrias loucas que fazem o seu dia-a-dia. O Buda, bicho ternurento e inteligente, ainda não aprendeu que a vida não se compadece dos mais fracos e valentes, e, ignorando o seu reduzido tamanho, provoca os cães robustos da vizinhança. O Tango, grande mas muito medroso, nunca é atacado porque, assumindo a sua cobardia, mal pressente perigo vem para casa e esconde-se. Os meus cães, os meus mais leais e constantes amigos, fazem-me pensar que, se calhar, o mundo é mesmo dos cobardes...
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