quinta-feira, 20 de março de 2014

Cimeira da Democracia

Já passaram dois dias, mas eu ainda estou a vibrar de entusiasmo com a prestação dos alunos da minha escola, a São Lourenço, na Cimeira das Democracias! O convite veio da Universidade Católica, Instituição que respeito e admiro, e a resposta do Clube Europeu não se fez esperar: - Estariamos presentes, representando o Brasil, para discutir formas de consolidar a Democracia, para encontrar, pela via do diálogo e do confronto de ideias, soluções capazes de melhorar (um pouco que fosse...) o mundo actual. 
Preparado o tema, já sentindo o sangue sambar em vez de correr, lá nos fizemos ao caminho, apertadinhos na carrinha que a Câmara cedeu para um dia de trabalho. Não exagero se afirmar que os nossos alunos estiveram entre os melhores. 
Para mim, foram os melhores! Argumentaram, mostraram conhecer os assuntos e as diferentes realidades, souberam ouvir e aceitar outros pontos de vista. No regresso, estranhamente não exaustos, a discussão continuou. E eu, num fingido adormecimento, escutava-os. Ouvi-os falar de nós, adultos, pais e professores. Ouvi críticas realistas e cheias de humor, revi-me nalgumas..., e sorri ao ser confrontada com práticas adultas absurdas. No dia 18 de Março, tenho a certeza que muitos jovens cresceram e aprenderam. Foi um dia de aprendizagens efectivas, participadas, construídas e, por isso, definitivas. Estou ainda cheia de dores nas costas, foram seis horas de má posição na carrinha Hiace, mas valeu a pena!
Hoje, mais de 48 horas passadas, ainda oiço o entusiasmo da discussão e não esqueço as propostas exequíveis que eles fizeram para que a Democracia não seja apenas uma palavra bonita...
" Cuida de mim, se não, eu desaparecerei. Tua Democracia" esta frase, projectada pelo especialista Larry Diamond, vindo dos EUA, da Universidade de Stanford, continua a ecoar dentro de mim. 
Será que nós cuidamos dela, 40 anos depois de a termos conseguido?

quarta-feira, 19 de março de 2014

DIA DO PAI

Pai, fazes-me falta. Lembro o teu sorriso, a forma doce como vias, comigo, adormecer o dia, os passeios longos, as viagens, a procura daquele restaurante, aquele de que nos tinham falado... Tenho saudades da tua pressa constante, das idas rápidas à praia porque tu não sabias estar quieto muito tempo. Recordo tanta coisa! As caçadas clandestinas, a casa cheia de flores para receber os teus muitos amigos, a preocupação com o bem estar de todos, as visitas a Coimbra que apelidavas de romagens de saudade. 
Saudade é o que sinto hoje. Esta dor funda, apertada, impossível de aliviar.
Hoje, na nossa Serra, bem cedo ainda, ouvi o cuco cantar. Abri a janela da varanda, deixei entrar o sol tímido de inverno, voltei a ler a máxima que nos deixaste na parede "O oxigénio dos ares é dos melhores medicamentos//muitos o desprezam//por não custar dinheiro". Há tanta coisa que desprezamos por não custar dinheiro... A compreensão, a ternura, o tempo da amizade, o amor até. Desprezamos até o outro e, às vezes, desprezamo-nos a nós mesmos. Eu faço-o.
Pai, fazes-me tanta falta. O tempo, o meu, ficou mais vazio e eu sinto-me mais  sozinha.
Pai, ensinaste-me que Deus sabe tudo mas, cá para mim, Deus não sabe como foi injusto ter-me deixado sozinha...
Pai, hoje é o teu dia, dizem. Para mim, o teu Dia é cada dia. Cada olhar no horizonte que alcanço da varanda pequenina, cada anoitecer na Serra, cada caminhada à beira-mar, cada ouvir do cuco que anuncia a Primavera. Pai, quero acreditar que estás aí. Aqui. Que vigias e estás perto. Mas tenho tanto medo... Fazes-me tanta falta!

segunda-feira, 17 de março de 2014

DO ALTO

 Sobe-se ao Arco da Rua Augusta e, lá de cima, a visão do Mundo, do nosso mundo português, purifica-se. Lisboa, cidade de sol e brilho, abraça o Tejo, e as nossas memórias vêm ao de cima. Ali está a estrada líquida dos sonhos perdidos, além a Ponte da ditadura renomeada Liberdade, lá em baixo o Terreiro do Paço, que nem é terreiro, nem alberga qualquer paço... 
Reconhecemos a cidade, descobrimos edifícios e saboreamos o silêncio que nos acompanha. Perto de nós, um pé gigantesco. Olhei-o com surpresa. Li ali a mensagem simbólica de outras caminhadas, de outras passadas imortalizadas,  agora feitas pó e saudade...

domingo, 16 de março de 2014

Limitações


Chegou a Primavera com o Verão a reboque. Está calor, para mim excessivo, e as pessoas procuram as praias, as esplanadas frescas, o descanso em lugares soalheiros. Em Lisboa, isso não é fácil... Porque, à sombra da ditadura do desporto, com essa mania moderna de que correr faz bem, encerra-se a ponte, vedam-se acessos e toca de irem (os que querem) passar a ponte a pé...Os que não querem, ainda que sejam a maioria, que se lixem. Que fiquem em casa. 
É esta a visão da democracia em Portugal, decidem as modas, e as minorias... Porque não vão as pessoas correr para os estádios, à beira-mar, em Monsanto?! Como me irrita que me vedem caminhos, que me limitem na minha mobilidade. Eu também pago impostos, IMENSOS, porque tenho de levar com estas práticas que me condicionam?
Este post vai-me valer mil insultos...Mas eu nem quero nem saber! Que chatice!

sábado, 15 de março de 2014

De Cima

Lá em cima, no alto do arco da Rua Augusta, fica um dos melhores miradouros de Lisboa. De lá, vêem-se telhados, pessoas minúsculas e gostosamente silenciosas, e o Tejo sempre! A estátuta, grande e de costas para nós, deixa-nos ver pés descalços. De Gama? de Viriato? do Marquês? Não interessa porque são mudos, e olham sem ver o Tejo, "futuro do passado". Não perco tempo a olhá-los, encosto-me e fico reconhecendo a cidade: - Mansardas com gente, narrativas por escrever, lojas modernas, esplanadas, o Castelo por limite. Curiosa e estranhamente, lá no alto, onde não chegam naus nem caravelas, estão dois cabeços suportando força de amarras que nada seguram. Com certeza é a força das Descobertas, a presença da época de ouro deste país que é Portugal. Mas, curiosa e tristemente, as amarras não tiveram força para segurar o futuro que, hoje, é presente triste...

sexta-feira, 14 de março de 2014

VIAJAR

"Viajar. Perder países (...)" Oiço no silêncio este verso aprendido no Pessoa eterno. Vejo passar o campo florido, reparo nos espelhos de água onde as nuvens se penteiam, e ecoa ainda em mim a ideia de perda. Faz-se presente a ausência, cruzam-se outros percursos muitos, de viagens irrepetíveis, de paisagens feitas de farrapos de outro ser. 
Passa o tempo, passa o campo, passam os tapetes brancos, os castelos das vilas e cidades que atravesso, veloz, pensando no destino, presa no que deixei para trás. Chego e não vim. Na cabeça pesam tarefas, projectos, anseios, sonhos compridos. No coração dançam memórias, grinaldas floridas, e o ritmo de jazz que me acompanha devolve-me a rumba que gosto de dançar.
Viajo. Se perco países, não sei. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

INJUSTIÇA

Há muitos anos, talvez dez, que participo no Parlamento dos Jovens. Muitas vezes, por mérito exclusivo dos alunos, a minha Escola, os meus alunos, ganharam. Algumas vezes, perderam. É assim o jogo democrático, é assim que se aprende a crescer e a participar. Quando o debate surge e a discussão se faz de verdade e diferença, é com entusiasmo que vejo os alunos participarem. O pior, o que me incomoda e amargura, é quando a falsidade impera e a injustiça vence. Tenho muitas dúvidas sobre a eficácia de um jogo de aprendizagem democrática onde, por exemplo, os candidatos são impedidos de votar em si mesmos... Será que o Dr. Passos Coelho vai votar em José Sócrates? Não me parece...
É importante, defendo, que os jovens se confrontem com os erros da democracia, que compreendam que nem sempre vencem os melhores, que há, sem dúvida, uma ditadura de números . Mas não me parece importante, ou sequer razoável, que os jovens aprendam a falsear, a votar nos piores para impedir sucessos alheio, a votar, enfim, de estâmago danado. 
Penso que o Parlamento dos Jovens já se esgotou. Hoje, encaro-o como uma actividade para preencher calendário. Apenas.