terça-feira, 23 de julho de 2013

O Principezinho

Se bem que o Principezinho, de Saint-Exupéry, me tenha definitivamente marcado, hoje é de um novo príncipe que falo. Nasceu o filho de William e Kate, ontem, movimentando o mundo inteiro. Eu assisti à tragédia de Diana, acompanhei com curiosidade, e admito que com alguma admiração, o seu percurso, dando-se a coincidência, ainda por cima, de ela ter casado no mesmo ano que eu, e de William ter nascido pouco antes da minha filha mais velha. Confesso que chorei quando ela morreu, sentindo-me próxima dela e compreendendo as suas angústias.
Eu, que sou uma republicana convicta, tenho um carinho inexplicável, estúpido talvez, pela familia real inglesa! Ontem, vibrei com o nascimento e, hoje, comovi-me quando vi o bebé ao colo do pai. Neste mundo louco, o nascimento de uma criança é, sempre, algo que me emociona. Este bebé, rei de roca e de fraldas, carrega já uma enorme responsabilidade. Que Deus o ajude!

ROCHEDO

O Tempo dá voltas e voltas e a vida cumpre-se em repetições, em ciclos que, para mim, se tecem de ternuras, de sentires, de mágoas e saudade também. Há vinte  anos chegava à praia bem cedo, a causa era, dizia, as minhas filhas pequenas, o cuidado em protegê-las do sol, a necessidade de aproveitar a maré vazia para poder brincar à beira-mar, nas piscinas das rochas, fazendo construções e pescas curiosas. Foi numa dessas manhãs que uma das minhas meninas descobriu, com indignação, que os caranguejos não andavam para trás, como lhe tinham sempre dito, mas de lado! Creio que foi a sua primeira experiência com o relativismo dos factos que fazem a vida...
Agora, volto à praia à hora ideal, bem cedo, quando o areal ainda está apenas marcado pelas patinhas das gaivotas. Cresceram as filhas, vieram os netos, e a pequena Constança impõe horários sensatos. Assim, a minha caminhada faz-se com o mar inteiro e livre, sem gente, sem ruído. Perto, porque a maré baixa torna o longe perto, o rochedo em forma de barco desafia-me. As gaivotas enchem-no de ninhos e ele parece agradecer a escolha como maternidade. Gosto do rochedo, penso que tem muita sorte porque, dizem os livros, as pedras, ainda que imensas, não sentem nem sofrem...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Prata

Do alto da minha insónia vejo a lua chover prata. O mar, calmo e imenso, cobre-se de reflexos brilhantes, tentadores, ilusórios decerto. Imagino sereias felizes, brincando agora que o mar é só delas, livre de corpos humanos, sempre abusadores, vazio de velocidades vertiginosas das motos de água que enchem os dias. À memória surgem-me poemas, muitos, e lembro o perigo que se associa ao canto das sereias "Tem cuidado, ó pescador, não se enrede a rede nela". Garrett a alertar para o perigo do amor. E eu, que conheço por dentro os riscos de amar, tenho vontade de gritar que, ainda assim, pese embora toda a dor que o Amor acarreta, não fará sentido viver sem a sua presença!

domingo, 21 de julho de 2013

DESACORDO

Não se entenderam. Outra coisa não seria de esperar... O que terá pensado o Presidente ao propor o ideal que todos sabiam ser absurdo?! Seria de facto perfeito que todos os partidos, todos!, compreendessem que a principal prioridade é o país e, consequentemente, as pessoas. Mas isso seria acreditar que, pelo menos em Portugal, a democracia funciona. Ora, sabemos bem que o que temos é uma partidarite doentia e, muitas vezes, acéfala! Os partidos funcionam como clubes desportivos de província, onde a camisola se herda com o nome de família e pelo qual se sacrificam tardes de domingo em torno de "mines". Se se fizesse um estudo estatístico, aposto que se verificaria que oitenta e muitos por cento dos militantes partidários estão num determinado partido, não interessa qual, porque sim. Porque calhou, porque o amigo sugeriu, porque se devem favores, porque se simpatiza (ou simpatizou) com o leader. A nossa democracia joga-se a feijões, nos corredores de São Bento, com visitas a feiras e mercados, com discursos ocos de velhos dirigentes que não vêem o Tempo passar...
O desacordo não me surpreendeu. O Tó Zé ia lá ser capaz de contrariar o chefe Mário, ou o Poeta Alegre! Sinceramente, nem estou interessada no que o Presidente vai dizer logo à noite, antes da abertura dos mercados financeiros na 2ª feira. Não acredito nos nossos políticos, não me revejo nesta democracia de trazer por casa e só queria poder sobreviver a este Tsunami de barbaridades que têm sido as últimas semanas na política nacional. Acho mesmo que, a bem da Nação, os políticos deviam ir a banhos e deixarem-nos em paz! Ou fazerem todos um longo cruzeiro, de preferência num barco sem fundo!

Com creme e não só

Quando eu era miúda, os meus pais arrendavam uma casa de férias em Albufeira, pertinho da FNAT (hoje INATEL) e com uma varanda corrida sobre a praia. Da varanda, preso por uma corda, a minha mãe lançava um cesto com comida que nos  entretinha na praia o dia todo. Nós, miúdos, ocupavamos os dias entre mergulhos e construções nas areias. Os adultos conversavam, jogavam connosco e, por vezes, os homens iam à pesca. Lembro-me do sossego da praia, dos desafios de futebol do meu irmão à beira-mar, do prazer que eu experimentava quando, talvez uma vez por semana, iamos todos comer um gelado à FNAT, ou malaquecos a Albufeira, ali mesmo junto à praia dos Pescadores. O mês de Agosto era o tempo da praia, do descanso, dos pais por perto. Eu passava os fins de tarde a ler, no cantinho da varanda, sem que ninguém desse por mim, mas observando toda a gente. Lembro-me de jantares só de miúdos, entregues à empregada enquanto os adultos saíam para o Restaurante, com muitas tropelias à mistura. No mar, à noite, nasciam mil luzinhas e eu imaginava sereias, baleias curiosas, Melosinas ainda então desconhecidas para mim.
Na praia do Cabrita, assim lhe chamavamos por ser o nome do senhorio, passava diariamente a senhora das bolas de berlim.  Eram bolas macias, com muito creme que eu lambia gulosamente e enchia de nódoas os fatos de banho. Então, não havia ASAE, mas nunca ninguém morreu por causa das deliciosas bolas! A senhora a anunciar as bolas, vestida de branco e com um cesto de verga no braço, era o único grito da praia. Um grito gostoso!
Hoje, na praia que escolho para descansar, os gritos inoportunos são outros.
Há quem venda bolas de berlim - sem creme. Mas há, também, quem venda pulseiras, túnicas, elefantes de madeira, chinelos, gelados, pasteis de nata e até bilhetes para o circo. Além dos vendedores, há ginástica, música alta, gente que salta e se exercita  ao som de uma voz estridente acompanhada de música em altíssimo volume. Há, também, as motos de água alugadas, as bananas, as boias gigantes. Hoje, a praia já não é, pelo menos no Verão, um lugar de sossego e calma. É, sim, um lugar de ruído e nervosismo! As bolas de berlim já não têm creme mas,  acho eu, as agressões que fazem a quem tenta descansar de tempos duros e difíceis, é muito mais letal...

sábado, 20 de julho de 2013

Férias e Talvez...

Os vinte e cinco andares da torre de apartamentos criam a distância ideal. Lá em baixo o mundo parece perfeito, os corpos são mudos, esguios e velozes, as ondas certas e o mar de um azul quase provocatório.
Talvez, às vezes, seja necessário criar alguma distância das coisas, da vida real, para se poder ver a cru, sem fazer parte de nada. Talvez assim, de longe, seja mais fácil tentar compreender os desacordos, os discursos vazios, os medos anunciados, as crises que se agravam. Ou talvez não. Talvez a distância sirva apenas para nos ajudar a ver-nos a nós mesmos. Isolados, sozinhos.

Talvez...

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Já se foi

Naquele barquinho lá longe, arrumei a minha alma. Depois, sentei-me na areia, aliviada e leve, e fiquei a vê-la partir. Não lhe disse adeus, não lhe lancei a bóia de salvação e espero não vir a ter saudades dela. A  minha alma levou com ela, num saco enorme bem atado, todos os meus sentires, e deixou-me em sossego. Em breve, vou também lançar ao mar os meus pensares. Fá-lo-ei num dia de bandeira vermelha. Depois, se calhar, poderei viver em paz e ser feliz.