sexta-feira, 19 de novembro de 2010
A Cimeira
Com o país na miséria, com o mundo em colapso ético, está aí a cimeira da NATO. As televisões, será de propósito?, dão mais atenção ao caos instalado em Lisboa, às alterações ao trânsito, do que aos assuntos a abordar na cimeira que, insistem, decorrerá "sob os mais elevados níveis de segurança". A NATO surgiu para defender a Europa democrática da ditadura da ex-URSS. Pretendia ser, pelo menos aprendi assim, uma forma de unir esforços para manter a paz e, talvez seguindo a velha máxima "Se queres a Paz, prepara a Guerra", constituia-se como um organismo de defesa. Agora, parece, a NATO reúne os decisores das guerras. Reúne aqueles que, eleitos pelo cidadão comum (a palavra povo está oca de sentido) se afastam desse mesmo cidadão com correntes de segurança, armas e ruas vazias. De facto, esta cimeira é estranha. Parece não fazer nenhum sentido, não justificar os gastos exagerados, mas, simultaneamente, o que seria desta velha Europa se se acabassem as organizações de defesa? Hoje, felizmente!, não estou em Lisboa!!
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Um cigarro
Saíu da aula com os cigarros na mão, na ânsia de fumar, com medo da escassez do intervalo, pendurando o cigarro nos lábios enquanto descia as escadas. Lá fora, a chuva. Lá dentro, a humidade no chão, os muitos colegas a empurrarem, os vidros embaciados, os professores tentando não serem abalroados. Pensava no teste que acabara de fazer, Álvaro de Campos e o intimismo, e sentia-se irmanada na angústia existencial traduzida no poema.
Verificou se os cigarros dariam até ao fim do dia, enquanto, batendo os pés para afastar o frio, se encostava a um auomóvel, na rua já, para gozar o intervalo. Não percebia a lógica, se é que existia, de ter de sair da escola, de se molhar, de apanhar frio, para fumar um cigarro. Mas, de verdade, não percebia muitas das lógicas, a maioria institucionais, que se lhe impunham no quotidiano.
Ouviu a campainha, tinha de voltar. Tinha acabado de acender o segundo cigarro que, furiosamente, fumou antes do toque de feriado. Voltou para dentro, rindo, ao reparar, na entrada da Escola, no grande cartaz anunciador do Dia Mundial contra o Tabaco. De facto, a vida das parangonas nada, ou muito pouco, lhe dizia. Talvez fosse dos 17 anos, como o pai costumava dizer.
Verificou se os cigarros dariam até ao fim do dia, enquanto, batendo os pés para afastar o frio, se encostava a um auomóvel, na rua já, para gozar o intervalo. Não percebia a lógica, se é que existia, de ter de sair da escola, de se molhar, de apanhar frio, para fumar um cigarro. Mas, de verdade, não percebia muitas das lógicas, a maioria institucionais, que se lhe impunham no quotidiano.
Ouviu a campainha, tinha de voltar. Tinha acabado de acender o segundo cigarro que, furiosamente, fumou antes do toque de feriado. Voltou para dentro, rindo, ao reparar, na entrada da Escola, no grande cartaz anunciador do Dia Mundial contra o Tabaco. De facto, a vida das parangonas nada, ou muito pouco, lhe dizia. Talvez fosse dos 17 anos, como o pai costumava dizer.
domingo, 14 de novembro de 2010
O mistério das coisas...
Chegou a casa cansada, esgotada, oca também. Sempre a confundia, dolorosamente, a sensação de vazio que experimentava quando, depois de muito trabalho, lhe surgia a incómoda pergunta "para quê". Muitas vezes, nas viagens constantes, sozinha, acompanhada pela eterna RFM, pensava que a modernidade tinha o condão de desumanizar existências. Tudo se resumia ao dinheiro, à necessidade de o ganhar, à urgência de o reter. Era a crise, talvez.
Mas, mais do que a crise económica, doía-lhe a crise de valores, o vazio que fazia a existência. Era um mistério, para ela, a condição humana. Ou, se calhar, o maior mistério das coisas era, como dizia Caeiro, as coisas não terem mistério nenhum... Vivia-se, trabalhava-se e morria-se. Apenas. Com uma existência física, igual à dos bichos, das coisas, das pedras até. Mas ela recusava o real objectivo aparente de Caeiro, o Carpe Diem de Ricardo Reis. Ela queria a poesia da montanha, o ritmo das marés, a melodia da chuva, o sopro do vento. Se não queria ir na vida triunfante como um automóvel último modelo, qual Campos, queria, tanto-tanto, poder saborear o mistério maior de todas as coisas. Esse mesmo. Apenas.
Mas, mais do que a crise económica, doía-lhe a crise de valores, o vazio que fazia a existência. Era um mistério, para ela, a condição humana. Ou, se calhar, o maior mistério das coisas era, como dizia Caeiro, as coisas não terem mistério nenhum... Vivia-se, trabalhava-se e morria-se. Apenas. Com uma existência física, igual à dos bichos, das coisas, das pedras até. Mas ela recusava o real objectivo aparente de Caeiro, o Carpe Diem de Ricardo Reis. Ela queria a poesia da montanha, o ritmo das marés, a melodia da chuva, o sopro do vento. Se não queria ir na vida triunfante como um automóvel último modelo, qual Campos, queria, tanto-tanto, poder saborear o mistério maior de todas as coisas. Esse mesmo. Apenas.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Nem em pesadelo...
Falar de Educação, ou em Educação, ou da Escola pública, parece-me,às vezes, um desperdício. Porque ninguém ouve, porque nada vai mudar, porque sinto que o meu pensar, e sentir, estão cada vez mais afastados da minha realidade profissional. Assim, tenho optado por me calar, por guardar para mim, e para os que me são mais próximos (pobre família)as minhas angústias e decepções.
No entanto, às vezes, a minha infelicidade profissional é tanta que não resisto a dar-lhe letra. Foi o que, hoje, me aconteceu.
Fui superiormente informada que vou ser vigiada, controlada e denunciada, pelos assistentes operacionais da minha Escola. Desta vigilância, policiamento, poderá resultar, após apresentação da denúncia ao Director, uma notificação - via mail (há que valorizar as TIC!) e, finalmente, uma punição sob a forma de falta injustificada.
Recebi esta informação, numa reunião de Departamento, entre incrédula e desesperada. Que sentido faz ter os assistentes operacionais (eram os antigos funcionários auxiliares de acção educativa) a fazerem serviço de delatores, de bufos, de espiões? E como se pode explicar, já nem falo em justificar..., a desconfiança dos meus superiores em relação ao meu desempenho? Fará sentido criar-se na Escola um clima pidesco de vigilância e denúncia? Será razoável notificarem-se professores se, por exemplo, deixarem alunos ir à casa de banho, ou comprar água?!!
Não percebo, não concordo.
Mas aceito. Porque não tenho outro remédio. Porque começo a compreender que sou paga para obedecer e não para pensar, nem para educar sequer.
Na minha Escola as portas das salas são de vidro, e os assistentes operacionais passeiam nos corredores com frequência. Agora, sempre que os vir passar, sentir-me-ei vigiada, espiada!! Estarão a ver se os alunos estão sentados? Se estão em pé? Se nos rimos? Se trabalhamos em grupo? Se eu sei o que estou a fazer?
Não era assim que eu sonhava a minha escola. Esta Escola, nem nos meus piores pesadelos a imaginei. Defendo uma Escola moderna, responsável, capaz de não se confinar ao espaço sala e aos manuais escolares. A Escola de hoje, defendo, deveria investir na autonomia, na diversidade de experiências,na liberdade do professor para inovar processos e desenvolver competências.
Se o clima de escola já estava ferido de morte com as leis absurdas da avaliação de docentes, agora vai deteriorar-se ainda mais.
Eu, professora por opção, preocupada em fazer sempre melhor, nunca virando costas a desafios e trabalho, tenho vontade de mudar de profissão. Talvez fazer uma formação nas novas oportunidades e, quem sabe?, tornar-me pastor. É que pelo menos o comportamento das ovelhas já vou adquirindo...
No entanto, às vezes, a minha infelicidade profissional é tanta que não resisto a dar-lhe letra. Foi o que, hoje, me aconteceu.
Fui superiormente informada que vou ser vigiada, controlada e denunciada, pelos assistentes operacionais da minha Escola. Desta vigilância, policiamento, poderá resultar, após apresentação da denúncia ao Director, uma notificação - via mail (há que valorizar as TIC!) e, finalmente, uma punição sob a forma de falta injustificada.
Recebi esta informação, numa reunião de Departamento, entre incrédula e desesperada. Que sentido faz ter os assistentes operacionais (eram os antigos funcionários auxiliares de acção educativa) a fazerem serviço de delatores, de bufos, de espiões? E como se pode explicar, já nem falo em justificar..., a desconfiança dos meus superiores em relação ao meu desempenho? Fará sentido criar-se na Escola um clima pidesco de vigilância e denúncia? Será razoável notificarem-se professores se, por exemplo, deixarem alunos ir à casa de banho, ou comprar água?!!
Não percebo, não concordo.
Mas aceito. Porque não tenho outro remédio. Porque começo a compreender que sou paga para obedecer e não para pensar, nem para educar sequer.
Na minha Escola as portas das salas são de vidro, e os assistentes operacionais passeiam nos corredores com frequência. Agora, sempre que os vir passar, sentir-me-ei vigiada, espiada!! Estarão a ver se os alunos estão sentados? Se estão em pé? Se nos rimos? Se trabalhamos em grupo? Se eu sei o que estou a fazer?
Não era assim que eu sonhava a minha escola. Esta Escola, nem nos meus piores pesadelos a imaginei. Defendo uma Escola moderna, responsável, capaz de não se confinar ao espaço sala e aos manuais escolares. A Escola de hoje, defendo, deveria investir na autonomia, na diversidade de experiências,na liberdade do professor para inovar processos e desenvolver competências.
Se o clima de escola já estava ferido de morte com as leis absurdas da avaliação de docentes, agora vai deteriorar-se ainda mais.
Eu, professora por opção, preocupada em fazer sempre melhor, nunca virando costas a desafios e trabalho, tenho vontade de mudar de profissão. Talvez fazer uma formação nas novas oportunidades e, quem sabe?, tornar-me pastor. É que pelo menos o comportamento das ovelhas já vou adquirindo...
sábado, 6 de novembro de 2010
Castanhas
Está aí a Feira da Golegã. É uma Feira-Festa de tradição, camaradagem e, quero crer, autenticidade. Na Golegã passeiam os cavaleiros, desfilam os cavalos, encontram-se as amazonas a rigor, os chapéus de aba larga, os bigodes históricos e os muitos fumos cheirosos e quentes das obrigatórias castanhas. Na Golegã fazem-se, ou faziam-se?, negócios, e vivem-se, ou viviam-se?, momentos de divertida amizade.
A Feira do Cavalo não é uma feira qualquer e, passeando por lá, tentando escapar à lama, evitando, sorrindo, esbarrar com um cavalo, sente-se a existência de um Portugal que querem matar, diluir no todo Europeu que é nada. Ali, ser português não é ser triste e infeliz, não é imitar os outros (porventura menos miseráveis), não é repetir chavões ocos. Faz sentido, faz bem à existência da gente, ir à Feira da Golegã!
A Feira do Cavalo não é uma feira qualquer e, passeando por lá, tentando escapar à lama, evitando, sorrindo, esbarrar com um cavalo, sente-se a existência de um Portugal que querem matar, diluir no todo Europeu que é nada. Ali, ser português não é ser triste e infeliz, não é imitar os outros (porventura menos miseráveis), não é repetir chavões ocos. Faz sentido, faz bem à existência da gente, ir à Feira da Golegã!
domingo, 31 de outubro de 2010
Educação. A falta dela
Era um filme sem estrelas, feito de uma história terna, de amizades e amores, entregas e cumplicidades, com uma sala nem meio cheia.
Logo no início, as gargalhadas exageradas, fora de propósito, de meia dúzia de miúdos, 14 ou 15 anos, sentados na última fila. Soaram alguns "chiuusss!!" irritados , a que responderam gracejos desgradáveis, e começou o filme. Aina mal a história tinha começado e já choviam pipocas, as malditas pipocas dos modernos cinemas, em cima de quem, como nós, tinha decidido fugir à chuva vendo um bom filme. Novos protestos. Uma senhora reclamava, "tirem os pés de cima de mim!" e o desespero protestado impedia o gozo do filme. No intervalo, a queixa impôs-se, e os miúdos, sob a ameaça de polícia, foram obrigados a abandonar a sala. Uma senhora, furiosa, garantia que já lhe bastava toda a semana, na escola, a aturar más educações. Era professora... Eu fiquei quieta, observando e experimentando uma dolorosa sensação de compreensão.
Também sou professora e, como a minha colega, também eu sou confrontada, cada vez mais, com miúdos insolentes, mal-educados e a quem, francamente, fazia bem um bom par de estalos. Saí do cinema quase satisfeita com o tempo passado, de alma lavada por uma história de amores felizes (só no cinema!!) mas preocupada com o meu mundo. Que sociedade é esta que deixa que os jovens cresçam sem regras, como animais selvagens, pisando quem lhes apetece e desrespeitando tudo e todos?! Lembrei-me de alguns dos alunos que, este ano, tenho numa turma de 11º ano. Podiam bem integrar o grupo que vi ser expulso do cinema. Miúdos estranhos, estes. Ou mundo estranho, este?
Logo no início, as gargalhadas exageradas, fora de propósito, de meia dúzia de miúdos, 14 ou 15 anos, sentados na última fila. Soaram alguns "chiuusss!!" irritados , a que responderam gracejos desgradáveis, e começou o filme. Aina mal a história tinha começado e já choviam pipocas, as malditas pipocas dos modernos cinemas, em cima de quem, como nós, tinha decidido fugir à chuva vendo um bom filme. Novos protestos. Uma senhora reclamava, "tirem os pés de cima de mim!" e o desespero protestado impedia o gozo do filme. No intervalo, a queixa impôs-se, e os miúdos, sob a ameaça de polícia, foram obrigados a abandonar a sala. Uma senhora, furiosa, garantia que já lhe bastava toda a semana, na escola, a aturar más educações. Era professora... Eu fiquei quieta, observando e experimentando uma dolorosa sensação de compreensão.
Também sou professora e, como a minha colega, também eu sou confrontada, cada vez mais, com miúdos insolentes, mal-educados e a quem, francamente, fazia bem um bom par de estalos. Saí do cinema quase satisfeita com o tempo passado, de alma lavada por uma história de amores felizes (só no cinema!!) mas preocupada com o meu mundo. Que sociedade é esta que deixa que os jovens cresçam sem regras, como animais selvagens, pisando quem lhes apetece e desrespeitando tudo e todos?! Lembrei-me de alguns dos alunos que, este ano, tenho numa turma de 11º ano. Podiam bem integrar o grupo que vi ser expulso do cinema. Miúdos estranhos, estes. Ou mundo estranho, este?
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Os Chinas
Parece que a China está disposta a comprar a dívida portuguesa, ou parte dela. Fizeram o mesmo com os Estados Unidos e, a continuarem as políticas que vigoram nesta Europa envelhecida, poderão comprar muito mais dívidas a curto prazo. A China é um país comunista com uma economia forte, com muito dinheiro, produzindo de tudo a preços baixos. Como o faz, parece pouco interessar aos grandes senhores da política. A mim, incomoda-me. Dói-me, revolta-me, saber que há seres humanos, PESSOAS, que trabalham em condições deploráveis, sem dignidade alguma, sem direitos, muitas vezes tendo por paga apenas uma malga de arroz! Não consigo aceitar um regime com presos políticos, sem respeito pela liberdade individual, tirano e violento. Não compreendo regimes totalitários e se, muitas vezes, digo que "a diferença entre o comunismo e o socialismo é a mesma que há entre um funeral e um enterro", faço-o brincando. No fundo, o comunismo ainda consegue ser pior que o socialismo ( o Hitler era socialista...), porque é mais castrador da individualidade.
Não quero imaginar o destino de Portugal se os chineses vierem tomar conta da nossa economia (mais ainda, porque eles já estão por aí aos milhares). Tenho medo do que poderá acontecer porque, sinceramente, um governo que parece só se entender com tiranos como o Hugo Chávez apavora-me! Queria, para Portugal, um governo mais focado nas Pessoas, na Cultura, na produção e no investimento. Queria políticas capazes de favorecer o investimento, e não estranguladoras do mesmo. Queria um país a ser, e não um país a falecer!!
Não quero imaginar o destino de Portugal se os chineses vierem tomar conta da nossa economia (mais ainda, porque eles já estão por aí aos milhares). Tenho medo do que poderá acontecer porque, sinceramente, um governo que parece só se entender com tiranos como o Hugo Chávez apavora-me! Queria, para Portugal, um governo mais focado nas Pessoas, na Cultura, na produção e no investimento. Queria políticas capazes de favorecer o investimento, e não estranguladoras do mesmo. Queria um país a ser, e não um país a falecer!!
Subscrever:
Mensagens (Atom)