sábado, 26 de fevereiro de 2011

Fantasia

Segurava com força a mão da Mãe e sorria um sorriso total. Ali, mesmo junto dele, estavam o Peter Pan, a Wendy, a fada Sininho, a torre de Londres onde todos voavam descalços e de pijama. Lá atrás, vinha o Rei Leão, o Simba, o Timon e o Pumba e, ali mesmo dançando na estrada, estava a Minnie e o seu eterno namorado, o Mickey! A seus olhos, era a felicidade suprema , ela mesma feita de faz-de-conta e realidade. Os olhos brilhantes, as mãos sujas de algodão doce, as meias caídas e os cabelos desalinhados não denunciavam o galopar desenfreado do coração de criança. Sentia a presença da Mãe de um lado, do Pai do outro, e não sabia o que dizer. Afinal, os livros que lhe enchiam as prateleiras do quarto, as histórias que sempre o Pai ou a Mãe lhe liam antes de adormecer, vinham daquele lugar de verdade. Os seus amigos de papel pintado tinham vida e saíam da caixa da televisão, do ecran da consola e do computador!
Tinha sido o seu presente de anos, oito anos!, e percebia agora o que Mãe, ao ajudá-lo a vestir o casaco, lhe dissera: - Para que percebas que a fantasia e o sonho fazem sempre sentido, vamos passar dois dias na Eurodisney!!!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

OCO

Quando as palavras perdem o sentido, a escrita apaga-se.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os Românticos

Amantes incondicionais, carregados de subjetividade, os românticos identificavam-se com a Natureza. Hoje, olho da minha janela e sinto ecoar em mim a poesia de Garrett, as palavras dos poetas da paixão e do amor exacerbado. É que parece que chegou a Primavera, ainda que com quase um mês de avanço. As mimosas estão em flor, as amendoeiras vestidas de branco, os campos atapetados de verde moço.
Hoje, agora bem cedo, a Natureza parece querer dizer que sim. Que vale a pena, que há sempre hipótese de renovação, que o cinzentismo não será eterno...
"...Todo o Mundo é composto de mudança". Seria Camões um percursor do Romantismo?!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Aprendizagens Activas

Eramos 29 almas curiosas e ansiosas. Esperavam-nos 4 dias diferentes, de experiências e desafios, entre Estrasburgo e Paris. Para o caminho, autocarro, avião, TGV, bus, tramway. O frio anunciado não metia medo, a comida estranha também não, e apenas a língua, já ninguém fala francês..., assustava um bocadinho.
Partimos. Os dias voaram, entre gargalhadas, arrastares de malas, voltas loucas nas montanhas malucas da Disney, brincadeiras e trabalho sério. O dia vivido no Parlamento Europeu foi o culminar de um processo, e a vivência desse dia, a experiência de trabalhar com jovens de 20 diferentes países, foi a "cereja no cimo do bolo".
Mas, para mim, foram sobretudo dias de aprendizagens efectivamente activas e participadas.
Tenho a certeza, posso mesmo jurar, que para os jovens que integraram esta actividade, um dia no Parlamento Europeu, a Escola ganhou um novo significado. Vi-os crescer e, apesar das noites sem dormir, das dores de pernas e dos horários violentos, sinto-me feiz por ter ajudado estes miúdos (serão sempre os meus miúdos) a aprender a ser pessoas. Claro que a Escola não pode fazer-se apenas de viagens e passeios, mas, sem dúvida, estes momentos dão-lhe um novo sentido...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Priority Boarding

Chegaram devagarinho, de braço dado e ele carregando a carteira de mão dela, à fila do embarque. Confirmarm, num inglês mesmo british, que tinham bilhete para embarque prioritário e ficaram na fila. Encostavam-se um ao outro e não pude deixar de reparar na ternura com que o faziam. Ela, de pele muito branca, com as mãos onde corriam veias muito azuis à transparência, vestia um saia-casaco de bom corte, salmão, com um camiseiro branco e um simples colar de pérolas brancas, uma só volta, no pescoço. Apesar das muitas rugas, percebia-se que fora bonita e os olhos, teriam sido azuis?, brilhavam em risquinhas cinzentas. Ele, mais alto, um pouco curvado já, tinha o cabelo de um branco imaculado, a cara rapada e um chapéu de feltro, castanho, que segurava numa das mão, junto à gabardina Burburry's de forro escocês. Falavam baixinho, como se o mundo fosse só deles, numa intimidade cúmplice e, a meus olhos, perfeita. Reparei que traziam três alianças, decerto já haviam festejado bodas de ouro, mas ainda se apoiavam com ternura. Qual seria o segredo para manter vivo o amor ao longo de tantos anos?!
Porque o embarque tratava, ela murmurou cansaço e ele, cortês, levou-a pelo braço até à cadeira voltando para retomar o seu lugar na fila. Notei que a velha senhora não tirava os olhos do seu homem, e percebi que ele não desviava dela os seus. Quando se iniciou o embarque, ela veio de novo dar-lhe o braço. Deixei que passassem à minha frente e reparei que escolhiam os lugares da primeira fila no avião. A meio da viagem, três horas voando, fui à casa de banho e vi que a senhora dormitava encostada no ombro dele. Sério, de olhar fixo, ele segurava-lhe a mão transparente. À chegada a Faro vi-os recolherem a bagagem, duas malas de xadrez, e observei-os, sempre devagarinho, a encaminharem-se para a saída. Eu própria encontrei a minha boleia e perdi-os de vista... Mas impressionou-me o velho casal. Acho que, de certa forma, fiquei com um pouquinho de inveja da senhora velhinha, de três alianças e com um braço atento onde se apoiar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Os ões

Eu gosto da minha língua, da portuguesa, cheia de metasignificados, de possibilidades ternas, de jogos e desafios. Gosto das palavras saborosas, que se enrolam na língua e se desfazem em açucar de zero calorias, das palavras com história, que sempre me trazem aventuras e paixões. Gosto, também, de brincar com os dizeres, com os sons da minha língua, e fico estupidamente feliz quando, no estrangeiro, me perguntam que língua estou a falar que soa tão bem.
No entanto, há palavras na minha língua que me magoam e que, sinceramente, dispenso. São quase todas as que fazem o plural em ões. Detesto proibições, desilusões, suspeições, agressões, insinuações. Em ões, só gosto mesmo dos calções do Manuel Bernardo. Mas ele fica lindo sempre!!!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Escola e Sopa de Cenoura

A mãe estava furiosa. Ralhava, lamentava-se, insistia em fazê-lo sentir-se profundamente infeliz. Ele tentava explicar: - A professora não dissera que tinha marcado falta! Ele nem tinha faltado! Se calhar, alegava a medo, fora por ter falado demais. Porque tem a mania de falar, de dar opiniões, de perguntar, de contar o que vê, de intervir. A mãe insistia que não. Que ninguém marca faltas a um aluno por ele falar, de mais a mais se for numa aula de línguas!! E ele insistia. Só podia ter sido por isso, ou por a setôra não gostar dele, o que não percebia, uma vez que, tal como ela, ele também torcia pelos leões, também tinha um cachecol do Sporting! E a mãe a acalmar-se finalmente, agora declarando que iria à escola falar com a directora. Não que fosse grande ideia falar com a directora... saberia da sua fama (e proveito) de tagarela e brincalhão. Mas, por outro lado, era bom que soubesse que ele não faltara e que nem sabia que tinha falta. Com a mãe mais calma, foi para o quarto, ligou o computador e a televisão e ficou em cima da cama, com os dois comandos, jogando e vendo o National Geographic. Ouvia as irmãs lá em baixo, na cozinha, e pensava na conversa que tivera com a mãe. Duas faltas injustificadas, as duas a português, era razão para ela se zangar. Honestamente, nos seus 14 anos, sabia que falava demais. Mas tinha sempre tanto para dizer... E as aulas, às vezes, eram tão chatas com o habitual cumprimento do monótono sumário: - leitura e interpretação do texto! - Seria bem melhor se houvesse mais hipóteses de participar, de falar, de trabalhar mesmo! Ouvir, tantas horas seguidas, era mesmo complicado... Estava tão distraído, que ia deixando o Porto meter um golo na baliza do Sporting! , no seu jogo da consola; se ao menos nas aulas houvesse desafios, se pudesse fazer coisas...´
Lá de baixo, veio o grito da irmã para que fosse jantar. Correu pelas escadas, saltando degraus, com a energia que o fazia ter duas faltas injustificadas por falar.
Sentado à mesa, comentou: - A escola, às vezes, é como esta sopa semanal, sabe sempre ao mesmo!!!