domingo, 11 de julho de 2010

O Crime

Os meus cães apareceram com uma galinha na boca. Passado o horror do primeiro impacto, resolvi investigar o crime.
É uma história simples: - A galinha, cansada das grades do galinheiro, ousou tentar a liberdade. Cá fora, o Tango perseguiu-a e abocanhou-a. Penosa morta, o Tango, todo contente, trouxe-a para junto da minha porta, brincando com o cadáver recente. O Buda não gostou de ver o Tango com um brinquedo novo e, na primeira oportunidade, roubou-lhe a galinha. A partir daí,tem sido um jogo de perícia e inteligência. O Buda, sempre que apanha o Tango distraído, rouba a defunta e esconde-a. O Tango, quando dá pela falta da sua conquista, procura-a desesperadamente até a encontrar e, de novo, a traz para junto de casa onde, julga ele..., está protegido da esperteza do Buda.
Neste jogo de mortos e vivos, deu-me para pensar como os animais são, tantas vezes, verdadeiras caricaturas humanas. Entre os humanos, quem ousa escapar às grades do pensamento imposto, quem se arrisca a saborear a liberdade, é também morto , ainda que metaforicamente, pelos cães que fazem a sociedade. Depois, também a guerrilha se faz de esconde e descobre, de vai e fica, de diz e desdiz. Invariavelmente, quem vence não é o mais corajoso, o mais ousado, mas sim o mais esperto,o mais hábil em utilizar a esperteza saloia. Finalmente, o culpado é sempre a vítima! Quem mandou a galinha ousar a diferença? Se se tivesse conformado com o que lhe dão, milho e um terreiro para debicar minhocas (que nojo, ainda agora estaria vivinha da silva!!
Moral da história: - Quem ousa arriscar a diferença, pode acabar na boca dos cães...

Baptismo

"O melhor do mundo são as crianças!" - Disse Fernando Pessoa e eu subscrevo inteiramente. Porque são puras, verdadeiras, sinceras, autênticas. Porque ainda não foram formatadas pela vigente hipocrisia social. Porque riem quando lhes apetece e não têm vergonha das lágrimas.
Por tudo isto, eu, como católica, tenho alguma dificuldade em compreender a ideia do pecado original. Uma criança não peca. Uma criança, como um dia disse o pagão Alberto Caeiro, é o verdadeiro Menino Jesus que fugiu do céu. Assim, para mim, o baptismo não é a purificação de um pecado inexistente mas é, sim, um assumir publicamente, pelos adultos, da obrigação e vontade de educar uma criança de acordo com o Bem. Foi assim que, ontem, acompanhei o meu primeiro neto no seu baptismo. A Igreja do Carmo acolheu-o com simplicidade, ele fartou-se de palrar e a água refrescou-o e deixou-o mais bem disposto. Quero crer que este simbolismo da água seja capaz de, ao longo da vida, o deixar mais seguro, mais fresco, mais bem disposto sempre...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As Notas!

Foram hoje afixados, no país inteiro, os resultados dos exames de 1ª fase de 12º ano. Logo cedo, as escolas encheram-se de ansiedade! Eram os alunos, os pais, os professores também. Para uns, em causa está a entrada, ou não, no Curso pretendido, a saída de casa dos pais, um passo de gigante no futuro; para outros, está o crescer inevitável daqueles seres que são sempre miúdos para quem, um dia, lhes mudou as fraldas; para os terceiros, em causa está até (imagine-se!!!) a qualidade do ensino realizado.
Se posso compreender a ansiedade de jovens e pais, tenho muita dificuldade em entender a dos professores. Não compreendo como se pode querer fazer corresponder a nota de um ano lectivo, com diversos elementos de avaliação, a possibilidade (e obrigação) de avaliar um processo de meses, com o resultado obtido numa única prova, num único momento. Querer fazer corresponder a nota do exame à nota do 3º período, é o mesmo do que dizer que um aluno que teve um treze num teste não pode ter 17 ou 18 no fim do período!!!
Todos os anos, nesta altura, me irrito com o que considero ser uma verdadeira aberração pedagógica! O exame é uma formade aferir resultados, não podeser uma meta, um objectivo de aprendizagem. Por favor!!!
Pior ainda, acontece quando, com a paranóia da nota do exame, se deixam de desenvolver competências para, quase exclusivamente, se treinarem exercícios idênticos aos que sairão no dito exame... A Escola passa a viver para a imagem, para o que parece, e não, como devia, para a essência e para o que É de facto o saber.
A Escola portuguesa do século XXI, que integro numa profissão que um dia amei, decepciona-me cada vez mais!
Eu sei, como sei!!!, que pensar é uma actividade de risco, que a cultura é uma forma de liberdade e, por isso mesmo, não posso aceitar com indiferença que o meu país promova a ignorância sem que os cidadãos se revoltem.
Como, um dia, os meus alunos escreveram "Esta Escola fica-me curta...". Excessivamente curta!!

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Aparelho

O meu telemóvel vibrou feliz, a meio da tarde, com um sms eufórico: "Já não tenho aparelho!". Alinhei na euforia, dei Parabéns, fiquei feliz por poder partilhar o que era, sem dúvida, uma tão boa experiência: "Já não tenho aparelho!"!! Ainda não vi a boca refeita, decerto de dentes alinhadinhos, modelados, perfeitos, de acordo com a norma e o padrão estético em vigor. Ainda não vi o sorriso livre, e não metálico, da minha amiga que, hoje, se libertou do freio desagradável (ainda que ornamentado com elásticos de diversas cores).
Fiquei a pensar, contudo, na quantidade de miúdos, e adultos também, que usa os aparelhos correctivos dos dentes. É uma moda, como muitas outras, mas esta tem o seu quê de perigoso, acho eu... É o assumir que todos temos de ser perfeitos, ou pelo menos muito perto da perfeição, eliminando as particularidades de cada um! Todos os miúdos (ou quase) vão ter dentes alinhadinhos, ainda que eles mesmos insistam, saudavelmente, no desalinhar. Todos têm, durante dois ou três anos, um sorriso metálico que, terminado, os deixa felizes e livres para, talvez, serem quem de facto são.
Claro que nada tenho contra os aparelhos nos dentes. Se existe técnica e progresso, pois que os aproveitemos! Só que, hoje, deu-me para pensar que, se um dia inventarem um aparelho para a alma, a sociedade ficará muito pior. Sim, embora difícil, é possível piorar. Basta que se continuem destruindo individualidades, em nome de colectivismos inexistentes...
E veio tudo isto, hoje, a propósito de um sms feito de liberdade feliz:"Já não tenho aparelho!"

domingo, 4 de julho de 2010

Quando o Mito está no pés...

A Alma de Isabel.É um livro escrito pela Drª Teresa Gomes Mota, cardiologista de renome, e tem sido a minha recente leitura. É um livro esotérico, cheio de referências a Pessoa, à História Nacional, um livro que, se não fosse tratar-se de uma autora conhecida (e amiga) eu nunca compraria. Não é o estilo de livro que eu goste, não tem amor, vida de realidade, encontros e desencontros, poesia nas entrelinhas. No entanto, estou a gostar de ler e estou a ficar impressionada com o que leio.
A Alma de Isabelfala de reencarnação, da essência de Portugal, de Neptuno – sempre atraindo os portugueses para o mar -, de Plutão, numa reacção quase bi-polar, atraindo Portugal para a terra triste. Teresa Mota, apesar de médica, acredita que é a reencarnação da Rainha Santa Isabel e, talvez por ser uma mulher de ciência, cheia de espírito objectivo e pragmático, analisa-se cirurgicamente levando-me a pensar, a sério, na hipótese da reencarnação. A dada altura, falando de Portugal, que nasceu em 1143 sob o signo de Peixes, a autora explica a ascendência dos Peixes e destaca a importância do Mar para os nativos deste signo. Porque gostam de olhar o mar? Porque se sentem bem junto dele? Porque o temem, também? Por ser belo e relaxante? Não! Por ser portador de energias que, para os nascidos sob a influência de Neptuno, permitem o encontro com o Positivo. Com o essencial. Medo? Porque os Peixes são bipolares vivem na terra, presos a Plutão, orientados por Onion e, por isso, têm medo da sua Verdade. Como o mar, sofrem violentas tempestades, confrontando as duas forças que os atraem e condicionam. Para a autora, retornando a António Vieira com frequência, Portugal sempre existiu em função de um Mito e, agora, como o caos instalado, é necessário reencontrar-se um Mito " O mito é o Nada que é Tudo" , paradoxo bem explícito. Diz Teresa Gomes Mota que, neste momento triste, o mito português é o futebol, para concluir que mal vai um país que tem o mito nos pés, rasteirinho ao chão...
Alma de Isabel está a tornar-se absorvente.
Será que a reencarnação acontece?!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

1 de Julho de 2010

Os anunciados aumentos chegaram! A partir de hoje, ser português é AINDA mais difícil, mais humilhante, mais custoso - literalmente custoso. Aumentou o pão, o leite, as fraldas, o gás, a electricidade, as portagens, o IVA, o IRS, tudo. Tudo o que é possível aumentar, subiu na proporção inversa à qualidade devida que não pára de descer. A partir de hoje, dar de comer à família é uma tarefa ainda mais complicada. No entanto, e para surpresa de muitos, o primeiro-ministro garante que Portugal está bem, que se recomenda!!, que é preciso sermos optimistas. Será que lá no sítio onde este dirigente estudou alguma vez lhe ensinaram que ser optimista não é sinónimo de ser parvo?!
Se calhar não...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Podia...e até era a mesma coisa!

Terminou a formação dos QIM sem a glória, sequer, de se tornarem QUIMS, ganhando, assim, humanidade... Construi um recurso, brinquei com o oculto, pasmei face ao brilhantismo de colegas que constroem verdadeiras maravilhas com o software do activinspire, gastei horas de vida (preciosas!) em sessões síncronas e assíncronas e, agora, respiro de alívio! ACABOU!!
Já domino os QIM mas, no entanto, continuo convicta - mais ainda! - de que não é por aí que vai melhorar a Educação em Portugal. As aulas participadas, as metodologias activas, não dependem, felizmente, das novas tecnologias. Mudar práticas implica revolucionar atitudes, agitar normas, questionar modelos, ter consciência de que APRENDER e ENSINAR são dimensões diferentes e que, por isso mesmo, na Escola deve desenvolver-se o processo de Ensino E Aprendizagem!!
Terminei a formação. Vou, com certeza, utilizar o QIM nas minhas aulas. Agora, pergunto-me, poderia eu, poderei, fazer aulas melhores, permitir mais eficazes aprendizagens sem os QIM?? E, ao contrário da publicidade, vejo-me a responder "Podia! E até era a mesma coisa!"