Está aí a Feira da Golegã. É uma Feira-Festa de tradição, camaradagem e, quero crer, autenticidade. Na Golegã passeiam os cavaleiros, desfilam os cavalos, encontram-se as amazonas a rigor, os chapéus de aba larga, os bigodes históricos e os muitos fumos cheirosos e quentes das obrigatórias castanhas. Na Golegã fazem-se, ou faziam-se?, negócios, e vivem-se, ou viviam-se?, momentos de divertida amizade.
A Feira do Cavalo não é uma feira qualquer e, passeando por lá, tentando escapar à lama, evitando, sorrindo, esbarrar com um cavalo, sente-se a existência de um Portugal que querem matar, diluir no todo Europeu que é nada. Ali, ser português não é ser triste e infeliz, não é imitar os outros (porventura menos miseráveis), não é repetir chavões ocos. Faz sentido, faz bem à existência da gente, ir à Feira da Golegã!
sábado, 6 de novembro de 2010
domingo, 31 de outubro de 2010
Educação. A falta dela
Era um filme sem estrelas, feito de uma história terna, de amizades e amores, entregas e cumplicidades, com uma sala nem meio cheia.
Logo no início, as gargalhadas exageradas, fora de propósito, de meia dúzia de miúdos, 14 ou 15 anos, sentados na última fila. Soaram alguns "chiuusss!!" irritados , a que responderam gracejos desgradáveis, e começou o filme. Aina mal a história tinha começado e já choviam pipocas, as malditas pipocas dos modernos cinemas, em cima de quem, como nós, tinha decidido fugir à chuva vendo um bom filme. Novos protestos. Uma senhora reclamava, "tirem os pés de cima de mim!" e o desespero protestado impedia o gozo do filme. No intervalo, a queixa impôs-se, e os miúdos, sob a ameaça de polícia, foram obrigados a abandonar a sala. Uma senhora, furiosa, garantia que já lhe bastava toda a semana, na escola, a aturar más educações. Era professora... Eu fiquei quieta, observando e experimentando uma dolorosa sensação de compreensão.
Também sou professora e, como a minha colega, também eu sou confrontada, cada vez mais, com miúdos insolentes, mal-educados e a quem, francamente, fazia bem um bom par de estalos. Saí do cinema quase satisfeita com o tempo passado, de alma lavada por uma história de amores felizes (só no cinema!!) mas preocupada com o meu mundo. Que sociedade é esta que deixa que os jovens cresçam sem regras, como animais selvagens, pisando quem lhes apetece e desrespeitando tudo e todos?! Lembrei-me de alguns dos alunos que, este ano, tenho numa turma de 11º ano. Podiam bem integrar o grupo que vi ser expulso do cinema. Miúdos estranhos, estes. Ou mundo estranho, este?
Logo no início, as gargalhadas exageradas, fora de propósito, de meia dúzia de miúdos, 14 ou 15 anos, sentados na última fila. Soaram alguns "chiuusss!!" irritados , a que responderam gracejos desgradáveis, e começou o filme. Aina mal a história tinha começado e já choviam pipocas, as malditas pipocas dos modernos cinemas, em cima de quem, como nós, tinha decidido fugir à chuva vendo um bom filme. Novos protestos. Uma senhora reclamava, "tirem os pés de cima de mim!" e o desespero protestado impedia o gozo do filme. No intervalo, a queixa impôs-se, e os miúdos, sob a ameaça de polícia, foram obrigados a abandonar a sala. Uma senhora, furiosa, garantia que já lhe bastava toda a semana, na escola, a aturar más educações. Era professora... Eu fiquei quieta, observando e experimentando uma dolorosa sensação de compreensão.
Também sou professora e, como a minha colega, também eu sou confrontada, cada vez mais, com miúdos insolentes, mal-educados e a quem, francamente, fazia bem um bom par de estalos. Saí do cinema quase satisfeita com o tempo passado, de alma lavada por uma história de amores felizes (só no cinema!!) mas preocupada com o meu mundo. Que sociedade é esta que deixa que os jovens cresçam sem regras, como animais selvagens, pisando quem lhes apetece e desrespeitando tudo e todos?! Lembrei-me de alguns dos alunos que, este ano, tenho numa turma de 11º ano. Podiam bem integrar o grupo que vi ser expulso do cinema. Miúdos estranhos, estes. Ou mundo estranho, este?
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Os Chinas
Parece que a China está disposta a comprar a dívida portuguesa, ou parte dela. Fizeram o mesmo com os Estados Unidos e, a continuarem as políticas que vigoram nesta Europa envelhecida, poderão comprar muito mais dívidas a curto prazo. A China é um país comunista com uma economia forte, com muito dinheiro, produzindo de tudo a preços baixos. Como o faz, parece pouco interessar aos grandes senhores da política. A mim, incomoda-me. Dói-me, revolta-me, saber que há seres humanos, PESSOAS, que trabalham em condições deploráveis, sem dignidade alguma, sem direitos, muitas vezes tendo por paga apenas uma malga de arroz! Não consigo aceitar um regime com presos políticos, sem respeito pela liberdade individual, tirano e violento. Não compreendo regimes totalitários e se, muitas vezes, digo que "a diferença entre o comunismo e o socialismo é a mesma que há entre um funeral e um enterro", faço-o brincando. No fundo, o comunismo ainda consegue ser pior que o socialismo ( o Hitler era socialista...), porque é mais castrador da individualidade.
Não quero imaginar o destino de Portugal se os chineses vierem tomar conta da nossa economia (mais ainda, porque eles já estão por aí aos milhares). Tenho medo do que poderá acontecer porque, sinceramente, um governo que parece só se entender com tiranos como o Hugo Chávez apavora-me! Queria, para Portugal, um governo mais focado nas Pessoas, na Cultura, na produção e no investimento. Queria políticas capazes de favorecer o investimento, e não estranguladoras do mesmo. Queria um país a ser, e não um país a falecer!!
Não quero imaginar o destino de Portugal se os chineses vierem tomar conta da nossa economia (mais ainda, porque eles já estão por aí aos milhares). Tenho medo do que poderá acontecer porque, sinceramente, um governo que parece só se entender com tiranos como o Hugo Chávez apavora-me! Queria, para Portugal, um governo mais focado nas Pessoas, na Cultura, na produção e no investimento. Queria políticas capazes de favorecer o investimento, e não estranguladoras do mesmo. Queria um país a ser, e não um país a falecer!!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Coisas desta República
Muito se tem dito, e feito, a propósito dos 100 anos da nossa República. Publicações, festas, Seminários, Conferências, exposições, de tudo tem havido. Às vezes, parece-me estar a assistir a uma desesperada operação de branqueamento da História, outras vezes aprendo muito, outras vezes ainda rio-me e aplaudo.
Ontem, vivi mais uma experiência portuguesa e, claro, republicana. Fui visitar a Exposição, muito boa e recomendável, que se encontra na Cordoaria Nacional. Cheguei curiosa, com o olhar lavado pelo Tejo fronteiro, desejosa de aprender e viver momentos de saber. Começou por ser assim. Entrei, validei o bilhete (gratuito) numa maquineta muito electrónica e luminosa e fui avançando. Comigo e com o meu marido, escolas e professores, vivendo a História, quero crer que, de facto, desenvolvendo competências.
Para minha decepção, ao ler, atentamente, os textos informativos/explicativos, o meu coração tremeu. Pobre língua portuguesa!!! A dada altura, em parangonas, lia-se que, e cito "(...) em 1917 Portugal estava todo cobrido (...)!! Mais adiante, alertava-se para a Associatização!! E havia, há!!, muito mais.
Saí da Cordoaria muito angustiada. Afinal, que povo seremos, ou somos, que espécie de republicanos criamos, se nem a nossa língua, a expressão dos nossos sentires e pensares, sabemos respeitar?!
Não consigo deixar de pensar nas coisas que esta República tece...
Ontem, vivi mais uma experiência portuguesa e, claro, republicana. Fui visitar a Exposição, muito boa e recomendável, que se encontra na Cordoaria Nacional. Cheguei curiosa, com o olhar lavado pelo Tejo fronteiro, desejosa de aprender e viver momentos de saber. Começou por ser assim. Entrei, validei o bilhete (gratuito) numa maquineta muito electrónica e luminosa e fui avançando. Comigo e com o meu marido, escolas e professores, vivendo a História, quero crer que, de facto, desenvolvendo competências.
Para minha decepção, ao ler, atentamente, os textos informativos/explicativos, o meu coração tremeu. Pobre língua portuguesa!!! A dada altura, em parangonas, lia-se que, e cito "(...) em 1917 Portugal estava todo cobrido (...)!! Mais adiante, alertava-se para a Associatização!! E havia, há!!, muito mais.
Saí da Cordoaria muito angustiada. Afinal, que povo seremos, ou somos, que espécie de republicanos criamos, se nem a nossa língua, a expressão dos nossos sentires e pensares, sabemos respeitar?!
Não consigo deixar de pensar nas coisas que esta República tece...
sábado, 16 de outubro de 2010
Medo
Hoje, tenho medo de viver em Portugal!Ligo a televisão com medo, angustiada, receando sempre más (piores) decisões do governo do meu país. Sei que o medo é provocado, muitas vezes, ou sempre?, pela nossa incapacidade de evitar algo. Surge ligado a uma impossibilidade de fuga! Ora, agora, é o que sinto em Portugal. Tenho MEDO porque me sinto sendo sufocada, esmagada, explorada e, por mais que eu queira, não tenho como escapar, não tenho para onde fugir! Oiço os ministros como um condenado ouve os algozes e temo a morte anunciada de um país que é o meu.
Hoje, estou com medo. Porque o orçamento me parece ineficaz, porque as medidas de contenção de despesa me soam como medidas de sufoco de existência. Hoje, tenho medo do futuro negro que, com certeza, se prepara para Portugal.
Ter medo é sentir-me manietada. Presa em teias invisíveis mas intensas. Hoje, estou assim: - apavorada nas teias desgovernadas do meu Portugal a entristecer!!
Hoje, estou com medo. Porque o orçamento me parece ineficaz, porque as medidas de contenção de despesa me soam como medidas de sufoco de existência. Hoje, tenho medo do futuro negro que, com certeza, se prepara para Portugal.
Ter medo é sentir-me manietada. Presa em teias invisíveis mas intensas. Hoje, estou assim: - apavorada nas teias desgovernadas do meu Portugal a entristecer!!
domingo, 10 de outubro de 2010
No Monte
Sentou-se na rua, no pátio largo, empedrado, na companhia do cães. Eram três, rafeiros, alentejanos como ela, calmos e fiéis, disponíveis sempre para uma caminhada, para uma brincadeira, para uma torrada partilhada. Vira-os aproximarem-se da cadeira baixa, afagara-os e ficara embalada pelo respirar fundo, quase ressonar humano, que os fazia mover os lombos largos. Ao fundo,para lá da cerca, os sobreiros, os troncos sangrando ainda pela ferida do descasque recente. Era a maior riqueza do velho Monte, a cortiça boa que, a cada sete ou nove anos, era tirada das árvores grossas. Tinham sorte, os sobreiros, pensava sorrindo.Tiravam-lhes a pele rugosa, o resultado de anos vividos, e ficavam de novo jovens, vendo renascer a própria riqueza. Não morriam sangrando, pensava.
Ali, no velho Monte, onde sempre chegava com a certeza de recuperar as raízes, sentia-se livre das teias da modernidade e das tarefas obrigatórias. No velho Monte, só os sobreiros podiam agora ter a certeza do futuro.
Ali, no velho Monte, onde sempre chegava com a certeza de recuperar as raízes, sentia-se livre das teias da modernidade e das tarefas obrigatórias. No velho Monte, só os sobreiros podiam agora ter a certeza do futuro.
O Farol
Batia forte, revoltoso, zangado talvez, nas rochas próximas. Os barcos, frágeis, pareciam de papel sobre aquela fúria, subindo e descendo, perigosamente, como se quisessem fugir, escapar, à raiva súbita da águas.
Do velho farol, perto da lâmpada apagada, ele olhava o cenário. Dantesco, quase. E, simultaneamente, arrebatador. Há quanto tempo estava ali? Olhou o relógio sem ver a hora sequer. Que importância tinha o tempo, o Chronos preso no pulso, quando a vida se fazia de sentires?!
Gostava do velho farol, enorme e firme, lugar onde sempre se refugiava quando a vida, ou a existência?, se tornava difícil demais. Procurava a solidão, o silêncio, a segurança de se saber a muitos metros do solo com, apenas, o oceano por testemunha. Naquele velho farol guardava um casaco gasto, cotovelos rotos, borboto, e a quentura que só ganham as coisas que se fundem em nós com a passagem do tempo. Sentava-se na cadeira de verga, há quanto tempo a trouxera?, enchia de café forte a caneca de barro e ficava olhando. Ali, misturavam-se imagens e memórias, afogavam-se angústias e recuperavam-se saudades. Ali, com os pés em cima de um abandonado caixote de sardinhas, podia ressonar sem incomodar ninguém, chorar sem que fossem vistos o lago que as lágrimas, salgadas como o oceano que amava, faziam no rosto sulcado. Ali, ele era mais ele. Olhou de novo os barquinhos frágeis, sorriu aos nomes curiosos que muitos tinham - "Estrela do Futuro", "Maria da Conceição", "Bom futuro", denunciando a necessidade de, sempre, os homens criarem laços, lançarem ferro na essência humana. Também ele, várias vezes, lançara o ferro. Fizera-o em momentos de tempestade, sim, mas em tempos de acalmia também. Agora, ali, pensava como lhe fazia falta, tanta falta!, o coração onde ´largara o ferro´...
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