sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

As passas

Comprara-as no início do mês, pensando fazer um bolo quase inglês, com noz e passas sultanas, na velha forma do tempo em que em casa se faziam verdadeiros bolos ingleses.
Os dias foram passando, os afazeres sempre muitos, e o bolo foi sendo adiado. Talvez amanhã, talvez no fim-de-semana, talvez na sexta-feira de tarde, e nunca o bolo a ser batido e enformado. Por isso, agora, na Noite das 12 badaladas, tinha-as ali, fechadas no saco, prontas para serem contadas. Colocou-as no pires da chávena do café e levou-as para a mesinha de cabeceira. Instalou-se na cama, almofadões confortáveis, o Rodrigo Leão tocando para ela, um livro cheio de sentires, e preparou-se para saborear as passas à hora certa. Para ter dinheiro todo o ano, rezava a tradição. Só esperava que o sono a não atraiçoasse e não adormecesse antes da hora...

Fim de Ano

Supermercados cheios, salões de beleza sobrelotados, réveillons esgotados. A conversa centra-se na noite que se avizinha, no lugar onde comer as passas, na música, na roupinha melhorada. É sempre assim, todos os anos, como se a humanidade fosse atacada por uma loucura contagiosa.
Acredito que é uma noite de festa porque vale a pena assinalar o tempo que passou, mal ou bem venceu-se; creio que é também a ocasião de acreditar (?) numa nova oportunidade - afinal, estão a chegar 365 dias novinhos em folha, prontos a estrear!! Apesar de compreender a euforia, o gosto pelos festejos, não consigo alinhar nesta festa de calendário. Admito que basta o facto de ser "obrigatória!", ditada pela data, para me apetecer não alinhar. Gosto mais do acaso, das festas que surgem sem grandes avisos, das que acontecem em ambientes mais íntimos, mais personalizados.
De qualquer forma, hoje, com o fim de 2010 a chegar, experimento um certo alívio. Sei que pouco melhorará em 2011, provavelmente só piorarão as condições de vida, mas estou satisfeita por deixar para trás um ano que vivi com mil experiências intensas. Dolorosas umas, sublimes e fantásticas outras.
Agora, olhando a lista de festas e lugares de réveillon, dou graças ao luxo de poder olhar o final de 2010 na minha tranquilidade...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em branco

Um olho no meu novo livro, muito bom!, e outro na televisão, fui seguindo o debate entre os dois principais candidatos à Presidência da República. Tenho tanta pena, tenho mesmo!, que o dr. Manuel Alegre se tenha candidatado...Tenho pena porque gosto da poesia dele, de alguma prosa também (Cão como nós é um livro marcante), da força das palavras a que consegue, escrevendo, dar sentido, e, por isso, custa-me vê-lo a fazer figuras tristes. Muito tristes mesmo. Achei paupérrimo o seu discurso, ocos os argumentos, feito de coisa nenhuma o projecto. O adversário, com aquele poder estranho de ser dois-em-um, ora é Sua Excelência o Presidente, ora é, como a Judite de Sousa insiste em chamar, o candidato Cavaco Silva, também não me convenceu. Apresentou-se com uma postura de superioridade que me irritou. Como se estivesse acima do mundo, como se não tivesse também muitas culpas no estado a que chegou o país. Achei infeliz o tom e deprimente a afirmação da caridadezinha que afirma praticar e defender. Sempre me pareceu que nunca soube assumir posições, que andou nos nins com execessiva frequência durante estes 4 anos, e durante o debate confirmei a minha opinião: - Este homem não tem garra, não tem força, para ser o Presidente deste triste Portugal!
Ontem, ouvi Manuel Alegre afirmar que a liberalização do aborto e o casamento homossexual são marcas do desenvolvimento social (apetecia-me telefonar-lhe a insultá-lo, mas isso não seria democrático). Obviamente, eu discordo que o crime possa, em alguma circunstância, significar desenvolvimento; mas o candidato Cavaco, ou seria o Presidente?, manteve o nim, afirma promulgar mesmo o que condena, justificando-se com afirmações que não me parecem válidas.
Ontem, fiquei definitivamente convencida sobre o sentido do meu voto no dia 23 de Janeiro. Vou votar em branco!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ímpar

Não era de porcelana, nem de loiça chinesa, nem de cristal sequer. Mas era robusta, jeitosa até, com um corpo bojudo e que se adaptava muito bem a todas as mãos. Talvez por isso, era constantemente utilizada. Pegavam-lhe para beber chá, para saborear canja ou consomé, para o leite quente antes de adormecer e até, embora raramente, como medida para fazer arroz doce. No armário, onde a depositavam bem limpa, não tinha par. Era ímpar, diziam. Não tinha já nem pires, há anos o tinham quebrado. Era uma chávena sozinha, sem meia dúzia sequer, resistente, usada, e nunca com direito a lugar de honra. Hoje mesmo, fora assim. Vira sair as chávenas finas, todas emparelhadas, pires e até açucareiro!, para a mesa da Consoada. Até os copos de pé alto, os peneirosos, tinham tido direito a carícias com pano branco, indo, depois, brilhar junto às velas da mesa natalícia. Ela, pelo contrário, ficara no canto, ignorada, esquecida. Ímpar! Porque assim, sozinha, sem par, destoava na mesa de festa e, claro, ninguém se lembrava de como era fácil de segurar quando cheia de chá gostoso...Era tão aborrecido ser ímpar!!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A Minha Criação do Mundo

Deus, o Ser Criador da humanidade, fez a terra, os rios, o mar, as plantas, as montanhas, as aves e os animais terrestres e marinhos. Não fez os peixes porque, com tanta água, eles fizeram-se uns aos outros sozinhos. Obviamente, ficaram prejudicados porque não tiveram direito a memória…
Um dia, olhando do Céu a sua obra, Deus achou que era uma pena que não houvesse um ser inteligente para, com Ele, gozar daquela criação. Como artista, Deus pegou em barro e moldou o homem. Achou uma criação interessante, gostou do pormenor daquele bocadinho pendurado e suportado por apenas duas bolinhas que, cuidadosamente, marcou com risquinhos rugosos. Como o boneco não mexia, o Criador soprou-lhe o hálito divino e o homem ganhou vida. Deus, lá do céu, começou a divertir-se observando as reacções do homem na terra e, aí, começou a sua desilusão!: - O homenzinho não cheirava as flores, não se espantava com o adormecer do sol, não olhava as fases da lua, não bebia a água nas nascentes, não mergulhava no mar, não chorava com o amanhecer tecido de vermelhos alaranjados. Então, com alguma surpresa indignada, Deus pensou: - Como pude eu, o Criador de tanta beleza, criar um ser tão incompleto, tão cheio de falhas e lacunas? Como deixei aquele abanico pendurado?!  Isto, sem dúvida, foi apenas o meu borrão, o meu rascunho, o meu ensaio. Agora, está na hora de criar a obra-prima!
Esmerando-se, aproveitando o sono do homem, espantado por o seu borrão dormir de boca aberta e perturbando a paz nocturna com sons cavos e incomodativos, Deus criou a Mulher: - Dotou-a de sensibilidade, de emoções intensas, de coragem ilimitada. Deu-lhe a possibilidade de chorar perante o adormecer do sol, de distinguir o cheiro das diferentes flores, de colher malmequeres para colocar nos cabelos. Retirou-lhe as bolinhas incómodas, deu-lhe bolas lisas, pintadas de chocolate tentador que colocou em lugar de destaque, ofereceu-lhe o dom do prazer e encheu-lhe o corpo de fibras sensíveis. Este ser, sozinho, descobriu a gargalhada, a ternura e o toque. Então, realizado, Deus contemplou a sua obra-prima e decidiu não eliminar o borrão. O contraste lembrava-lhe que, em termos de Valores, os contra-valores fazem falta. Deus chorou com a grandiosidade da sua obra-prima e, creio, foi aí que alguém inventou a história do dilúvio. Afinal, não era um castigo. Era Deus chorando de felicidade e preparando a fertilidade da terra para, renovada, aceitar a sua obra-prima!!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Conto de Natal

Da janela olhava o branco e ouvia, sempre quando nevava ouvia, o Poeta Augusto Gil "batem leve, levemente, como quem chama por mim (...)". Não. Ninguém batia, ninguém chamava por ela.
Tinha escolhido aquele lugar isolado, num país de língua diferente, com cheiros novos, paisagens que sempre a encantavam, para viver o Natal. O seu Natal! Não queria sentir as presenças das muitas ausências que doíam, não queria ser o número ímpar nas muitas Consoadas para que fora convidada, não queria ficar em casa olhando a infância retratada dos filhos, a árvore de Natal cansada ou o Presépio simples que fizera, religiosamente, antes de partir. Queria viver o Natal da sua solidão na companhia de projectos.
Olhou a cabana de montanha, o fogo aceso, o cheiro a madeira, a cama excessivamente larga coberta com um edredão branco. Tinha arrumado já a roupa de neve e, enrolada no velho robe que nunca dispensava, instalou-se, enroscada no sofá alheio, olhando as chamas e saboreando o licor que tinha encontrado, com frutos secos, em cima da mesa. No parapeito da janela larga, o Menino olhava-a das palhinhas e a Virgem baixava os olhos, ternamente, para Ele. Sacudiu a melancolia que ameaçava instalar-se, prometendo não ceder e gozar aquele primeiro Natal sozinha em paz e conforto. Os filhos estavam bem, com as famílias, telefonar-lhes-ia mais tarde, e ela também estava bem, ali, "será chuva?, será gente?", na sua paisagem de eleição. Fechou os olhos e lembrou a velha casa de infância, as cantigas ao Menino, o perú morto a encher a mesa da cozinha. Viu os irmãos correndo, a lareira da sala carregada de lenha, e ouviu o Pai a garantir que o Menino Jesus só chegaria pela meia-noite mas, como vinha com muita pressa, ninguém podia vê-lo sequer. Quantas vezes repetira ela mesma essa história aos filhos?...
Este ano, desejava que o Menino não estivesse apressado, que não passasse correndo e tivesse tempo para sentar-se com ela, enroscado no sofá, provando o licor gostoso. "Gente não é certamente, e a chuva não bate assim...". Acordou sobressaltada. Batiam mesmo?! Alguém batia à porta da cabana?! Seria um empregado do Hotel? Com dificuldade, sentindo o corpo entorpecido, arrastou-se até à porta. Era ele, o Menino! O desejo feito realidade!! Abraçou-o com força rezando um obrigada, Meu Deus, por deixares que ao menos os Contos de Natal terminem bem!!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Zero Graus

Frio. Muito frio. Frio na pele, no rosto, na alma também. Frio de zero graus, de céu limpo, frio que nem a lareira, bem carregada, conseguia afastar. Sentou-se junto ao lume, pernas cruzadas, enrolando-se num novelo só, sem fazer nada mais do que desfiar memórias, sonhos, saudades e projectos. No colo, o caderno grosso, de folhas fortes, onde se viciara nos registos. Registos daquelas pequenas coisas que, dizia Umberto Eco, fazem cumprir a vida. Apetecia-lhe escrever, com a caneta de tinta  castanha, vendo as folhas encherem-se com a sua caligrafia feia - diziam - mas pessoal - achava.
Consciente e deliberadamente, mantinha o velho gosto pelas folhas e cadernos, pelas canetas de tinta permanente, pela escrita que podia guardar fechada numa gaveta. A escrita que não era moderna, não fazia blogues, que não partilhava com ninguém. Ou, melhor, a escrita que partilhava consigo mesma, numa relação de eu com eu, e onde ninguém opinava. Era bom estar de bem consigo, na paz quente de um Dezembro gelado.