sábado, 31 de julho de 2010

Fim das Reprovações?

Eu bem tinha razão em temer as medidas do Ministério da Educação tomadas durante as férias... Parece, há que dar o desconto à Comunicação Social, que a senhora ministra resolveu, por decreto (tudo bem em minúsculas) terminar com as retenções, reprovações, chumbos, ou seja lá o que for que chamem ao facto de um aluno ter de repetir um ano de escolaridade. Eu concordo com a senhora ministra! Sei que, na maior parte das vezes, repetir um ano não traz nenhum benefício ao aluno. Penso que a Escola, como tenho tantas vezes repetido, tem de ter espaço para "a pessoa que mora em cada aluno", num processo de personalização das aprendizagens, procurando soluções individuais para cada aprendente! Mas eu também defendo que o mundo deve ser justo, que não deve haver gente muito rica, que não deve haver pobreza, que não deve existir solidão, que não deve haver ladrões, que não deve haver assassinos, que ninguém deve ser privado da sua liberdade, que nenhuma criança deve chorar, que nenhum pai ou mãe deve ver a morte de um filho, que nenhuma mãe tem o direito de matar um filho, que a amizade deve ser sempre verdadeira, que os ordenados devem ser justos, que as férias devem ser bem gozadas, que o IRS deve descer, que o IVA deve ser de 2%, que a Arte e a Cultura devem estar ao acesso de todos, etc. Sim, eu concordo com a senhora ministra, porque eu também gostaria de viver num Mundo Perfeito!!
Só que, infelizmente, o mundo perfeito não existe... E, este mundo onde vivemos, feito de diferenças, de injustiças, de guerrilhas constantes, só se pode melhorar a sociedade se se premiar o trabalho, o investimento individual, se se separar o trigo do joio, se, desde cedo, se educar para o sentido da responsabilidade, da verdade, da autonomia. Numa Escola como a actual, é cada vez mais urgente investir no mérito pois, tenho a certeza, só uma Escola de Qualidade pode ajudar a criar uma sociedade de referência.
A proposta do Ministério da Educação é, apenas, uma bandeira demagógica e politica sem nenhuma eficácia! É, ainda por cima, uma proposta pouco honesta porque, este mesmo Ministério que se diz preocupado com os alunos, cria turmas de 28 alunos, desmotiva os professores, não investe no essencial e não se preocupa com aqueles, muitos felizmente!, que estudam e que querem, de facto, aprender e crescer!
Ainda tenho esperança que a medida anunciada seja, apenas, um devaneio de Verão. É que, com este calor intenso, andamos todos com os neurónios a ferver!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

É Fácil!

Sempre que se aproxima o Verão, que sem dúvida tem sobre os portugueses (ou sobre os humanos?) um efeito anestesiante, tremo por saber que o governo aproveita a época de distracção colectiva para urdir - exactamente URDIR - novas medidas para a Educação. Embora também eu esteja em férias, ou se calhar exactamente por isso, tenho pensado muito na Escola, no caos instalado na minha profissão e, embora com perfeita consciência de que ninguém me vai dar nenhuma atenção, pensei em 12 medidas, só doze..., não muito dispendiosas e, de certeza, capazes de melhorar substancialmente a Educação em Portugal. Aqui ficam:
1 - Turmas com o máximo de 18 alunos; A afectividade é um factor essencial à aprendizagem!!!
2 - Aulas de 60 minutos; É tempo suficiente para estar fechado num qualquer espaço.
3 - Ensino e aprendizagem por competência; Aprender não é apenas acumular conhecimentos!
4 - Efectiva valorização da via profissionalizante; Não há trabalho indigno!!
5 - Creditação de participação dos alunos em actividades de carácter formativo, desportivo, social, associativo, etc; Temos de formar cidadãos!
5 - Aprendizagem da Música em todos os anos de escolaridade; A Arte é uma dimensão fundamental ao ser humano!
6 - Formação de professores com incidência na formação científica e didáctica; O mundo mudou, a sala de aula TEM de mudar!
7 - Aulas a terminar nunca depois das 15.00h; É importante fomentar a autonomia!
8 - Criação de espaços de construção de saberes, de ateliers, de laboratório; O saber-fazer pode ser a chave do sucesso!
9 - Teatro em todos os anos de escolaridade; Observar, ler, interpretar, desempenhar o papel do outro!!
10 - Reconhecimento do mérito efectivo; Não somos todos iguais!!
11 - Fim das grelhas classificativas,com critérios meramente quantitativos, adopção dos portefólios de desempenho; Os alunos não são adições em excell!
12 - Programas mais amplos e adaptáveis às diferentes realidades do meio; Não temos de saber todos a mesma pequena parte do conhecimento!

E pronto, vou para Férias!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Vazio


Ninguém, e o mar, imenso, ali, exposto e provocador, trazendo-lhe memórias, vidas, excertos de literatura, Poetas desaparecidos... Ó mar salgado! E Sophia a intrometer-se, garantindo que quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar. O vazio, surpreendente em Julho, sugeria a crise. Ou seria, apenas, o acaso? A hora, o céu carregado?
No mar, resistiam ums surfistas, teimosos, tentando o equilíbrio sobre as ondas enroladas, estoirando com força como se quisessem sacudir as pranchas incomodativas. Ao largo, três navios enormes, de edificado à proa, talvez partindo, ou talvez chegando, quase entre Torres, a caminho de Lisboa. Na esplanada vazia, aninhavam-se mil desejos com os sentires inquietos. De que falavam? O que diziam? E a música a vir também, sem necessitar de convite, para garantir que...nem às paredes confesso!!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O rei na barriga

Portugal tem levado o ano de 2010, entre crises e escândalos, a assinalar os 100 anos da implantação da República. Foram as escolas, os políticos, os museus, algumas autarquias, quem, no fundo, queria folclore, que agarrou o pretexto da República para realizar cerimónias, festas e discursos sonoros. Entre tanta parangona, pouco se falou do regicídio, do sofrimento de uma família real que, para além de real, era também humana. Parece, aos olhos da História, que foi legitimado um crime horrível em nome da instauração de um novo regime que, por si só, nada trouxe de bom a Portugal. Aliás, olhe-se a História e perceber-se-á, tristemente, que só uma ditadura viria trazer ao país alguma "tranquilidade" - amaldiçoada e terrível!
Apesar de ser uma defensora da República, apenas porque acho que ninguém merece nascer condenado a governar..., faz-me impressão o regicídio, comove-me o sofrimento da Rainha que viu morrer o filho, que viu balear o marido (a ordem não é arbitrária!).
Hoje, atravessando Lisboa, reparei no número exagerado de Palácios, de Belém às Necessidades, e não resisto a concluir que, apesar do regicídio ter acontecido há 100 anos, ainda muitos portugueses carregam o rei na barriga...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Férias


Estão aí, para muitas pessoas, as férias. É o tempo em que parece haver mais céu do que terra, em que os problemas são adiados, em que se ouvem, com frequência, suspiros de alívio e gargalhadas mais livres.
Curiosamente, há muita gente que aproveita as férias para, simplesmente, trocar de rotina. Trocam as filas matinais para os empregos, pelas filas para a praia; a coscuvilhice dos vizinhos, pelas observações da família do toldo ao lado; os almoços à pressa, por sandwiches enjoativas... Mas, são férias!
Um destes dias, atravessando o meu Alentejo, reparei na imensidão de terra coladinha ao céu, na paisagem fantástica, no silêncio, no ar que limpa, e não resisti a pensar que, se calhar, valia a pena trocar o destino de férias de muitos portugueses. É que, acho eu..., cada vez há mais pessoas distraídas da vida, centradas nas aparências, indiferentes ao essencial e, acredito mesmo!, um tempo de silêncio e essência pode ajudar-nos a encontrar-nos com o sentido do Mundo.
Porque quero acreditar que tem de haver um sentido, para além da loucura vigente, para lá das medidas que, absurdamente, o governo português adopta todos os dias...
Boas férias!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tentações


Fernando Pessoa disse "Deus, ao mar o perigo e o abismo deu// Mas nele é que espelhou o céu". Muitas vezes, olhando Mar, penso nestes versos e, quase imediatamente, no destino português.
O país está virado para o mar, surge como que à beirinha de uma Europa que o não reconhece, de olhos postos nas ondas, no céu espelhado nas águas, na imensidão do oceano. Foi no mar que o destino se cumpriu, e foi, quando virámos costas ao mar, que de novo Pessoa gritou "Senhor, falta cumprir-se Portugal!".
Ultimamente, ouvindo falar de escândalos com submarinos, da pobreza e abandono da nossa Marinha, da eventualidade de encerrar (ou mudar de lugar?) o Museu da Marinha, encolhe-se-me a alma de dor. Porque viramos costas ao nosso destino? Porque parecemos temer, e voluntariamente ignorar, o imenso potencial de um Mar que já nos deu glória e fama?!
Serão os portugueses um povo com um futuro eternamente a haver?!
Hoje, quero crer que não. Hoje, vendo o céu plúmbeo refectido no Mar imenso, quero acreditar que ainda há quem não tema o perigo nem o abismo e, com coragem, seja capaz de perceber onde se reflecte o céu...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Olhar para o Ar

É uma expressão vulgar, que serve para repreensões, que se usa quando vemos alguém distraído e se faz de " Mas para que estás tu a olhar para o ar?". É assim parecida com o andar na lua, antes, claro, de até uma cadela lá ter posto as patas. Surpreendentemente, hoje, dei com muitas esculturas, homens, mulheres e crianças, todas a olhar para o ar, e achei piada.
Já as tinha visto muitas vezes mas, como quando vou ao aeroporto de Faro é sempre cheia de entusiasmo por ir ter com a minha filha, ou cheia de tristeza por a ter deixado, nem lhes tenho prestado muita atenção. Hoje, olhei-as com olhos de ver. Há umas sentadas, outras de pé, mas todas olham o céu. Obviamente, não observam pássaros...
Aliás, não observam nada, porque são pedras!, mas podem bem servir para sensibilizar a humanidade, como eu, não para a necessidade de olhar os aviões, mas para a urgência de tirar os olhos do chão e olhar o céu, o futuro, o que vem de cima, do BEM!