sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Coisas de Gostar

Gosto de caminhar à beira-mar. Gosto da minha Serra. Gosto de um abraço forte e inteiro. Gosto de rir. Gosto de olhares cúmplices. Gosto de sonhar.
Gosto dos meus netos, das minhas filhas, do meu amor, dos meus sobrinhos, dos meus alunos, dos meus amigos. Gosto do inverno, do vento e da chuva, do manto cinzento que embrulha a realidade. Gosto de cães, de campo, de caminhar por azinhagas com pedras e verdes escorregadios. Gosto da verdade. Gosto de ler, quando tudo e todos estão em silêncio, os velhos romances da minha adolescência. Gosto da poesia suave, das palavras musicadas, da ternura doce. Gosto do sol na praia, da espuma das ondas, de nadar livre. Gosto dos amigos em casa, dos almoços compridos em volta da mesa de pedra, da fonte a correr. Gosto de vinho branco, fresco. Gosto de uma caipirinha caprichada. Gosto dos monumentos do meu país, das estórias da História, de Pessoa e de Camões. Gosto de ser feliz e acho, de verdade, que é preciso treino para se conseguir sê-lo. Dá trabalho ser feliz, vai contra a maré de infelicidade que parece vingar. Eu gosto deste exercício de gostar!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O URSO

No bicho, urso, havia algo que comunicava. A ela parecia surpreso, curioso; a ele, vazio, com cara de pouco esperto. Os dois olhavam-no brincando, interpretando o olhar como interpretavam a vida, em uníssono, descobrindo em cada amanhecer uma nova oferta, uma nova possibilidade. Vinham de passeio, final de férias, e aquele bicho ali, no Museu perdido e desconhecido, obrigara à paragem. Por ali andara, leram, a dinastia de Avis. Outros tempos... E ela falava do Portugal perdido, dos poetas ausentes, da mágoa de ver as novas gerações desistir da esperança, arrumar o sonho. Ele discordava, pragmático, afirmando que sempre houvera tempos terríveis. 
De repente, o silêncio foi rasgado, com violência, pelo som roufenho de um automóvel em campanha eleitoral. No chão ficaram papeis coloridos, no ar a voz incómoda.
Os dois continuaram viagem, agora em silêncio, lembrando, talvez, a necessidade de Educação que já a Mãe da Dinastia de Avis defendera...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Coincidências ??

 De pescoço esticado, elegante e firme, desliza sobre a água. Não traz séquito, não precisa de apoios, parece-me feliz na sua ignorância de felicidade, na sua ausência de ambição. Vejo-o passar, bailarina perfeita, e invejo (um pouquinho) a sua tranquilidade.
Mais além, por perto, reparo nos cágados, enormes e gordos, deselegantes, escuros e escorregadios. São répteis, e eu não gosto de répteis. Sentada na esplanada próxima observo-os e, sem que perceba porquê, penso nos cartazes dos candidatos políticos que, agora, enchem esquinas e paredes da minha cidade. Do meu país. Volto a olhar os cágados. Já me parecem mais simpáticos...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Não é desta

Já reencontrei os meus alunos. E que me interessa (hoje...) o Ministério e as suas anormalidades?! Estou de baterias carregadas pelos olhares curiosos e pelas saudades que senti e que sei que eles sentiram. Fez-me bem voltar a ouvi-los perguntar sobre ousadias, a sorrirem a desafios, a exigirem muito de mim. Foi bom ver como cresceram, como têm sonhos, como querem ser melhores. Os melhores! A Escola é isto: Alunos e Professores a construírem teias de cumplicidades, a criarem processos de aprendizagem. E isso, o senhor Ministro que me desculpe, mas ainda não será ele que me vai roubar!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A VERDADE

Não quero nem saber porque razão o Ministério da Educação insiste em dizer falsidades. Revolta-me ouvir afirmar que tudo está bem, que não há constrangimentos (palavra idiota esta!), que o ano lectivo começou com normalidade. É que a VERDADE, verdade mesmo, não é esta!
 A VERDADE vivida é outra...
1 - Há turmas com mais de trinta alunos. MUITAS!
2 - Há turmas com alunos NEE (Necessidades Educativas Especiais) e mais de vinte e cinco alunos;
3 - Há professores sem nenhuma formação específica para tal (eu!) a trabalhar com jovens com NEE sem saber como...(faz-se mais devagarinho??);
4 - Há jovens de 16 anos enfiados em turmas de miúdos de treze;
5 - Há projetos sem espaço de horário para se desenvolverem;
6 - Há um professor de Ensino Especial para dar apoio a três Escolas (ou mais)!!
7 - Há escolas proibidas de fazer fotocópias para além de testes, porque não há dinheiro;
8 - Há alunos impedidos de realizar visitas de estudo por não poderem pagar;
9 - Há salas com temperaturas ambientes superiores a 35º onde se assa (literalmente);
10 - Há alunos que não estão na escola que desejam, embora haja vagas;
A verdade, em termos de educação, é que se quer enganar quem aprende e quem ensina. O ensino público, com certeza com algumas excepções, vive da boa vontade dos professores, do seja o que Deus quiser (tão português) e da passividade de um povo que parece anestesiado! Onde estão os órgãos de comunicação social para desmascarar esta situação? Onde estão os pais que vêem os seus filhos ser forçados a mudar de escola?!
Já chega de mentiras! Ao menos que o ME tenha a coragem de dizer que as coisas não estão bem, mas não querem fazer melhor... Que desespero!

domingo, 15 de setembro de 2013

Silêncio

Está tudo calado. Oiço o silêncio que estala na mobília de que gosto, escuto as conversas das personagens dos muitos livros que enchem as estantes. Em mim, ecoam sonhos, receios, inseguranças e certezas. 
Gosto do silêncio. Gosto da noite assim, minha e calma, com a alegria de estar acordada sem insónias de doer. No silêncio escuro afasto as conversas incómodas, as certezas alheias, as críticas frequentes. 
Calo tudo, oiço só, baixinho-baixinho,o meu coração vivo a falar de vida. Da minha!

sábado, 14 de setembro de 2013

A Chihuahua


 Sentou-se na esplanada, com 1,5kg de cão ao colo. Perdão, cadela. O laçarote rosa, o ganchinho cuidadosamente colocado no pelo enrolado, não deixavam margem para dúvida, e a pequena Chihuahua não devia achar graça a confusões de sexo. Pediu um chá gelado, que não havia, e bebeu uma limonada, que havia. Com o telemóvel sofisticado, decerto um Iphone de última geração, fotografou a Torre de Belém com sofreguidão. Como se quisesse guardá-la só para si, ou como se quisesse compreender aquele monumento assente na água, ou como se pretendesses captar um passado que não vivera, ou, apenas, com a fúria moderna que faz telemóveis dispararem furiosamente sobre tudo e todos. A mulher sozinha, ou melhor, as duas figuras cuidadas, prenderam a minha imaginação. Alguma vez, no momento de construção deste monumento incrível, os homens teriam sonhado que pouco mais de um quilo de cão (cadela) pudesse sentar-se à mesa e beber limonada de um pratinho? E imaginaria aquela mulher moderna os sacrifícios por detrás do monumento? De repente, ouvia em mim as Despedidas de Belém, o choro de outras mulheres, a angústia certa de muitos homens. 

Veio Camões desafiar as tágides, vieram os frades abençoar as caravelas, vieram os portugueses sonhando alto, sonhando longe, querendo mais e melhor. Era o Tempo de ousar e não, como hoje, o tempo de lamentar e desistir...
Agora, a velha Torre é pedra morta, suja e gasta, como os sonhos mortos dos portugueses perdidos. 
No alto, a lua marcava presença, ainda que o sol brilhasse, como que garantindo que a noite existe mesmo quando o dia se enche de luz. A mulher moderna beberricava ainda a limonada, afagava a bichinha e olhava a Torre. Subitamente, um homem chegou, beijou-a friamente e sentou-se. Ela apontou a Torre, ele pediu uma cerveja. Ficaram conversando, ele vendo no telemóvel as fotos que ela tirara, esquecido de que o original e real estava mesmo ali. Lembrei-me de como, tantas vezes, nos perdemos no virtual esquecendo a proximidade do real (ainda) possível.