quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Renovação


 Irrecusável. Ele surgira com a calma que a idade permite, longe da fogosidade jovem, e lançara o desafio: - Uma viagem de veleiro! Só os dois, sem filhos, nem netos, nem amigos, nem telemóveis. Eles e o mar, descobrindo cada amanhecer, vendo chegar a noite com uma taça de champanhe. Está bem, para ti eu preparo um Kir Royal, concedera até. 
Quando a vida dá muitas voltas, quando a existência se escreve de muitas exigências, afastamentos, saudades e promessas adiadas, a idade, se estivermos atentos, oferece uma oportunidade. Aceitas? E ela, que sempre temera o mar, as ondas, a navegação, concordara sem dar por isso. Os dois tinham tudo preparado, ela insistiu nos últimos telefonemas às filhas - sempre a ansiedade materna - e partiram. Foram as férias ousadas, diferentes, cheias de silêncios feitos de mil dizeres e sentires. O veleiro alugado, moderno e simples, permitia-lhes a cumplicidade das tarefas a partilhar. As noites, como ele prometera, faziam-se de ternura reinventada, de partilha real e efectiva, e cada nascer de sol trazia-lhes a certeza de que a vida se renova e a felicidade é possível ainda que. Sempre que.
À chegada, os dois renovados, caminharam pela praia e ela, rindo como julgava já nem saber rir, comentara que aquelas cascas pisadas podiam, perfeitamente, ser a metáfora de um passado que ficara definitivamente desfeito!



terça-feira, 20 de agosto de 2013

ENGANO

Ao longe, comprido e de ponta levantada, sugeria um crocodilo. Ela caminhou até lá e ficou olhando. Estranha peça de ferro, solta, ali na areia, lembrando outras vidas, outras existências. Devia ter servido num navio, decerto, mas agora era lixo na praia, lugar de mexilhões e lapas, ameaça para os veraneantes. Estranha a forma como tudo, pessoas e coisas, perdem sentido, perdem os lugares onde pertencem. Como aquele crocodilo forjado, ela sentia-se deslocada, com espaço para crescerem os mexilhões da solidão, com lugar para se agarrarem as lapas da tristeza intensa. Como a velha peça abandonada, também a ela apetecia ficar ao sabor das ondas da vida, sem escolhas obrigatórias, sem necessidade de crer. Talvez na sua alma houvesse caruncho de ser...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

POSSIBILIDADE

Sai de casa cedo, noite ainda, e, indiferente aos 40º graus que a rádio anuncia, começa o dia. É um jovem alentejano, agricultor, que carrega na pele uma herança com raízes perdidas no tempo. Bem português, não se envergonha de amar a terra e os animais, de saber de cor os nomes das muitas vacas que cria, de amar os cavalos que cuida e monta. Na sua juventude é com orgulho que veste os trajes de trabalho, com identidade própria, e que coloca o chapéu que o há-de proteger um pouco do sol do Alentejo. Do trabalho necessário de ferrar o gado faz jogo, e a derriba acontece. Juntam-se os espanhóis com os portugueses, uma união feita de gentes e vontades, constituem-se as equipas e inicia-se a derriba.
As paragens são curtas, apenas para um cumprimento, para um gole de água fresca. O Alentejo mostra-se imponente e vivo, os enormes sobreiros emolduram o espaço. Olho o campo, o meu mundo, os meus sobrinhos, e sinto uma raiva enorme feita de incompreensão: - Porque não deixam os jovens ser portugueses? Porque fecham portas e os mandam embora? O que estão a fazer ao pobre Portugal?! 

sábado, 17 de agosto de 2013

ESTÓRIAS INVENTADAS

Depois de um dia de praia, e mesmo tendo tido muito cuidado com o sol, ainda que tivesse refrescado a alma com uma caipirinha gostosa, sentia a pele a estalar e a alma mole.
Tomou um duche quase frio, deliciou-se com os cremes que espalhou sobre o corpo e deixou-se ficar, por vestir, sobre a cama estranha. Lá fora, as ondas continuavam certas, umas atrás das outras, agora sem presenças incómodas. As gaivotas gritavam, talvez protestando contra a multidão que começava a encher as dunas e as esplanadas da marginal concorrida, e ela semicerrava os olhos pensando no sabor das férias. Era bom poder estar assim, sem tempo imposto, sem rotinas, deixando apenas que a vida se cumprisse naquela mornice cheirosa. Em breve, sem pressas, iria vestir-se.
Um vestido longo, fresco, sandálias rasas, um rabo de cavalo juvenil. Como adereço, apenas o anel, simples, brilhando ligeiramente, devolvendo-lhe outras vivências, outros momentos de felicidade que agora pareciam querer repetir-se. Estava feliz, sim! Lembrava, a propósito de coisa nenhuma, o título de um livro:"Mulheres que escrevem, vivem perigosamente" e sentia-se capaz de escrever outro, diferente, sob o título: "Mulheres que sentem, podem ser felizes". Sabia-lhe bem a felicidade descontraída e antegozava o prazer, que sabia certo, da dança que faria em breve nos braços cúmplices que a aguardavam. Se era feliz? Talvez sim, talvez não. Mas estava feliz e, com certeza, a felicidade é um estado passageiro...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 9

O NAUFRÁGIO
Na casa de Albufeira junto à FNAT, a casa do Cabrita, vivi Verões que nunca esquecerei! Lembro ainda a minha bóia pato, com boné azul e pescoço longo, os castelos na areia, os jogos de futebol que os rapazes faziam na praia, e o anoitecer. Nunca mais vi noites como as da minha infância algarvia, quando o céu parecia estender o manto de estrelas sobre o oceano, a noite chegava e, aos poucos, no mar iam-se acendendo luzinhas até que os dois azuis se confundissem num só. 


O meu Pai, que não sabia estar quieto mais do que cinco minutos, fez amizade com um pescador dali e, uma noite, resolveu ir à pesca e levar os "homens" da casa: - O meu irmão, um amigo da mesma idade, o meu primo aí com 7 anos, o meu tio e ele. Partiram ao fim da tarde, cumprindo a velha máxima de deixar as mulheres em terra, e ao anoitecer as senhoras foram para a varanda, mesmo sobre a praia, esperar o regresso dos nautas familiares. As luzinhas começaram a acender-se e, a cada uma, ouvia-se um ansioso é agora, são eles, que não se concretizava. 
Cumprindo uma rotina adulta que ainda hoje não compreendo, as mães despejaram em cima de nós a angústia e mandaram-nos desaparecer para a cama. 
Fiquei acordada, assustada, adivinhando cada ruído e chorando baixinho por pensar que o meu Pai podia não voltar e ficar para sempre perdido no meio daquelas mil luzinhas traiçoeiras. Algumas horas depois, ouvi barulho e vozes. Saltei da cama e fui espreitar por detrás da porta do corredor. Com o meu primo ao colo, todos ensopados, os homens voltavam. O barco, um barquito de pesca, começara a meter água, tinham voltado o mais depressa possível mas, mesmo assim, tinham feito o final da viagem a nado! Nunca mais houve pescarias nocturnas, o meu Pai passou a pescar no pontão sobre o esgoto (juro que é assim que me lembro!) mas eu, ainda hoje, quando vejo partirem barquinhos ao final do dia, lembro o susto que apanhei...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 8

O ANANÁS ROXO
Nos últimos anos de férias no Algarve com o meu Pai, a província de D. Afonso III estava muito diferente do ano de 1960, quando começamos a ir para lá no mês de Agosto. Nos restaurantes não gostavam muito de portugueses, a simpatia era pouca e os preços, muitas vezes, incrivelmente exagerados. A um desses restaurantes, bem situado na então recente Marina de Vilamoura, era mais ou menos frequente, uma vez por ano, irmos jantar em família. Lá, o peixe era sempre fresquíssimo e a paisagem soberba. Uma noite, talvez aí em 1989, lá foi a família jantar ao dito local. Tudo tinha mudado! O serviço era péssimo, a antipatia muita e o peixe pouco fresco. Só os preços exagerados se mantinham. Chegados à sobremesa, e já depois de muitas reclamações e protestos, o meu Pai pediu ananás. Apareceu uma rodela negra, num prato branco.
Chaminés algarvias
Foi a gota de água. Sem que o esperássemos, o meu Pai pediu para chamarem o dono, identificou-se como médico (o que era verdade), disse que o meu irmão também era médico (o que também era verdade), e acrescentou que fazia parte da inspecção sanitária (o que não era bem verdade, embora trabalhasse no Centro de Saúde). Mostrou o seu desagrado e disse que ia denunciar a situação e, possivelmente, fazer fechar o restaurante. A aflição do proprietário do espaço não tinha tamanho! Bem mais vermelho do que a lagosta suada que impingira à mesa vizinha... A discussão foi dura, o meu irmão a ajudar, e até foram visitar as instalações da cozinha! 
No final, saímos quase ao colo do dono e o jantar foi "oferta da casa".
Há dois anos voltei lá. Está tudo igual, incluindo os preços exagerados. Não pedi ananás...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

ESTÓRIAS HERDADAS - 7

A SUITE
As Reuniões de Curso do meu Pai, licenciado pela Universidade de Coimbra no ano de 1951 (Curso 45/51), eram sempre acontecimentos marcantes. O local era escolhido de  um ano para o outro, no último jantar da reunião, sempre na terra onde vivia um dos membros do Curso. Acompanhei o meu Pai quase sempre, levei comigo as minhas filhas que nunca mais esquecerão, de certeza absoluta, as lições de verdadeira amizade. Um ano, a reunião teve lugar em Resende, juntinho ao rio Douro, num lugar que prometia tornar-se um cenário perfeito. Como habitualmente, ficou o médico residente no local encarregado da organização e da marcação das dormidas. Numa sexta-feira bem cedo, metemos-nos no carro rumo "lá acima" a Resende. O meu Pai, com a boa disposição que estas saídas sempre lhe davam, foi preparando as minhas filhas: - Hoje, vocês vão dormir numa Suite! Vocês nunca ficaram numa suite! É melhor do que um hotel de 5 estrelas, vão ter o rio Douro a vossos pés, vão ficar num hotel maravilhoso". As miúdas iam excitadíssimas, e a cada nova pergunta a resposta do avô era: - Vão ficar pasmadas! Nunca mais se vão esquecer!
Hotel Convento de S. Paulo (justo por antinomia)

A meio da tarde, porque antes das auto-estradas o país era maior, chegámos a Resende e, de papel na mão, lá fomos perguntando onde ficava o Hotel e a tal suite... Era quase noite quando chegámos ao destino: - Um café de estrada, cheio de camionistas, sem nada à volta, e quartos no 1º andar! A suite era um quarto com aranhas nos cortinados, lençóis que há muito não viam água e uma decoração assustadora! Havia duas camas, mas uma sobrou porque as crianças recusaram-se a dormir longe de mim. Desiludido, o meu Pai bem tentou falar com o colega que lhe disse que aquilo era uma suite, porque tinha um hall de acesso ao quarto... No dia seguinte, mudámos de hotel, fomos para Lamego e a palavra suite ganhou, nas nossas brincadeiras com o meu Pai, um novo significado... Ainda hoje, passados talvez 20 anos, as minhas filhas se riem quando ouvem falar em suite! 
Mas Resende era um lugar lindo!