Sucedem-se os verdes, os azuis dos rios, o Minho, o Vez, o Lima também. O automóvel circula, seguro, ora serpenteando nas curvas - olha as videiras! olha as vindimas! Olha que solares lindos! - ora veloz nas modernas auto-estradas. A vida passa em paisagens novas, intensas, lembrando-lhe frases lidas, aprendidas de cor, repetidas, ano após ano, aos seus alunos. "Sou a minha própria paisagem" - Pessoa, sempre. E ela a negar o seu poeta, a rir-se, livre, das teias que sente prenderem-na à leitura, à escrita, ao sonho eterno.
Agora, a sua paisagem é feita de descoberta constante, de encantamento face ao que a rodeia, de espanto real perante a força da terra que descobre. Agora, sente de volta o romantismo e apetece-lhe perder-se, "para se encontrar", no Palácio da Brejoeira, nos caminhos empedrados das Vilas minhotas, no falar alegre, sibilado, das gentes sempre simpáticas. Agora, a paisagem não é o seu eu e, por isso, sem culpas saboreia a broa e o vinho - Alvarinho - sentindo que, se a paisagem exterior é o Minho, a interior é o paraíso. Seja lá isso onde for...
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Deu-la-Deu
Foi há muitos anos, no tempo dos Castelos e dos cercos, ainda quando os espanhóis eram inimigos, que Monção ficou cercada pelos cobiçosos. Nada entrava na vila e a fome, terrível, ameaçava já. Então, reza a lenda, uma mulher (sempre a coragem no feminino) jogou uma cartada arriscada: - Mandou que se esgotasse a farinha existente em pão e que, esse mesmo último pão, fosse lançado das muralhas.
Os espanhóis, surpreendidos com tamanha abundância, levantaram o cerco. Hoje, a Deu-la-Deu dá nome a Praça na vila de Monção e está imortalizada numa escultura estranha.
Hoje, os cercos e a fome continuam. Talvez menos visíveis, porventura menos assumidos. E, hoje também, as mulheres continuam a fazer-se de coragem na luta pela salvação daqueles que amam. Há lutas, acho eu, que são só das mulheres. Serão sempre só delas. E, se não deitam o pão pelas muralhas, deitam o coração à vida.
Deu-la-Deu. O rio Minho, a praia LINDA de Moledo e os sentires aos saltos. É bom viver!
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Quimeras
Cartas a Julieta. Um filme inocente, simples, previsível, com um fim que se antecipa facilmente. No entanto, um filme que nos deixa de bem com a vida, em paz com a existêcia, de alma lavada e baterias recarregadas.
A propósito do eterno Romeu e Julieta, conta-se uma história de amores adiados, de procuras antigas, talvez tentando gritar, para lá dos ditos, na metalinguagem do cinema, que para o Amor não há tempos, não há prazos. A enriquecer o filme, as paisagens soberbas da Toscana. As vinhas, os amarelos, Siena, Verona, contrastando com uma Nova Iorque atarefada e cosmopolita.
É bom ver filmes assim. Porque nos fazem sorrir, porque nos aquecem as emoções, porque nos dão vontade de acreditar.
Afinal, a vida não se faz de obras-primas. Pelo contrário, cumpre-se num fazer de pequenas coisas...
A propósito do eterno Romeu e Julieta, conta-se uma história de amores adiados, de procuras antigas, talvez tentando gritar, para lá dos ditos, na metalinguagem do cinema, que para o Amor não há tempos, não há prazos. A enriquecer o filme, as paisagens soberbas da Toscana. As vinhas, os amarelos, Siena, Verona, contrastando com uma Nova Iorque atarefada e cosmopolita.
É bom ver filmes assim. Porque nos fazem sorrir, porque nos aquecem as emoções, porque nos dão vontade de acreditar.
Afinal, a vida não se faz de obras-primas. Pelo contrário, cumpre-se num fazer de pequenas coisas...
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O PIOR É O NADA
Este novo ano lectivo, com polémica como sempre, vem exigir o cumprimento, de um máximo de 12 horas, em cada ano de escolaridade, na área da educação sexual. Como mãe, professora, cidadã, mulher, gostava mais de ver a abordagem desta dimensão noutros moldes. Preferia que se falasse em educação dos afectos, gostava de ver trabalho feito em regime de transdisciplinaridade, gostava de ver bem separada a fisiologia da afectividade. Para mim, fazia mais sentido abordar a dimensão humana da afectividade na sua dimensão mais abrangente. Mais do que falar de preservativo, de SIDA, de gravidez precoce, de aborto, penso ser importante falar de individualidade, de dignidade humana, de respeito pelo outro.
Considero que, num mundo onde parecem premiar-se as agressões e os desentendimentos, os egoísmos e os umbiguismos, fazia sentido abordar-se a sexualidade numa perspectiva essencialmente humana, favorecedora da socialização harmoniosa do indivíduo.
No entanto, e consciente de que "o óptimo é inimigo do bom", penso que é muito importante que o Ministério da Educação tenha dado este passo, tenha tido a coragem de incluir no currículo dos alunos, com tempos específicos atribuidos, a educação dos afectos.
Agora, há que pensar no passo seguinte. Estaremos nós, professores, preparados para abordar esta área de formação? Estarão as famílias, de forma geral, aptas a aceitar esta tarefa que, sem dúvida, terá de ser articulada entre a família e a escola? Tenho muitas dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, muita esperança que a Escola não deixe fugir esta oportunidade de se cumprir no seu papel mais importante: - EDUCAR PESSOAS!!
Considero que, num mundo onde parecem premiar-se as agressões e os desentendimentos, os egoísmos e os umbiguismos, fazia sentido abordar-se a sexualidade numa perspectiva essencialmente humana, favorecedora da socialização harmoniosa do indivíduo.
No entanto, e consciente de que "o óptimo é inimigo do bom", penso que é muito importante que o Ministério da Educação tenha dado este passo, tenha tido a coragem de incluir no currículo dos alunos, com tempos específicos atribuidos, a educação dos afectos.
Agora, há que pensar no passo seguinte. Estaremos nós, professores, preparados para abordar esta área de formação? Estarão as famílias, de forma geral, aptas a aceitar esta tarefa que, sem dúvida, terá de ser articulada entre a família e a escola? Tenho muitas dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, muita esperança que a Escola não deixe fugir esta oportunidade de se cumprir no seu papel mais importante: - EDUCAR PESSOAS!!
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Prefixo RE
Re-começo. Re-início. Re-viver. Re-etc. Um etc sem fim porque, sei lá porquê, a vida usa e abusa do prefixo re. Às vezes, para mim, o RE surge carregado de nostalgia, de receios, de temores. É sempre assim, no início do ano lectivo! Um re-começo que me atrai, estou sempre cheia de saudades dos alunos, mas que, simultaneamente, me assusta. Todos os anos, ultimamente, re-torno à vida profissional com a alma encolhida. É que as mudanças anunciadas são, cada vez mais, perfeitamente idiotas e assustadoras! A cada RE-início escolar sinto mais longe o meu sonho de uma escola inteligente, moderna e com sentido. Vou voltar às aulas, aos meus alunos desafiantes, aos jovens com o direito de crescer e não só, como a Escola pretende, de envelhecer.
Felizmente, também há RE que anunciam novas oportunidades, novos futuros!!!
Felizmente, também há RE que anunciam novas oportunidades, novos futuros!!!
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Reciclagem
Era um velho palacete. As paredes grossas, os tectos trabalhados,as portas altas, os azulejos gastos denunciavam, com visível tristeza, histórias antigas, dos tempos das grandes famílias, das casas ruidosas, das mesas cheias e dos quartos ocupados. Cá fora, olhando para o jardim dos Mal-Encarados,a frontaria de azulejo pedia a piedade da recuperação.
Desconhecedores do nome do pequeno jardim, por antinomia bem-humorados, eles chegaram à velha casa, agora hotel, dispostos a descansar. O Palacete recebeu-os, condescendente, não os acusando de intromissão abusiva mas deixando perceber, talvez pelas janelas mal fechadas, que eram por necessidade acolhidos. Sim, eram estranhos à velha Casa, cansada e gasta, humilhada na reciclagem mal feita, sofrida por abandono e agressão. Foi-lhes entregue uma chave antiga, pesada, e, no olhar curioso, aos poucos, foi crescendo a certeza de que aquele lugar, ali mesmo no coração alentejano, merecia bem mais do que um pace-maker de modernidade...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Espuma
É como a espuma do mar, a vida. Acontece em ondas, sucessivas, ora calmas, ora violentas, leva-nos ao cume e, rapidamente, estende-nos por terra. Desfaz-se nas mãos, a espuma das ondas, e gasta-se em mil nadas a vida vivida. Como a onda morre na areia, morre a vida depressa demais. Tão ténue a espuma. Tão ténue a vida.
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