terça-feira, 13 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 6

Por Vinte e Cinco Tostões
No tempo em que havia tostões, e quando o escudo dava para pagar a vida, o meu Pai foi médico da PSP. Como pagamento destas funções, a juntar ao parco vencimento, o Estado permitia aos funcionários comprar gasolina mais barata. Obviamente, e considerando que devíamos estar por volta de 1964, a economia era rigorosa e cada médico só tinha direito, por mês, a cerca de vinte escudos de desconto. Ora o meu Pai, que sempre foi péssimo para fazer contas e dar conta de papelada, um mês excedeu, sem se aperceber, em vinte e cinco tostões, dois escudos e cinquenta centavos, a quantia que lhe era atribuída  Tempos depois, recebeu uma carta do General mais importante a passar-lhe uma descompostura violenta e a insinuar que "deliberadamente lesara a Pátria em dois e quinhentos que devia repor, ficando, a partir de então, sem direito a mais nenhum abastecimento.". Sentindo-se ofendido e injustiçado, o meu Pai passou um cheque (à época os cheques usavam-se muito), no valor de vinte e cinco tostões, e enviou ao General dizendo que não fizera nada com espírito de lesa pátria e que, a partir de então, ele mesmo fazia questão de prescindir da facilidade dada pela PSP.
O que ele não se lembrou foi que, na época, todos os homens válidos que tivessem cumprido o serviço militar obrigatório continuavam ao serviço da pátria encontrando-se, apenas, como passados à disponibilidade... Na volta do correio veio a resposta do General que, ofendido, o mobilizava para a Guiné! 
O meu Pai tinha quatro filhos pequenos, a vida a começar, e tudo o que menos desejava era ir participar numa guerra que condenava! Foram dias de angústia e lágrimas! Mexeram-se as amizades, os conhecidos dos conhecidos, os contactos dos amigos influentes e ele lá conseguiu ser recebido pessoalmente no Estado Maior para pedir desculpa ao General.

No dia do encontro, lembro-me como se fosse hoje, levamos o meu Pai ao lugar onde seria recebido, ali em São Sebastião, perto da Gulbenkian, pelas 9,30h. Estava convocado para as dez horas da manhã e não ousou atrasar-se. Nós fomos para casa dos meus avós, com a minha avó a rezar sem parar e a minha mãe a impôr calma. O meu Pai foi recebido às seis da tarde. Todo o dia ficou isolado, não havia telemóveis, numa sala vazia, esperando que o chamassem. Finalmente, e com os nervos desfeitos, lá foi levado à presença do General que lhe passou uma grande reprimenda e lhe disse que agradecesse aos amigos militares que o tinham livrado de embarcar para a Guiné na semana seguinte...
O meu Pai continuou médico da PSP, mas nunca mais meteu nem um centavo de gasolina mais barata!!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 5

A AMIZADE

Os meus pais começaram a passar férias no Algarve no ano em que eu nasci. Há tempo demais... Conheceram, conhecemos, um Algarve de praias quase desertas, com peixe fresco a chegar à lota aos montes e a bons preços. Todos os anos, no início de Agosto, lá íamos nós um mês de férias. 

Com o passar do tempo, e com o crescimento dos filhos, os velhos hábitos foram-se alterando mas, para o meu Pai, ir ao Algarve no Verão era obrigatório. Fui companheira dele em muitas destas viagens, quase todas, e já não ficávamos um mês, mas três ou quatro dias, o tempo suficiente para matar saudades e rever amigos. Numa dessas idas, com as minhas filhas pequenas, aí dez anos, logo de manhã entrámos no quarto do meu Pai e ele, ao telefone, dizia: - "Ó António tu não me digas que não vens ter comigo! Tu não me faças uma desfeita dessas! Dormimos juntos sete anos e agora abandonas-me?!" A curiosidade das minhas filhas não tinha tamanho: - "Ó avô, tu dormiste com um senhor?!" E, então, indiferente ao sol que já inundava a praia lá fora, ele contou:
"Quando fui estudar para Coimbra fiquei numa República. Uma espécie de casa de amigos, com uma senhora que orientava (tentava) as coisas. Eu não tinha dinheiro, os meus pais eram pobres e, para estudar medicina, fui jogar futebol na Académica. Na República onde fiquei tinha como companheiro do quarto este amigo com quem estava a falar. Dividíamos o quarto e os segredos. Um dia, eu fui a Lisboa namorar a vossa avó, cheguei a Coimbra muito tarde, de comboio, muito cansado e cheio de frio. No comboio tirara os sapatos novos (estreados para namorar) e os pés tinham inchado de tal forma que não consegui voltar a calçá-los. Assim, descalço, com frio e com fome, subi desde a Baixa de Coimbra até à Alta, onde tinha o meu quarto. Quando cheguei, desejoso de me enfiar na cama, encontrei-a ocupada por este meu amigo. Furioso, abanei-o e protestei. Ele, muito ensonado, levantou-se e disse-me: - Está aqui um tipo a aquecer-te a cama e é assim que agradeces?!"
Creio que as minhas filhas se lembrarão deste episódio e acredito que, como eu, aprenderam a associar Coimbra à verdade das amizades.

domingo, 11 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 4

A MISSA
Entrada da Igreja do Reguengo
O meu Pai sempre teve alguma dificuldade em cumprir horários. Quando eu era miúda, achava mesmo que ele nunca aprendera a ver as horas porque, para além de nunca respeitar as horas, se tivesse de ir buscar-me às duas e aparecesse ao quarto para as três, dizia que eram duas e pouco... Ora, com a idade, este desrespeito pelas horas acentuou-se e, para ele, a hora certa acontecia sempre por volta de: - Almoçamos por volta da uma; saímos por volta das quatro; etc. Em família habituámos-nos a esta forma de olhar o relógio e já nem estranhávamos. Um dia, dia de Natal, o meu Pai resolveu que iríamos todos (o que significava filhos, cunhados e netos), à missa das dez. Ainda se ouviram alguns protestos, a hora não era convidativa a grandes demonstrações de Fé, mas não houve forma de o demover e ficou, na véspera, marcada a ida familiar à missa. Na manhã seguinte, depois da habitual agitação de muita gente e crianças em casa, com um pequeno-almoço tomado entre gargalhadas e despacha-te, lá nos juntámos para ir à missa. À saída de casa, a minha mãe, olhando o relógio, sugeriu que mudássemos os planos porque era tardíssimo. Nada disso, argumentou o meu Pai, vamos muito a tempo porque, nestas datas, as cerimónias são demoradas. E lá seguimos, quatro automóveis em fila, a caminho da igreja do Reguengo (da minha particular devoção).
Azulejo no exterior da Igreja do Reguengo
Chegados à igreja, impondo ruidosamente silêncio, entramos. Estava toda a comunidade sentada, em silêncio. Algumas pessoas começaram a ajeitar-se nos bancos, para que houvesse espaço para nós todos, e com alguma (muita) agitação, sentámos-nos caladinhos. Então, o senhor padre levantou-se, e disse: -" Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe!"
Igreja do Reguengo
A nossa vergonha transformou-se, à porta da Igreja, em protesto vivo junto do meu Pai,  com os miúdos a perguntarem se a missa era sempre só assim. Ele, calmamente, respondeu-nos: - Chegámos muito a tempo! Fomos abençoados que é o que precisamos.


sábado, 10 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 3

A VITELA
Sempre ouvi dizer que o meu avô materno, António, tinha "algum" mau humor. São muitas as histórias sobre ele, e sobre as suas monumentais fúrias, que circulam na família e, até, entre aqueles que foram seus alunos. Dos mil episódios hilariantes que conheço, há um que destaco:
"Havia, em casa dos meus avós, uma empregada eterna. Daquelas empregadas que começavam a trabalhar, dizia-se a servir, pelos dez anos e ficavam, até casarem, ou até morrerem, nas famílias que as contratavam. A Docelina era uma dessas. Fora para casa dos meus avós com uma tia, de início só para fazer "recados", e tornara-se uma peça fundamental na organização familiar. Era ela quem fazia as compras, ainda à porta, seguindo o rol que a minha avó, semanalmente e com verdadeiro espírito de economista (faria inveja a muitos Gaspares), elaborava para ela. 
Ora, um dia, dia de visitas, a minha avó deu ordem para que se comprasse uma peça de vitela. À hora do almoço, com os convidados à mesa, contou que tinha dito à Docelina para comprar um lombo de vitela maravilhoso! Falou antes do tempo... Servida a refeição, a carne revelou-se dura e fibrosa, difícil de mastigar e de engolir! O meu avô, não sei se mais irritado por causa das visitas se por causa de se sentir enganado, chamou a empregada à sala: - Ó mulher, tu não compraste vitela!- e ela, segura, garantia: - Comprei sim, senhor doutor! Ai isso é que eu comprei! - E o meu avô, com o bigode a tremer (imagino eu) insistia: - Não compraste nada! Isto é vaca! - E a Docelina, ofendida no seu orgulho de eficaz serviçal, garantiu: - Ai não é não, senhor doutor! Podia ser vitela velha, mas era vitela de certeza!!"
Ainda hoje, em casa dos meus pais, quando a carne sai rija, se ouve a piada "Deve ser vitela velha..."


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 2

O SUICÍDIO - FIM
 Torre da Igreja de Alegrete


"Pois era mesmo preciso encontrar um espaço para colocar o corpo. A morte não permite algumas indignidades a que a vida parece indiferente. Se o Manel estivesse vivo, bem podia aquecer-se no bafo das cabras, dormir enrolado em peles por curtir e comer o pão que o diabo amassou, mas morto, ganhava outra dignidade. Ora, aquela hora tardia, naquele ermo, não parecia fácil resolver o problema. 

Foi então que o senhor padre, tal como eu chamado à pressa, sem ter tido tempo para encomendar a alma daquele desgraçado que conhecia de menino, salvou a situação:"Leva-se o corpo lá para a casa da Igreja. A gente arranja lá onde o deitar. Ora aparelha aí a carroça." Num instante a carroça estava pronta, a mula convocada para puxar e alguns braços de homens colocaram o corpo sobre a palha. A mulher, sempre com a criança ao colo, sentou-se ao lado, embrulhada na negrura da noite, cosida no silêncio que o choro entrecortava. Eu, incapaz de voltar a saltar para o lombo da mula que me trouxera, segui a pé, com os guardas, numa longa hora de marcha até à vila. 
Chegados à Igreja, com os primeiros raios de sol a despontar, o senhor padre abriu de par em par as portas da sala contígua. Olhei e não pude disfarçar um sorriso: - Em cima da mesa de pedra larga,  mesa de matança, estava a carne do porco em meio de desmanchar! Com desembaraço, o senhor padre deu ordens aos fiéis, chegou-se  a carne para os lados, tiraram-se os alguidares com o sangue e colocou-se o corpo do Manel. Por ironia, da vida ou da morte?, ele tinha agora a abundância que nunca conhecera em vida."


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS 1.

Acompanhando o meu Pai, sobretudo nos últimos anos da sua vida, fui ouvinte de mil estórias que, subitamente e sem aviso, ganham forma na minha cabeça. São, sobretudo, factos vividos na primeira pessoa, era ele então jovem médico, ou ainda estudante de medicina, que me fazem companhia quando a solidão se torna forte demais. Resolvi, agora, a propósito de coisa nenhuma, dar letra a algumas delas. Penso que os intervenientes, aos quais vou obviamente alterar os nomes, já não estarão entre nós, mas acho importante afirmar, claramente, que não tenho intenção de criticar ninguém (quem sou eu para o fazer?), mas, antes pelo contrário, de imortalizar momentos de uma vida que foi cheia! Resolvi trazer o meu Pai para junto de mim, no lugar que é dele sempre, e pô-lo a contar, como me contou a mim. Espero que a saudade não me atraiçoe, que a emoção não me troque o alfabeto...

 Alegrete - Castelo


O SUICÍDIO
"Era eu médico há pouco mais de um ano, vivendo ainda em casa dos teus avós e com o teu irmão muito pequenino, pediram-me para substituir o médico de uma freguesia vizinha, Alegrete, porque o colega precisava ser operado em Lisboa. Agarrei a oportunidade com as duas mãos, na época ganhava 500 escudos por mês, menos do que a tua mãe que era professora, e aquele dinheiro dava-nos muito jeito. Assim, todas as tardes, num carro de aluguer, lá ia eu fazer a consulta do colega. Era chamado a qualquer hora, sem aviso prévio, sendo convocado pelo homem do carro de aluguer, que era simultaneamente o presidente da Junta, e que se apresentava em nossa casa dizendo "Doutor, vamos lá que vossemecê faz lá falta!" e eu lá ía. Uma noite, noite de chuva e trovoada, uma daquelas noites terríveis de Portalegre, seria quase meia noite, bateu à porta o homem do carro. "Temos de ir doutor, enforcou-se o Manel da Pisca. Está lá pendurado, precisam de si!" Calcei umas botas, vesti o capote e disse à tua mãe que não devia demorar, ia só confirmar o óbito. Julgava eu... 
Mal chegámos junto da ribeira, o homem parou o carro e informou-me "A partir daqui, o carro não passa. Vossemecê passe a pé que do outro lado está a mula do Xico Farinheira que o leva." Jovem, ainda com restos da minha energia de desportista, passei o rio e saltei para o lombo do animal. À minha frente, a pé, seguia o Xico Farinheira, atarracado, com uma tosse de tuberculoso e de poucas falas. A acompanhar os relâmpagos, a interromper o ribombar intenso da trovoada que andava já por terras de Espanha, apenas a luz tremelicante do candeeiro de petróleo que o Xico levantava, de vez em quando, para alumiar os calhaus do caminho. 
Chegamos à casa, um Monte triste onde parecia ter caído um véu de estrelas, de tal forma tremelicavam candeeiros, e fui recebido pelo pranto ordenado da viúva e das vizinhas. A GNR já lá estava, aguardando. Cumprimentos feitos e o cabo, cheio de poder na voz, declarou que me acompanhava ao sótão onde o Manel da Pisca se tinha enforcado. Segui-o, cheio de frio e de tristeza, reparando num pequeno de três ou quatro anos sentado no colo choroso da viúva, subindo a escada íngreme. Quando o cabo abriu a porta, o vento forte entrou livre, fez corrente, soltou telhas de barro e fez cair o corpo que balançava na trave. Então, o cabo desatou aos gritos "Ai que o cadáver está vivo! Ai que o cadáver está vivo!" e voou escada a baixo quase me derrubando no caminho.
Infelizmente, o cadáver estava mesmo morto...Certifiquei o óbito, dei os pêsames à viúva e fui tratar da remoção do corpo. Para onde o levar, aquela hora tardia? Como o transportar sob a chuva que, então, caía copiosamente?" 
- Filha, vamos ver o telejornal que um dia destes conto-te o resto da estória. Um dia, hás-de escrever estas minhas narrativas. "

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

FRONTEIRA


Quando a UE, então CEE, aboliu as fronteiras entre os países membros, tive imensas dúvidas sobre as vantagens de tal decisão. Claro que é agora muito mais fácil ir a Badajoz, mas também é mais fácil deixar que a droga, os terroristas e afins ,entrem em Portugal. Mas não adianta reclamar sobre o leite derramado, as fronteiras foram abolidas e paciência. Eu hoje, só mesmo por antinomia, fui atacada por um imenso desejo de levantar fronteiras. Fronteiras à volta de cada um, ou pelo menos à volta de mim, de modo a ficar esquecida do linguajar alheio. Devia haver uma forma de evitar que as pessoas se metessem nas vidas umas das outras, comentassem e opinassem sobre o que não sabem, ou sobre aquilo que não lhes diz respeito! E devia, também, haver forma de limitar o "eu", de o barrar à invasão alheia que se faz, tantas e tantas vezes, de conselhos desajustados, de julgamentos ingratos e cruéis. Eu queria poder ser parte do todo sendo só eu. Eu! Ficam-me curtos os conselhos alheios, ferem-me de morte as sentenças dos outros. Queria ser uma rocha, forte, capaz de deixar que as marés sociais me passassem à volta sem fazer dano, sem deixarem crateras no meu ser...