segunda-feira, 30 de setembro de 2013

OS VOTOS

Foi com apreensão que assisti aos resultados eleitorais.O anúncio de uma vitória estrondosa do PS, para mim que não confio nos socialistas e que tenho bem presentes as barbaridades dos governos PS, assustou-me. Para complicar as coisas, os resultados de Portalegre tardavam a aparecer... Angustiada, pedi ajuda à Rádio Portalegre e, finalmente, uma boa notícia: Em Portalegre o PS não ganhou! A candidatura independente, embora ideologicamente próxima da social democracia, arrancou uma maioria absoluta! Festejei! Pelo menos por aqui, no meu mundinho, não aconteceu o pior...
Vejo o voto no PS como uma forma de castigar o governo da coligação, não acredito que os votos fossem iguais se se tratasse de eleições legislativas mas, ainda assim, faz-me confusão esta maioria socialista. Vejo com bons olhos, por outro lado, as muitas vitórias dos independentes. De facto, os Partidos parecem só praticar a baixa política e é bem importante, e urgente, que se mudem as práticas. 
Afinal, embora a noite tivesse começado assustadora, as coisas não foram tão más como eu temia e o CDS conseguiu cinco câmaras!!

domingo, 29 de setembro de 2013

ALDEIA DA LUZ


Saí de casa bem cedo, aqueci a manhã chuvosa e cinzenta com a bica no mercado de Portalegre e fiz-me ao caminho. Esperava-me mais um sábado de formação de professores, bem longe, na Aldeia da Luz, no lugar onde o Alentejo se faz líquido, Curvei pela Serra d'Ossa vazia, sorrindo com tristeza ao apela de um cartaz "Proteja a floresta", num lugar onde só há restolho, não entrei no Convento de São Paulo (mas hei-de voltar lá!), e, subitamente, a paisagem mudou. Agora, pouco depois do Redondo, a água abundava dos dois lados da estrada. Abrandei  e fui-me enchendo de imagens fantásticas. Água, e terra amarela - Alentejo mesmo - numa harmonia que me pareceu perfeita. Num instante, porque as duas horas de viagem passaram num instante, entrei na Aldeia da Luz. 
O vazio impressiona, o silêncio ensurdece. Portas fechadas, janelas cerradas, ruas sem vida. Valeu-me o GPS, certeiro, que, sem que eu precisasse acordar ninguém, me levou direitinha até ao Museu da Luz. 
Encontrei um espaço carregado de sentido. De sentidos. No largo, uma série de cruzes, a igreja branca, os muros de xisto. Dentro do museu, transbordando paz, a história da outra Aldeia da Luz, agora afogada
O dia voou, conduzido por duas fantásticas formadoras vindas da Gulbenkian, descobrindo livros, construindo espaços de textos e sonhos. Talvez lugares onde cabem sonhos...
Cheguei cansada, debaixo de trovoada intensa, mas sentindo que há momentos que fazem sentido na vida de professora. Sacrifiquei um sábado, mas valeu a pena. Quando a formação é a sério, todos os quilómetros se justificam!!
(Daqui a pouco vou votar, mas nem quero pensar nessa tristeza....)

sábado, 28 de setembro de 2013

ABISMO


Ela vinha de lado nenhum. Partira do espaço vazio, do que fica depois do caos, dos escombros de um passado que era, agora, inexistente. Ele chegou cansado, devolvido de uma existência atribulada onde, por quanto tempo?, se perdera. Os dois olhavam o abismo e os dois se olharam também. No olhar do outro, cada um encontrou eco, ainda que não resposta. Falaram a mesma linguagem, sem ontem, sem amanhã, num presente de sentidos nada lógicos. Ela sorria com o olhar, ele gargalhava com o corpo inteiro. Depois, afastaram-se do abismo e partiram. Ele voltou à vida onde era marioneta para o mundo; ela retomou o andar cauteloso sobre escombros que doíam. Sem ser nada, sequer o início de uma possível história de amor, foi o olhar do abismo que os uniu na distância em que, para sempre, se mantiveram. Nonsense? Ou a vida?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

É BOM SER MULHER!!! (Na boca dos Poetas...)


A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Homenagem


É por Ti que Escrevo

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

Outono


Querendo impor o calendário, o Outono começa a chegar. Na noite escuto o vento fresco, oiço as nozes que caem da nogueira carregada, deixo entrar o cheiro a terra molhada - a chuva anunciada - de que tanto gosto. O sono fugiu para longe, talvez para o lugar das férias que acabaram, mas a insónia, hoje, é suavemente perfumada de memórias e esperas. Espero o Outono de que tanto gosto! Vejo já os castanheiros do Porto de Espada, enormes, prenhes de magustos a haver. Antecipo as manhãs cinzentas, a exigirem o casaco, a descida para a cidade ainda envolta no edredon de nuvens. Recordo outros Outonos, tempos em que o Tempo fazia sentido, e não experimento nenhum saudosismo amargo. Sabe-me bem o presente, agora, escuro, incerto, mas fresco e perfumado.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Comparações??


 Imagino D. Henrique, o infante sonhador, ajoelhando na pequena ermida, perto de Sagres, para pedir a Deus, e à Virgem de Guadalupe, bons ventos, boas marés, bons portos para receberem o sonho português. 
Vejo-o chegar, de longo manto e escolta nobre, ajoelhar e rezar. Quero crer que tinha um sonho, uma ambição para Portugal e que, por isso, trabalhava e apoiava os homens dos Descobrimentos. Vejo-o com alguma inveja...Gostava de ter vivido num Tempo em que os leaders tivessem sonhos de grandeza, ousadias para o meu país. Hoje, o que vejo é gente sem sonhos, sem ambição nacional. Oiço e vejo candidatos miméticos, propostas ocas e promessas ridículas. Vejo em Oeiras, estranhamente, anunciar que se pretende continuar Isaltino. (Este senhor não foi preso?!) Oiço anunciar empregos, como se estes estivessem numa gavetinha da cómoda da presidência, e pasmo de revolta e angústia. Com certeza, quero crer, haverá propostas razoáveis e verdadeiras, mas eu não as encontro! Como se pode garantir, por exemplo, que haverá manuais escolares gratuitos para todos os alunos do Ensino Básico?! Como se pode afirmar que se vai criar emprego na minha cidade de Portalegre?! Lembro que o Infante D. Henrique, portador de sonhos, pedia a intervenção divina, mas, hoje, acho que nem os céus poderiam valer a tanta loucura...