Incrustada na rocha, num penhasco agreste, está a capelinha de homenagem à Senhora de Covadonga. Conta a lenda que ali rezou Pelayo, 1º Rei de Espanha, antes de dar início à Reconquista Cristã. Eram tempos de outros heróis, de combates violentos mas leais, de inimigos de rosto descoberto e peito aberto à morte por um ideal.
Hoje, na modernidade, na era da informática e do mediatismo, a violência faz-se de traição, de colarinho branco, de exploração dos mais fracos, de injustiças, de hipocrisia, de falsidade. No mundo actual, os nossos principais inimigos fazem leis, tomam medidas que prejudicam os cidadãos e assinam sentenças de morte lenta com canetas de ouro. Hoje, em vez de covas milagrosas, temos buracos muito-muito negros a marcarem a nossa existência.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Os Lagos
Surgem na sequência das curvas, lindos e pacificadores, os lagos dos Picos da Europa. Para se chegar lá é preciso subir, subir, curvar, recurvar, encolhermo-nos para passarem os carros em sentido contrário e olharmos, com susto, os desfiladeiros que limitam as bermas. Mas vale o risco, o esforço e o friozinho de arrepiar a espinha. É que a paisagem é soberba!!
Os lagos interrompem a violência dos altos penhascos, amaciando a vista, sugerindo que, mesmo nos espaços mais agrestes, nas situações mais difíceis, pode surgir uma nova oportunidade, uma nova paisagem. Fernando Pessoa dizia "Eu sou a minha própria paisagem". Eu prefiro a paisagem que os meus olhos abarcam. É mais tranquilizadora!
Os lagos interrompem a violência dos altos penhascos, amaciando a vista, sugerindo que, mesmo nos espaços mais agrestes, nas situações mais difíceis, pode surgir uma nova oportunidade, uma nova paisagem. Fernando Pessoa dizia "Eu sou a minha própria paisagem". Eu prefiro a paisagem que os meus olhos abarcam. É mais tranquilizadora!
domingo, 9 de janeiro de 2011
Mosteiro de Covadonga
Surge depois de uma curva, altaneiro, firme, impressionante, chocante até. Provoca pasmos, olha ali, incrível, lindo, e, à medida que nos aproximamos, aos gritos surpresos impõe-se o silêncio.
O monumento romântico, de torres pontiagudas e janelas trabalhadas, está limpo e indiferente aos mil olhares, à surpresa causada, à admiração provocada. No adro, bélico, Pelayo lembra que, às vezes, não há espadas que cheguem para impor os sonhos. Do outro lado do monte agreste, em covas naturais, o lugar primeiro, a cova de Covadonga.
No percurso para o Santuário, o túmulo do 1º rei de Espanha, Pelayo, sem grandezas, ornamentado por simples fores silvestres. Caminho por ali com o silêncio por companhia. Tento acalmar o galope do meu coração, mas não contenho o sentimento de insignificância que experimento. O que sou eu, face à bruteza bela daquele lugar? Que sentido fazem as minhas angústias, perante a força de uma Natureza esmagadora?
Rezo em silêncio. Talvez à Senhora da Covadonga, talvez ao Criador, talvez ao meu Cristo companheiro ou, talvez, finalmente, apenas à força secreta que faz, ali, com que as minhas lágrimas se soltem livres.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Carteira de Mulher
Trazia mil coisas na carteira. Ria-se sempre que, tantas e tantas vezes, ouvia comentar a imensidão que pode carregar uma carteira de mulher e, secretamente, pensava na sua. Trazia a escova, o dinheiro, os cartões, a agenda, o bloco de notas, a caneta, a esferográfica, as pastilhas, o telemóvel, as fotografias (tentativa infrutífera de prender o passado), as chaves, os lenços, os cartões, os talões de bilhetes de espectáculos que mereciam uma memória especial´, às vezes um leopardo ou um leão perdidos pelo neto. De vez em quando, arrumava a carteira. Despejava tudo em cima da cama, sacudia o fundo, e voltava a colocar as mesmas coisas, incapaz de se desfazer fosse do que fosse.
Só uma coisa se recusava a guardar na carteira: - Os seus sonhos e projectos!! Esses, ainda que por vezes tornando-se pesados, mantinha-os trancados no fundo do coração...
Só uma coisa se recusava a guardar na carteira: - Os seus sonhos e projectos!! Esses, ainda que por vezes tornando-se pesados, mantinha-os trancados no fundo do coração...
sábado, 1 de janeiro de 2011
Ano Novo - Recomeçar!!
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..
Miguel Torga – Recomeçar
Dia Mundial da Paz
1 de Janeiro, dia mundial da Paz! Da Paz que, num mundo cada vez mais em guerra, faz tanta falta.
Eu também desejo a paz. A Paz no mundo sim, mas, egoisticamente, a paz pessoal, a paz comigo, com a família, com os amigos, com os colegas. Talvez porque hoje é tempo de acreditar, o ano ainda está vestido de novo, deu-me para trocar as decisões habituais - que nunca cumpro -, por uma receita (deve ser o reflexo de levar as Festas cozinhando) para o fazer da PAZ:
Ingredientes:
dois ouvidos limpos
uma boca calada
um coração disponível
dois olhos abertos
um dicionário de sinónimos
uma mão cheia de afectos
Modo de preparação:
Manter os dois ouvidos sempre limpos, sem resíduos, de modo a deixar entrar tudo sem ruídos. Manter a boca fechada, longe do coração, para permitir que, neste, tudo marine o tempo suficiente para chegar à boca bem levedado de afecto. Conservar os olhos abertos, observando a natureza, compreendendo que não há duas flores iguais, usufruindo da diversidade. A jeito, sempre pronto a usar, um dicionário de sinónimos para poder criar novas formas de verbalizar opiniões. À mão de semear, sempre, uma mão cheia de afectos a usar sem receios, sem contenção, sem medo da crise.
Consumir diariamente!!
Eu também desejo a paz. A Paz no mundo sim, mas, egoisticamente, a paz pessoal, a paz comigo, com a família, com os amigos, com os colegas. Talvez porque hoje é tempo de acreditar, o ano ainda está vestido de novo, deu-me para trocar as decisões habituais - que nunca cumpro -, por uma receita (deve ser o reflexo de levar as Festas cozinhando) para o fazer da PAZ:
Ingredientes:
dois ouvidos limpos
uma boca calada
um coração disponível
dois olhos abertos
um dicionário de sinónimos
uma mão cheia de afectos
Modo de preparação:
Manter os dois ouvidos sempre limpos, sem resíduos, de modo a deixar entrar tudo sem ruídos. Manter a boca fechada, longe do coração, para permitir que, neste, tudo marine o tempo suficiente para chegar à boca bem levedado de afecto. Conservar os olhos abertos, observando a natureza, compreendendo que não há duas flores iguais, usufruindo da diversidade. A jeito, sempre pronto a usar, um dicionário de sinónimos para poder criar novas formas de verbalizar opiniões. À mão de semear, sempre, uma mão cheia de afectos a usar sem receios, sem contenção, sem medo da crise.
Consumir diariamente!!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
As passas
Comprara-as no início do mês, pensando fazer um bolo quase inglês, com noz e passas sultanas, na velha forma do tempo em que em casa se faziam verdadeiros bolos ingleses.
Os dias foram passando, os afazeres sempre muitos, e o bolo foi sendo adiado. Talvez amanhã, talvez no fim-de-semana, talvez na sexta-feira de tarde, e nunca o bolo a ser batido e enformado. Por isso, agora, na Noite das 12 badaladas, tinha-as ali, fechadas no saco, prontas para serem contadas. Colocou-as no pires da chávena do café e levou-as para a mesinha de cabeceira. Instalou-se na cama, almofadões confortáveis, o Rodrigo Leão tocando para ela, um livro cheio de sentires, e preparou-se para saborear as passas à hora certa. Para ter dinheiro todo o ano, rezava a tradição. Só esperava que o sono a não atraiçoasse e não adormecesse antes da hora...
Os dias foram passando, os afazeres sempre muitos, e o bolo foi sendo adiado. Talvez amanhã, talvez no fim-de-semana, talvez na sexta-feira de tarde, e nunca o bolo a ser batido e enformado. Por isso, agora, na Noite das 12 badaladas, tinha-as ali, fechadas no saco, prontas para serem contadas. Colocou-as no pires da chávena do café e levou-as para a mesinha de cabeceira. Instalou-se na cama, almofadões confortáveis, o Rodrigo Leão tocando para ela, um livro cheio de sentires, e preparou-se para saborear as passas à hora certa. Para ter dinheiro todo o ano, rezava a tradição. Só esperava que o sono a não atraiçoasse e não adormecesse antes da hora...
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