terça-feira, 5 de outubro de 2010

Triste República


Foi um dia em cheio. Dia de discursos, de representações, de espectáculos, de esperança e, creio, de alguma alegria no quotidiano entristecido.
Lisboa encheu-se de cor, de música, de gente e de sol. O Tejo, polvihado de velas, era o tapete azul original, a esteira de um sonho de outrora, de um Império perdido, de um país dolorosamente adiado.
Eu sou republicana. Ou era... É que, ultimamente, começo a repensar as minhas convicções. Olhando a Europa, vejo grandes monarquias que me causam alguma inveja. Viverão pior os suecos, os dinamarqueses, os ingleses, os belgas, os noruegueses, e tantos outros, todos governados por monarquias, do que nós na nossa República miserável e triste? Duvido... Se, sem dúvida, me soube bem ouvir o hino, lembrar a história do tempo em que por ideais se morria, por outro lado, em mim, ficou um buraco negro cheio de dúvidas, de descrença, de desesperança.
Mais do que festejar um regime em crise, creio, seria importante pensar o futuro. Validar a vontade, e o sentido, de se ser Português.
Às vezes, canso-me deste eterno labirinto de saudade...

domingo, 3 de outubro de 2010

Chuva!

Chegou de noite, sem alarde nem aviso,como é próprio do que de facto vale a pena, e deixou a rua limpa, os automóveis molhados e as vidraças cheias de ribeirinhas activas. Encontrei-a pelas quatro da manhã quando, desperta pela angústia do meu país, resolvi sair da cama para enganar a insónia. Tinha saudades dela! Saudades do fresco limpo, do ar vítreo que ela dá ao mundo, da música ping-pongueada (se há acordo, porque não posso também criar os meus neologismos?)que faz nas minhas janelas. Enchi a banheira de água bem quente e fiquei ali, de molho, consciente de que, ao contrário do bacalhau, o meu aspecto em nada melhoraria, conversando em silêncio com a chuva, também ela feminina, também ela mulher. Falei-lhe do meu país sem rumo, do futuro eternamente adiado, das angústias de um quotidiano cada vez mais duro, da desesperança dos jovens que lutam por sair de Portugal, das celebrações pomposamene ridículas de uma república oca e miserável. Senti chover com mais intensidade. Juro!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Avaliem-se uns aos outros

Quando Cristo andou neste mundo, ou noutro mais humano, dizia (contam) "amai-vos uns aos outros!" era uma mensagem bela, intensa, tecida de muitos ditos por dizer.
Um destes dias, numa reunião das mil reuniões de nada que fazem agora a vida das escolas, fiquei a saber que o Ministério da Educação adoptou a máxima "Avaliem-se uns aos outros".
A ordem é económica: - Quem ganha mais, quem está nos índices de vencimento mais altos, avalia os que ganham menos. É um critério. Idiota, como é costume no ME, mas aceite pelos professores que parecem, na sua maioria, adaptados, ou vencidos?, pelas barbaridades do indigno estatuto que lhes impingiram. Para completar a estupidez desta avaliação, há equipas a construir os pomposamente designados instrumentos de avaliação, invariavelmente fichas e grelhas de mil cruzinhas e rebuscados parâmetros. Há aberrações tão anedóticas, tristemente anedóticas, como ser-se notado pelas actividades que se dinamizam e, simultaneamente, ser-se penalizado por falta de assiduidade quando, para se realizarem as ditas actividades, não se dá alguma aula..
Lembrando as palavras de Cristo, peço-Lhe que me desculpe por não ser capaz de amar o ME. Acho que Ele deve aceitar que amar os carrascos, só mesmo um ser divino consegue!

Colapso democrático

Mais medidas de austeridade, mais furos no cinto que já tem forma de banda gástrica. Sobe o IVA, os impostos, o custo de vida e, ao mesmo tempo, desce a qualidade de vida, descem as reformas, desce o poder de compra. Assim, creio eu, se destrói uma sociedade, se sufoca um povo inteiro.
Ouvi as medidas anunciadas com tristeza e já sem revolta. Sinto-me, como muitos portugueses decerto, uma condenada. Condenada a uma vida que não quero, ao desmando de um governo que não escolhi, à tristeza de um povo que não compreendo.
A democracia está a colapsar. As pessoas, algumas ainda humanas, descrêem do poder da sua intervenção, da força da organização política e social e, também por isso, isolam-se, demitem-se de participar, tentam soluções individuais. Quando a Democacia falha, surgem as ditaduras, a força de poucos, o domínio da injustiça, o fim da liberdade.
Hoje, tenho medo. Medo por pensar que, do desnorte actual, da loucura vigente,se faz o caminho da chegada da ditadura...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Outono

É sempre assim no fim de Setembro. Vem um vento fresco, os dias encurtam, as folhas enchem o meu quintal e as nozes, às vezes violentamente, caem da velha nogueira. É a época, para mim, do ouro real. Os campos brilham, os castanhos enchem a minha Serra e o tempo parece ceder à pressa constante. Gosto de abrir a janela e deixar entrar o vento fresco. Gosto de voltar às minhas botas e de, com o casaco eterno e gasto, caminhar no espaço que é meu.
Quando era miúda, há tanto tempo..., escrevia longas composições sobre o Outono, as castanhas e, claro, os ouriços. Lembro-me de olhar o quintal e de, depois, com a minha caneta Parker de tinta permanente (nome bem estranho, pensava, vendo a tinta esgotar-se num instante...)encher as folhas do caderno novo. A cheirar a aprender, como eu achava então.
Hoje, ao ligar o meu computador, velhinho, com teclas a prender e a falhar, tive saudades do cheiro a aprender, das folhas novinhas, e da letra, feia mas minha!, que enchia as folhas brancas. Este Outono,pouco fresco ainda, trouxe-me a nostalgia da infância. Teria sido a influência de Pessoa?

domingo, 26 de setembro de 2010

À Venda

Só 100 euros, barato, garante o vendedor. É um clarinete usado, velho, sem bucal. Vinte e cinco euros, só!, garante, num sorriso gasto, a velha senhora indagada sobre o valor da argola de prata.
Vende-se de tudo um pouco: - loiça, discos em vinil, peças de cozinha, mesas, cadeiras, tachos de cobre, bonecos, brinquedos, colares, anéis, pulseiras, caixinhas e caixotes, sapatos, quadros, molduras, memórias de outras vidas, de outros tempos também. É a Feira das Velharias! Acontece aos domingos, entupindo o passeio, complicando o estacionamento, enchendo de memórias alheias o espaço habitualmente vazio de sentires.
Em mim, vagueando por ali, surge uma nostalgia incómoda. Lembro a existência de muitos daqueles objectos nas minhas memórias de criança. Recordo as caixas de grão, farinha, açucar, arroz e massas, na cozinha de minha casa. Lembro as argolas de prata, com os nomes gravados, que seguravam os nossos guardanapos. Saio da Feira com alguma tristeza. Imagino a dor daqueles que têm de se desfazer de vivências, de presenças em vidas passadas. Mas talvez eu esteja errada. Talvez eu esteja a viver a Feira das Velharias com as minhas lentes lagóias de aumentar. De repente, entrando no meu texto sem licença, vem o cheiro do mar, o bem-estar daquele barzinho que me encanta, ali mesmo junto a Carcavelos, onde os empregados, simpáticos e diligentes, usam t-shirts onde se lê: "A tecnologia vende-se. A mentalidade educa-se!".

sábado, 25 de setembro de 2010

Tejo


Lisboa tem o Tejo. O Tejo dos poetas, das tágides, do Fado, dos apaixonados. O Tejo! Bem cedo, antes do acordar da modernidade, junto ao sonho líquido há esplanadas vazias, convidativas, calmas, onde, com sossego e longe do bulício da capital, se pode tomar um café gostoso. Das esplanadas, vê-se o mundo. Não o mar! Esse, disse o Poeta, vê-se da nossa língua portuguesa. Ali, nas cadeiras coloridas, com a bica a quase dois euros, vê-se a sociedade construída à imagem de muitas imagens.
Gosto de ir ali, de não tirar os óculos escuros e de reparar no mundo que integro. Acho piada aos miúdos, que correm até aos limites impostos, aos namorados de olhar doce, às amizades em conversas secretas. Ao mesmo tempo, acho ridículos os fatos de treino, os suores exagerados, os/as cinquentões de phones, ténis da moda - boas e conhecidas marcas!-, em corridas que sempre me parecem exageradas. Correrão contra o tempo? Inútil! Correrão pela saúde? Parecem-me exaustos! Correrão por prazer? Que prazer se pode tirar de suor e estafanço?! Sim, claro, há o lema "mente sã em corpo são". Mas será são um corpo entradote, suado, corrido, estafado? Tenho dúvidas...
Longe das corridas, deixo correr a imaginação e vejo a partida dos portugueses, ali mesmo em Belém, chegando a ouvir o choro daqueles que se despediam. Ó mar salgado...
O Tejo. Uma esteira de sonho. Para mim, também.