domingo, 13 de junho de 2010

Escolhas

Que eu não concordo NADA com o sistema de ensino português, já não é novidade. Devia mesmo, ao fim de quase trinta anos de Escola, ter-me rendido à impossibilidade de mudança, ter-me habituado a calar a revolta. Mas não sou capaz! E sempre que chega o final do ano lectivo, as coisas pioram!
Eu acho absolutamente errado, injusto e grave, que se obriguem os miúdos de 14 anos, às vezes 13!!, a fazerem uma escolha definitiva de futuro! Ao acabarem o 9º ano, ainda por cima o terminar de três ciclos de generalidades, eles não sabem o que querem seguir, que área devem escolher, que profissão gostariam de abraçar. Entram então em campo os pais, os professores, os psicólogos e orientadores vocacionais. Todos opinam, todos sugerem. E os miúdos, com tantas opiniões, com a influência determinante do grupo de amigos, com alguma angústia à mistura, lá escolhem. Depois, no 10º ano, é que são elas... Porque não sabiam bem o que seria a área escolhida, porque não gostam, porque, se calhar..., gostariam mais de outra área, porque mudaram de ideias, etc. E estas mudanças, que acho legítimas e compreensíveis, implicam, no sistema português, perder um ano!! Um miúdo escolheu o curso geral científico-humanísticos, conclui que Física e Biologia não são do seu agrado, pensa que talvez fosse melhor enveredar por economia e, para isso, perde um ano!!
Não pode estar certo, penso eu, complicar assim avida de gente tão miúda!!
Todos os anos, sobretudo quando sou directora de turma do 10º ano, vivo a angústia de, aí a partir de Março, ouvir os miúdos, com aparente (só aparente!)tranquilidade, dizerem "setôra,acho que vou repetir o 10º ano, vou mudar de área". Fico angustiada! É que a vida é curta demais para se poder perder tempo e eu não posso aceitar, de braços cruzados, que o meu país faça a a sua juventude perder anos!!
Obviamente, também as escolhas no 12º ano me preocupam. Angustiam-me, sobretudo, as escolhas conduzidas pelos pais, visando um futuro com um emprego bem pago. Claro que eu compreendeo a visão dos pais, também sou mãe..., mas fará sentido empurrar uma pessoa para uma área, uma profissão, só por causa de um eventual emprego, sem respeitar os gostos de cada um, o prazer que cada um coloca no que aprende e faz?!Duvido...
Digo sempre aos meus miúdos que devem escolher com segurança e sei, e sinto, como é idiota o meu conselho!! É que o problema das escolhas, não é o que se selecciona mas, sempre, o que se rejeita!!

sábado, 12 de junho de 2010

O Mundial

Portugal estacionou bem em frente das televisões. É o Mundial de Futebol e, neste país, onde umas chuteiras valem mais do que uma licenciatura, voltam a passear-se bandeirinhas nas janelas dos automóveis, voltam a comprar-se ridículos bonés e horrorosas t-shirts em todos os hipermercados. Esta minha gente, a mesma que muda de canal ou conta uma anedota quando a TV mostra a fome em África, quando olhares infantis pedem ajuda, sempre que aparecem famílias inteiras vasculhando restos no lixo, diz-se indignada por ter havido assaltos às comitivas e equipas que estão na África do Sul. Como se fosse mais importante o roubo de uma máquina fotográfica, do que a fome numa criança!!
No meu país em crise, com a miséria crescendo todos os dias, saber se houve lesões nos jogadores, ou em que momento vamos ser eliminados, parece vital.
Lembro-me de ouvir condenar o Estado Novo, e muito bem, por distrair o povo com Fado - Fátima e Futebol. Agora, não percebo a diferença entre o Estado Novo e este velho estado de coisas!!

Santo António

De Pádua, ou de Lisboa, ou aqui mesmo de Portalegre, onde também é patrono, o Santo António é um santo da minha simpatia. Acho que gosto dele sobretudo por causa do Sermão de Stº António aos Peixes, escrito pelo outro António que, embora frade, não era santo. Mas era, sem ser santo, um homem de todos os tempos!!
Há pouco, lendo na net mais uma das milhentas anedotas sobre o eng. Sócrates, desta vez com o objectivo de provar que entre este e o Verdadeiro Sócrates nada há de comum, lembrei-me de como António Vieira soube criticar os maus dirigentes, soube condenar uma sociedade acéfala e centrada, apenas, no interesse económico. Na época, séc. XVII, era preciso falar de igualdade, justiça, verdade, dignidade humana. Hoje, séc. XXI, é preciso voltar a falar dos mesmos Valores e, sobretudo, é preciso lembrar que, para além da crise, há vida e seres humanos.
Domingo, festeja-se o Santo António e, para mim, se ele cá voltasse voltaria a ter como única audiência os peixes!!!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Amigos

Não são aqueles a quem sorrimos todos os dias, ou aqueles que nos telefonam no Natal, os verdadeiros amigos. Os amigos mesmo são, para mim, os que não têm dia marcado, os que respondem aos apelos, os que dão sempre o jeito de dar uma ajuda. Os amigos mesmo, são aqueles que me valem sempre, seja para desencravar uma tabela de excell, para ajudar a construir um recurso QIM, para pagar uma bica de boa conversa ou até para respeitarem o silêncio e a solidão. Os bons amigos não cobram, não interrogam, não comentam. Criticam, gritam se é preciso, mas nunca viram costas. Felizmente, eu tenho bons amigos! E fazem-me muita falta sempre!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Portugal

10 de Junho de 1580. Luís Vaz de Camões, o poeta mendigo e zarolho, morria com o país que amara e servira. Para o enterrar, um lençol emprestado e o chão da Igreja de Sant'Ana. Por companhia, meia dúzia de amigos e Jau, o amigo escravo. Apenas. Porque era grande, maior do que os homens que insistem em pôr-se em bicos de pés para mandar, morreu como morre, ou sufoca, a Arte e o Valor em Portugal - ao abandono, no esquecimento, na miséria.
"Não mais Musa, não mais, que a Lira//Tenho destemperada e a voz enrouquecida// E não do canto, mas de ver que venho//Cantar a gente surda e endurecida." Passaram muitos séculos e, no entanto, as palavras de Camões permanecem actuais... Hoje, o mesmíssimo país que deixou na miséria o Poeta, assinala o seu Dia com discursos de mentira e falsidade. Hipócritas, sim!
Hoje, continuam a perseguir-se aqueles que ousam pensar diferente, apadrinham-se as sem-vergonhices, sobrecarregam-se os que trabalham, enviam-se para longe os que PENSAM!
Hoje, neste mesmo Portugal de gente surda e endurecida, é melhor ser vigarista do que honesto, ladrão do que trabalhador, cínico do que verdadeiro. Camões, há 500 anos, acompanhou a derrocada do país, e nós assistimos ao seu desmantelamento total! O Portugal de hoje não investe na Educação, nem na Saúde, sequer nas Forças Armadas. Temos um governo de aparência, centrado em obras desnecessárias que terão, como único benefício, encher (mais ainda) alguns bolsos de gente especial...Temos, em 10 de Junho de 2010, uma Constituição que diz que caminharemos para o socialismo negando, assim, a verdadeira democracia. Luís de Camões ofereceu aos ousados portugueses a Ilha dos Amores. Seria uma ilha virgem, fantástica,habitada por ninfas e deusas. Hoje, se quisessemos oferecer um prémio aos portugueses ousados, decerto prefeririam um bilhete de avião apenas com direito a ída! Porque este país está a ser morto diariamente. Porque este país não merece os Grandes que teve, a História que viveu!!
Há pouco, assistindo aos discursos de ocasião, observando as antipatias mal disfarçadas entre os diferentes orgãos de soberania, pensei que, se Camões pode ver-nos de algum assento etéreo onde subiu, deve estar com vontade de vir cá abaixo, de espada em punho, defender a sua Honra!!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Chuva no pedaço!


Uma destas manhãs, bem cedo, ao descer para a cidade, vi a minha cidade a despertar. Qual humana, empurrava com jeito preguiçoso o édredon de nuvens e deixava, aos poucos, entrar o sol. Não resisti a, ignorando a minha natural incapacidade para máquinas, parar o carro e fotografar o momento. Olhei, há pouco, de novo a fotografia e, como hoje chove e faz frio - tempo doido este! -, achei que, se calhar, a cidade vai ter de recuperar o édredon...
Deixando solto o pensar, esbarrei com a ideia absurda, mas já posta em prática, dos mega agrupamentos de escolas! Para poupar dinheiro, porque o governo português só poupa onde deve investir, assistimos ao encerramento de escolas e à junção, sob a pomposa designação de "Mega Agrupamento", de muitas outras. Não se pensa como vai ser possível trabalhar em territórios educativos com mais de mil alunos, nem nos efeitos negativos de diferenças de idades de dez anos, nem nas condições de segurança, menos ainda no trabalho dos professores. Pensa-se, exclusivamente, em poupar euros porque, escandalosamente, este é o governo que ainda não percebeu que investir na educação é criar capital humano. Este é o país onde um par de chuteiras vale mais do que um cérebro inteligente! Apetecia-me, por isso, ter o poder da minha cidade e puxar um manto intenso de nuvens negras que cobrisse, de vez!, este Portugal que me entristece a cada segundo!!!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Leituras

Nesta altura do ano, com o ano lectivo a chegar ao fim, sou sempre atacada pelo vírus da sugestão de leitura. Nunca resisto a desafiar os alunos para novos textos, novas aventuras, novas experiências absolutamente radicais como, sem dúvida, abrir um livro e cair de mergulho no deserto, ou no meio de uma discussão amorosa real, daquelas sem lol, nem sms, nem xau, mas cheia de frases de não ditos, de metalinguagem e de sentires reais. Sei que, para alguns, o que eu digo entra por um ouvido e sai pelo outro. E eu acho muito bem! Se não fosse para isso, qual o interesse de termos os ouvidos no alinhamento um do outro?! Só que também sei, cum saber de experiência feito, que há sempre dois ou três que me escutam. É para esses que falo.
Acho que o ensino individualizado e personalizado deve ser isto... Não aceito que o seja, apenas, dirigido aos alunos que não trabalham, que não gostam de nada, que se limitam a reproduzir modelos e que, de boxers de fora, andar de traineira encalhada e olhar cansado, se arrastam pela escola como pela vida.
Este ano, mais uma vez, sugeri ao 10ºano que aproveitasse os três longos meses de férias para descobrir Eça de Queirós. Tenho confiança na Catarina, na Margarida, na Mónica, na Neuza, na Rita. Ao 11º ano vou propor que arrisquem Vergílio Ferreira, que procurem a inquietação do existencialismo, que se deliciem, também, com Isabel Allende e, noutro registo, com Yourcenar. Aqui, aposto na Raquel, nas Catarinas, e também no Danilo. Em Setembro, veremos se foi uma aposta perdida...