segunda-feira, 31 de março de 2014

CARTA PERDIDA


Ali junto ao Tejo, esquecido no meio da modernidade humana, está um marco do Correio sem uso. Viu crescerem ervas, daninhas?, viu até nascerem algumas flores coloridas. Espreitei lá para dentro, procurando postais antigos, vidas esquecidas, e não é que encontrei uma carta perdida, decerto deixada cair por algum carteiro incauto?! Rezava assim:
"Querida Mulher minha,
Vou passar em Lisboa, sem tempo para abraçar-te, mas com espaço para correr a deixar-te esta carta no marco aqui mesmo junto ao cais. Queria dizer-te tanta coisa... Queria, desde logo, dizer que tenho saudades do teu sorriso, do teu cheiro a lavado honesto, da sopa que fazes e me devolve a fé na humanidade. Tenho saudades de te abraçar, de te colar ao meu corpo sabendo que, assim, o completo. Tenho saudades de me sentar contigo, os dois descalços, agitando os pés na margem do rio. Tenho saudades, mulher, do teu abraço quente quando, gelada, te deitas depois de mim e me pedes calor. 
Ah! A vida é assim, tenho de trabalhar, de ver a noite confundir-se com o chão líquido que me embala, de procurar na lua as palavras de boas-noites que prometeste enviar-me sempre pela estrela mais brilhante. Custa saber-te perto e não poder desembarcar. Mas a vida é assim, dizes tu, a gente tem de aprender a não poder e sorrir. Coisa esquisita, essa, de não poder e sorrir. Ah mulher, queria fugir daqui, correr pelas ruas empedradas e húmidas, chegar a casa e ter-te, surpreendida, com a humidade que te inunda o olhar sempre que a felicidade transborda do coração. Queria até, imagina, convidar-te para um naufrágio a dois.
Vou deixar-te esta carta aqui no marco mais próximo, e espero que o carteiro não a perca pelo caminho... Se se perder, terás de te satisfazer com a imaginação e com o brilho das estrelas. Como eu faço. Às vezes, vejo o teu olhar escuro na primeira estrela, sinto o teu cabelo castanho na madeira escura do meu beliche.
Para ti, vai um beijo com a intensidade das ondas, com a energia do vento, com a alegria do sol.
Até um dia. "

Quem conhecer a destinatária, por favor entregue a carta!Não sejamos cúmplices da actual desatenção emocional...


sábado, 29 de março de 2014

ABRAÇO

Tenho um sonho. Um sonho adiado sempre, tão adiado que o imagino realizado ao menos na hora da morte. Queria um abraço forte, um olhar atento, um receptor atento às mil ansiedades que inundam a minha cabeça e transbordam do meu coração. Queria, na hora da minha morte, ter um abraço intenso e fechar os olhos envolta em ternura real e desinteressada. Queria... não ter de bater nas rochas da indiferença e do descrédito para não ver a espuma da minha própria destruição.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Repetição

A gente sonha, acredita, desilude-se. Desiste. O Tempo passa e a gente sonha, acredita, desilude-se. Desiste. O Tempo passa e a gente sonha, acredita desilude-se. Sendo eu a gente, fico a pensar se sou masoquista, se esquecida, se louca mesmo... Por mais que os meus alunos me desiludam, com desistências sem justificação, continuo a sonhar com projectos que lhes permitam crescer!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Alma Perdida

De vez em quando, talvez quando os problemas crescem e as preocupações se avolumam, vem-me à memória a história do indígena que se sentou à espera da alma que perdera nas pressas impostas. 
Também me apetece sentar-me e ficar muito quietinha, em silêncio, esperando a minha alma que anda a monte. Não sei onde foi, não sei o que fizeram com ela, não sei se a esqueci nalguma paragem inoportuna da minha existência. 
Achando sempre que ela era incómoda, que chegava a carregar-se excessivamente de negruras, agora sinto-lhe a falta que se corporiza no vazio imenso que me molha o olhar. 
Se, por acaso, a minha alma não voltar, que serei eu mais do que, como dizia Pessoa "cadáver adiado que procria"?

segunda-feira, 24 de março de 2014

Aprendizagens

Assim como há aprendizagens há, creio, desaprendizagens. As primeiras acontecem quando há sentido, Verdade, construção e justiça; as segundas ocorrem quase sempre... quando os alunos esbarram com uma realidade torpe onde os adultos mostram a falsidade de uma sociedade oca, hipócrita e feita de jogos de interesse. Quando esbarro com desaprendizagens, irrito-me, protesto, desespero. Mas depois, no silêncio calmo do meu pensar, reconheço que é bom que as desaprendizagens ocorram. Afinal, é neste mundo cão, sem ofensa para os cães de que tanto gosto, que os jovens vão viver...O branco e o preto são, apenas, duas faces de uma só realidade que, só para complicar, pode incluir também todas as cores do arco-íris. Porque, verdade mesmo, o mundo não é colorido, é colorível, e cabe a cada um escolher as cores com que quer pintá-lo!

sábado, 22 de março de 2014

POR FAVOR!

Peço com jeitinho. Por favor, puxa uma cadeira e senta-te aqui comigo. Ajuda-me a escrever a lista das decisões, vê comigo as paredes que pedem limpeza, repara nas flores brancas que enchem a cerejeira que, milagrosamente, escapou ao ataque assassino dos vizinhos. Por favor, dá-me a mão, sorri e diz que sim. Diz que faz sentido, que vale a pena, que amanhã é já daqui a bocadinho e o sol vai voltar a nascer. Vá, não saias daqui. Ouve comigo o riso dos netos, ajuda a tratar dos patos amarelos que, de certeza, os miúdos vão querer comprar. Vem comigo preparar a Páscoa, vamos juntos à missa, sorri a cada beijo de boa noite. Por favor, peço com muita educação, não digas que é impossível, não afastes a minha fé no agora. Estou a pedir com jeitinho. 
Peço-te, Fé, que fiques comigo. A cada amanhecer, a cada anoitecer também. Por favor...

sexta-feira, 21 de março de 2014

21 de Março

Hoje, é um dia mesmo especial: - Dia da árvore, Dia da Primavera, Dia da Poesia, Dia do aniversário da minha querida sobrinha Leonor. 
Dia que o meu calendário de emoções marca com cores muito fortes. 
Árvores. As minhas, as do meu quintal, a minha nogueira que embala melros e rouxinóis, que esconde o cuco e acolhe o pica pau. As árvores da minha companhia, presenças constantes no meu horizonte.
Primavera. Uma nova hipótese, um recomeço anunciado. A hipótese de não ser a vida apenas condenação.
Poesia. A Vida! Os meus poetas sempre presentes, as frases que me fazem ser quem sou, os pensares que me permitem existir e SER para além do óbvio. Sophia e Pessoa sempre. A música que as palavras tornam mais verdadeira, a capacidade de sentir outras Presenças no silêncio das palavras gostosas que leio repetidamente.
Dia de aniversário da Leonor. A minha sobrinha de olhos negros, intensos, mágicos e profndos. A ternura dos afectos que são eternos. 
Dia 21 de Março. Um Dia mesmo especial!