sábado, 24 de abril de 2010

Ser Descontente é Ser Homem

E é ser Mulher também! Tem de ser!
Hoje, véspera dos 36 anos da Revolução de Abril no meu país, vivo num descontentamento imenso!! Eu, adepta incondicional da Liberdade, crente de que é o livre arbítrio um dos maiores poderes que Deus nos dá, não tenho desejo algum de festejar Abril. Vejo a revolução como mais um enorme falhanço do meu país pequenino. Um país cheio de falsidades, oco de projectos próprios, insistindo em construir-se à imagem de outros. Hoje, o meu descontentamento só não dói demais porque estou longe da pequenez de um Portugal que me entristece. Começo a desejar um novo vulcão...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Será??

Ouvi hoje,numa rádio inglesa, que uma jovem, na sequência de uma terrível dor de cabeça que a obrigara a deitar-se, acordara com pronúncia de chinesa!! Para cúmulo, aparecia um médico a dizer que, embora sejam raros, estes casos acontecem... Eu, que tenho tantas dores de cabeça, gostava de poder deitar-me e acordar com outro quotidiano. Com outra realidade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Nostalgia ou Saudade

Dizem que são tristes, e miseravelmente portuguesas, as saudades. Para mim, são fantásticas! Pela doçura e intemporalidade, pelo poder de me devolverem vivências, pela forma mágica como se purificam, eliminando arestas agrestes e deixando, apenas, o saborzinho do que foi bom. Às saudades, colam-se as nostalgias. De impossíveis, de repetições fantásticas, de momentos exclusivos que, ainda que passados, nunca serão esquecidos. Com as minhas saudades, tantas!!!, cruzam-se sempre nostalgias doces e amargas. Lembro momentos, pessoas, ternuras, cumplicidades, olhares, desilusões também. Surgem, com excessiva frequência, olhares de passados carregados de lágrimas que, aqui, nesta Inglaterra que me acarinha, tento afastar. Felizmente, surgem também nostalgias doces, de bons momentos, de cumplicidades, de revelações que nunca vou querer apagar do meu registo de sentires.
Hoje, sob um sol exagerado, olhando o prado sem fim, assaltaram-me as saudades do meu Alentejo puro. Daquele que só eu sinto, que não cede nem se entrega aos olhares dos estrangeiros, lisboetas muitos, que, por moda, resolveram ocupá-lo.
Quando era miúda, no tempo em que acreditava que o futuro só existia nos livros da igreja, cavalgava muitas vezes pelo meu Alentejo. Então, o galope dava-me a sensação de velocidade, de liberdade, de sintonia perfeita com o vento que me enchia os lábios de cieiro. Naquele tempo, o mar só servia para eu nadar no Verão, não me roubava nada, não significava ausência... Então, o meu quotidiano só se tecia de coisas boas, sabia que tinha quem me protegesse e não havia vulcões que me aprisionassem!
Hoje, seja saudade ou nostalgia, tenho pensado muito no meu Alentejo de infância.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Inglesises

De traje a rigor, colarinhos engomados e longas capas, povoam o largo passeio em frente do King's College. Parecem bandos de corvos sábios, daqueles que sempre surgem nas Fábulas de La Fontaine. Vai haver uma cerimónia importante, oiço dizer, e estará presente o Princípe de Edinburgo, o consorte, ou com azar... (acordar anos a fio ao lado daquela senhora, não é lá grande sorte, acho eu, republicana confessa). Há também guarda-costas, de chapéu de coco, engraçados e austeros, fazendo-me pensar que, com certeza, fariam as delícias literárias da minha amiga Maria João. Um deles, talvez o mais importante, ou mais sábio?, traz na mão um livro-caixa. Fico pensando no que trará lá dentro. Será o seu discurso? Se for, coitado do consorte, aquilo deve durar horas...
Do outro lado do King's, indiferentes à solenidade vivida na entrada principal, há namorados descalços, esticados na relva, beijoricando-se enquanto picnicam. Acho fantástica esta pluralidade, esta convivência pacífica entre o formal e o ligeiro, neste país de História com mil histórias misteriosas! No meio dos contrastes, balançados e imponentes, passeiam gansos e patos marrecos com turistas de flash pronto. É assim a vida em UK!
À noite, já em casa, continuo a leitura da Filipa de Lencastre (Isabel Stilwell) e penso que, no Reino de Sua Majestade, pouca coisa tem mudado...

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Fada Sininho

E pronto, foi cancelado o meu voo de amanhã. Tenho já uma longa lista de check ins e de cancelamentos, e continuo em Cambridge, longe da minha rotina, dos meus afazeres, vivendo por inteiro o meu estatuto de avó! Angustia-me, já me preocupa muito!, esta ausência forçada e, para me consolar, a minha filha cita provérbios ingleses there's no use crying over spilt milk... Eu, que não sou grande admiradora da sintética língua inglesa - ah! o francês é a minha língua!!! - prefiro entreter a minha preocupação, desviá-la do vulcão e das cinzas, ocupando-a com ficções de ser feliz. Imagino, por isso, que no silêncio do serão, com o Manel Bernardo dormindo calmamente, vêm as minhas personagens de eleição falar-me de possíveis.
Sinto, levemente, na janela larga, as asas da Sininho que, carregando o eterno saco de ouro, se propõe levar-me, voando sem medo de cinzas, até aos mares do Sul. Alego que não sou já menina, que não tenho mais acesso ao mundo de Peter Pan, e ela, esvoaçando sempre, ri-se como quem bebe champanhe francês alegando que, no mundo dos sonhos, a idade não existe. Rio-me com ela e deixo-a cobrir-me com o pó amarelo saindo, depois, sem frio nenhum, só mesmo de camisa de noite, pelos céus escuros desta Inglaterra que me prende.
Num instante, aparece um céu estrelado, cheiros intensos, ondas largas. Procuro o navio onde, estou certa, vou ser acolhida num abraço quente e forte e, guiada pela Sininho, num instante descubro a ponte certa.
Pouso ao de leve no amor.
Agora, há espuma terna e beijo de saudade intensa. Está quente. Muito mais quente que na Inglaterra encerrada, e fico contente por ter vindo apenas de camisa de noite. Então, espreito as máquinas, os computadores, a noite cerrada e calada lá fora. Aqui, não há lugar para as palavras e o carinho faz-se de toques ousados, de beijos intensos, de mistérios partilhados. Sininho continua rindo, esvoaçando sempre, rasando os mares e quase mergulhando neles. Descalça, desço para o camarote e não preciso de champanhe.
É o Manel Bernardo quem me traz de volta à vida. Lá fora, faz frio e vento. Serão agora dispersas as nuvens vulcânicas??

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Night e pata


Começa a anoitecer, em Cambridge. O Manel Bernardo dorme tranquilo, recupera forças e carrega bateria para o banho, e eu, com a televisão sem som e as enormes janelas abertas, procuro o mundo nesta caixa preta que o meu neto detesta. Acho graça ao ódio que o meu bebé tem ao computador. Será porque lhe rouba atenção? Será porque pressente que daqui pouco de bom pode vir? Seja lá porque for, e porque os desejos dele agora são ordens, aproveito o seu sono sossegado para andar por aqui.
É estranha esta Inglaterra que já amo. Há, agora, flores de todas as cores, relvados imensos, patas a chocar ovos nos lugares mais incríveis! À entrada do prédio, num canteiro, vive uma pata que choca seis ou sete ovos. A dona pata, de vez em quando, vai até ao lago, atravessa a estrada sem medo, qual dona de casa que vai ao mercado. Ninguém ousa mexer-lhe nos ovos e, pouco depois, ela volta, bamboleando-se, e retoma o choco. Se fosse em Portugal, estaria, de certeza, transformada em arroz...

Not yet...

Não há voos. Não há combóios. E eu fico, longe do trabalho, produzindo planos de aula em série, ansiosa por não conseguir cumprir planificações, preocupada com a hipótese do cancelamento se manter. Penso, contudo, que tenho sorte. Que, como sugeriu um amigo, o vulcão foi meu amigo... Porque estou num sítio lindo, porque estou rodeada de carinho, porque vivo horas de ternura real. Oiço as notícias com espanto. Há gente retida por essa Europa fora. Incrível a imensidão de pessoas que, diariamente, circula por esta Europa que, aparentemente forte, é, afinal, tão frágil.
Esta Europa moderna de século XXI, não tem como fazer face a um problema que, felizmente pouco comum, é uma possibilidade efectiva. Esta Europa de muitos discursos, muitas reuniões, muitas proximidades, fica distante, atrasada e fraca face ao sopro de um vulcão!
Pego no Manel Bernardo e conto-lhe destes contrasensos, serve, às vezes, de história de embalar...