quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Escola e Sopa de Cenoura

A mãe estava furiosa. Ralhava, lamentava-se, insistia em fazê-lo sentir-se profundamente infeliz. Ele tentava explicar: - A professora não dissera que tinha marcado falta! Ele nem tinha faltado! Se calhar, alegava a medo, fora por ter falado demais. Porque tem a mania de falar, de dar opiniões, de perguntar, de contar o que vê, de intervir. A mãe insistia que não. Que ninguém marca faltas a um aluno por ele falar, de mais a mais se for numa aula de línguas!! E ele insistia. Só podia ter sido por isso, ou por a setôra não gostar dele, o que não percebia, uma vez que, tal como ela, ele também torcia pelos leões, também tinha um cachecol do Sporting! E a mãe a acalmar-se finalmente, agora declarando que iria à escola falar com a directora. Não que fosse grande ideia falar com a directora... saberia da sua fama (e proveito) de tagarela e brincalhão. Mas, por outro lado, era bom que soubesse que ele não faltara e que nem sabia que tinha falta. Com a mãe mais calma, foi para o quarto, ligou o computador e a televisão e ficou em cima da cama, com os dois comandos, jogando e vendo o National Geographic. Ouvia as irmãs lá em baixo, na cozinha, e pensava na conversa que tivera com a mãe. Duas faltas injustificadas, as duas a português, era razão para ela se zangar. Honestamente, nos seus 14 anos, sabia que falava demais. Mas tinha sempre tanto para dizer... E as aulas, às vezes, eram tão chatas com o habitual cumprimento do monótono sumário: - leitura e interpretação do texto! - Seria bem melhor se houvesse mais hipóteses de participar, de falar, de trabalhar mesmo! Ouvir, tantas horas seguidas, era mesmo complicado... Estava tão distraído, que ia deixando o Porto meter um golo na baliza do Sporting! , no seu jogo da consola; se ao menos nas aulas houvesse desafios, se pudesse fazer coisas...´
Lá de baixo, veio o grito da irmã para que fosse jantar. Correu pelas escadas, saltando degraus, com a energia que o fazia ter duas faltas injustificadas por falar.
Sentado à mesa, comentou: - A escola, às vezes, é como esta sopa semanal, sabe sempre ao mesmo!!!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Gargalhada - Também em Crise?

"O riso é a mais eficaz forma de crítica", disse, um dia, Eça de Queirós. Peguei na frase, gosto dela, e pedi aos alunos de 11º ano que escrevessem partindo daí. Antes, lembrámos, na sala de aula, os Gato Fedorento, o Contra Informação, Gil Vicente até. Esperava, confesso, grande entusiasmo, humor vivo, olhares, apesar de jovens, atentos e carregados de humor. Infelizmente, a maioria dos textos surgiu cheia de ideias-feitas, de frases gastas, de vazio de conteúdo. Expressei a minha desilusão. Partilhei a minha decepção...
Cheguei a casa pensando na minha vivência.
De facto, concluo, o humor está, também ele, em crise. As pessoas parecem ter desaprendido o sabor de uma gargalhada, o efeito libertador de uma boa piada.
Eu também tenho saudades de rir, de brincar com a realidade, de teias de alegria na minha rotina.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A capela

Entrou, ajoelhou-se e ficou rezando. Era a sua forma de rezar, um tecer  de considerações mais de si para si que, na pequena capela de chão com História , ganhava novo sentido. Gostava daquele chão, dos vitrais que filtravam a luz, como que purificando a existência, dos poucos móveis encerados e cheirosos. Naquela tarde, fria e ventosa, nem sabia bem o que a levara de novo ao seu espaço de eleição. Decerto não ia agradecer a recente eleição do Presidente que nada lhe dizia, embora pudesse agradecer a derrota de uma esquerda anquilosada que sempre a desgostava... Não ia, também, pedir ajuda para a solução das angústias diárias, porque dos quotidianos dos homens Deus deveria querer distância. Talvez, afinal, tivesse entrado apenas para se ouvir, sem o ruído do mundo que, cada vez mais..., a incomodava.
Ficou ali, sentindo o anoitecer lá fora, escutando as ondas de outros mares que aquele chão lhe trazia. Ouvia Camões "não mais Musa, não mais, (...)" e sentia o mesmo desalento do Poeta. Não mais, pedia, agora, na sua oração de silêncio.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Última Valsa

Não morava ali ninguém. Era um espaço lindo, o revivalismo romântico, agora feito zona pública, constantemente invadido pelos passos pesados e olhares famintos de milhares de turistas. Ela, vizinha daquele lugar, criara com a passagem dos anos laços estreitos com o Palácio Mágico. Deixavam-na entrar sem bilhete, e  caminhava nos caminhos ornamentados, molhava as mãos na água viva e corrente e subia às muitas torres vendo, lá longe, a Vila de Sintra. Não gostava dos túneis, dos corredores escuros e húmidos, mas esquecia-se horas perdidas conversando com Deus na pequena capela. Nos dias menos húmidos, soalheiros, levava um livro, sempre autores portugueses, e  ficava lendo, por ali, saboreando o correr das palavras no tecer das histórias. Às vezes, via grupos de jovens, apressados e alegres, e apetecia-lhe gritar-lhes calma e sofreguidão na vida. Uma antítese. Ou um paradoxo? Para ela, apenas uma verdade aprendida...
Naquela manhã, como em muitas, subiu à Regaleira e, sentindo o coração cansado, entrou no velho palacete. Olhou a sala e ouviu a valsa que tantas vezes dançara. Acompanhando a valsa, com passos certos, surgiam os pares que davam cor ao salão. Levantou-se e ensaiou o ritmo nunca esquecido. Com a cabeça pendendo, rodou, segura, nos braços da paixão que antes dela partira.
Encontraram-na fria, no chão, sorrindo ainda. Fora a sua última valsa.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A ovelha e os possiveis

Desligou a televisão, fechou os jornais, baixou a tampa do computador e puxou a manta quentinha, grande invenção o polar!, quase até aos olhos. Estava cansada de problemas, do pessimismo vigente, do que considerava ser um ataque à sua sanidade mental, esse anúncio constante da crise sem saída.
Talvez a crise fosse uma verdade, tudo indicava que era uma inegável realidade, ela sentia-o na carteira, no trabalho, quase na pele. Mas não compreendia como se poderia combater o flagelo destruindo o sonho, limitando horizontes, escavacando esperança. Não defendia a mentira, o deixa-andar, mas sentia que, continuando com o cinzentismo vigente, em breve a escuridão seria irrecuperável... Lembrava Umberto Eco "Não é maldizendo a escuridão, nem apagando as poucas luzes que restam, que se constroem novos possíveis!" E tinha de haver novos possíveis! Tinha de ser possível recuperar vontades, inovar, restaurar sonhos e concretizar projectos. Pensava nos seus alunos, jovens num país moribundo, e não percebia as opções dos dirigentes. Apetecia-lhe gritar alto o seu descontentamento! Não lhe apetecia continuar sendo mais uma no rebanho, quieta, sentada, aceitando o pasto que lhe era dado...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Benzina

"Este governo não cai, porque não é um edifício. Limpa-se com benzina, porque é uma nódoa!"
Eça de Queirós, 1885


Oiço as notícias, folheio os jornais e penso que, se calhar, não há benzina que chegue na actualidade...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Mar Cantábrico

Parou no miradouro del Fito. Subiu a escada íngreme e mergulhou o olhar cansado no mar imenso. Podia ser Monet, podia ser Degas até. Era uma tela imensa que se lhe oferecia, calma, real, permitindo-lhe descansar os sentidos e dar largas à emoção. Fora um percurso difícil, mapa confuso, avanços e recuos, pedidos de ajuda às gentes locais. A dada altura, pensara mesmo em desistir. Mas,  felizmente, fora perseverante e não perdera aquele espectáculo único.
Alguém lhe tinha dito que a água sempre amacia e embeleza a paisagem, ouvia as palavras no eco da memória, mas sentia que, ali, havia mais do que água suavizante. Havia as montanhas que sempre a encantavam! Surgiam picos agrestes que, num abraço forte, protegiam aquele mar espelhado.
Sentiu o vento frio, enrolou-se no casaco, mas não recuou. Queria ter o poder de prolongar, para sempre?, a paz daquele momento.