terça-feira, 22 de abril de 2014

A VIA SACRA

Eram quase onze da noite quando a banda começou a ouvir-se. Curiosa, aproximei-me da janela e olhei o largo. Ali mesmo à porta era a estação X "Jesus é despojado das suas vestes" podia ler-se na cruz que marcava o lugar. A banda anunciava a via sacra, acompanhava as mil velas, os passos arrastados e silenciosos da multidão, a voz do padre que o microfone roufenho fazia mais terrível ainda. Tudo parou e, no silêncio, surgiu o discurso "pedagógico" do vigário: " A Jesus arrancaram-lhe as vestes mas, este ano, os bombeiros do Seixal fotografaram os corpos nus, sensuais, para venderem. Uma vergonha! Bem fez a Cáritas que recusou o dinheiro vindo de um acto destes! Eu, sobretudo no Verão,quando caso as raparigas, tenho muitas vezes vontade de as mandar a casa vestirem-se antes de entrarem na casa do senhor! Pai Nosso..." E seguiu a procissão para a estação XI. Voltei a fechar a janela com vontade de rir e de chorar. Teve graça, tenho de confessar. Mas, ao mesmo tempo, é dolorosa a forma desajustada de alguns discursos da minha Igreja. 

O senhor padre falava com ódio na voz e eu precisava, e preciso, de ver reinventar o amor e não apregoar o ódio.
Não quero crer que a nossa vida seja uma via sacra. Acredito que Deus, que é Pai,  quer que sejamos felizes e, por isso também, entristeceu-me o discurso que considerei ridículo do senhor padre...

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A CASA

Era sempre assim. Ela chegava primeiro, sozinha, para arranjar a casa; eles vinham depois, enchendo tudo de vida, de netos, de agitação e palavras. Aquela casa, ali, no alto de Moledo, com o mar aos pés, era o seu refúgio. Para ali viera quando o casamento ruíra, de repente, sem que ela tivesse percebido que tudo se estava a desmoronar. Por aquela casa brigara, impusera a vontade, exigira ficar com o espaço que criara a dois e, agora, era singular. Dali via o rio, o seu rio Minho, abraçar o mar e nele morrer. Talvez ela também morresse assim, mergulhando na imensidão. Olhou o longe. Como gostava daquele horizonte, daquela possibilidade de olhar por cima das copas das árvores, do cheiro da sua casa vidrada e cheia de ausências sempre presentes. Uma buzina assustou-a. Chegava a vida que, não sendo a sua, lhe dava cor à existência. 

domingo, 20 de abril de 2014

Ponte de Lima

Ponte de Lima é, dizem os limianos, a vila mais antiga de Portugal. Não sei se é verdade, mas sei, de certeza, que é uma Vila linda e acolhedora, cheia de gente simpática, de casas de pedra, de referências à História de Portugal. Em Ponte de Lima passeia-se com gosto, respira-se ar puro e lava-se a alma. Estranhei a religiosidade daquelas gentes, a forma como participam nas cerimónias da Páscoa e o entusiasmo com que assistem ao julgamento de Judas. Este julgamento surpreendeu-me! Ali, impresso em duas folhas A4, surgem caricaturados os acontecimentos mais relevantes da vida da comunidade. E toda a gente lê com atenção, toda a gente sorri e, quero crer, os visados aceitam com a calma possível as críticas por vezes ferozes...

O MINHO

Dizem, ou li algures?, que sair de casa, mudar de ambiente e cenário, é dos melhores remédios para a alma. Posso provar a verdade do aforismo. Estou longe do meu Alentejo amado, neste Minho exuberante, num espaço onde o verde abunda, a água corre solta e as pessoas falam um português apressado, bem diferente do arrastar de sílabas da minha zona. Atravessei o país vendo com olhos de ver, olhando o exterior para não ter de encarar os destroços interiores, e gostei da força do mar na Costa Nova, das cores do Douro ao atravessar o Porto, das pedras graníticas que fazem esta terra de Ponte de Lima. 
Já passei Páscoas fora de Portalegre, em Lisboa, no Algarve também, mas é a primeira vez que estou tão longe, teclando com calma para não acordar a minha neta pequenina. É bom estar longe. É bom poder olhar o mundo e acreditar que a vida é muito mais do que desinteresse, distância e abandono. Aqui, neste espaço que me é estranho, não perco tempo a procurar-me, limito-me a existir e a espantar-me, ah o dom do espanto!, com a força de uma Natureza impressionante e avassaladora!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

AMO-TE

Há muitas formas de dizer amo-te. Muitas formas de garantir amor. Mas nem sempre sabemos, ou somos capazes, de fazer valer esse amor dito, transformando-o em amor vivido.
Temos medo de dizer que sim, que amamos e queremos viver ao lado dos que amamos. Então, damos desculpas, inventamos, ou escolhemos, outras prioridades e, aos poucos, vamos-nos esquecendo do tal amor dito, não vivido. Vamos adiando, afastando, condenando, julgando, exigindo sem dar e, de repente, o amor dito já não existe. Foi-se. Esgotou-se nos adiamentos, nas distâncias, nos desinteresses, no gelo que colocamos a queimar a ternura e a cumplicidade que fazem o amor dito. São coisas esquisitas de homens e mulheres, da existência estranha que faz o quotidiano, talvez.
Um dia, vai ficar tudo negro. Chegará o fim e, então, de nada servirão os habituais lamentos sobre o que erramos na vida.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Perfume

O alecrim cresceu solto e livre, transbordou do canteiro e perfuma abundantemente o cabrito que já temperei. Nas minhas mãos ficou o cheiro intenso, e eu penso que talvez ele perfume o vazio que a vida vai deixando nos meus dedos. As coisas, muitas e diversas, vão acontecendo, os tempos vão-se esgotando, as desistências sucedem-se, a vida impõe-se. Pouco fica, para além das memórias que, também elas, doem às vezes de mais, das saudades muito gordas a ocuparem uma imensidão de espaço.
O silêncio é muito, o calor excessivo, a minha Páscoa fere que se farta!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Os meus Velhos

Estes três velhos existem, desde que eu tenho memória, na casa dos meus pais. São uma peça com valor apenas afectivo, mas acompanhou-me sempre e gosto muito dela. Quando era criança, lembro-me de imaginar que os velhos falavam da nossa vida. Eles viam tudo, ouviam tudo e, depois, teciam as suas considerações sobre as nossas rotinas. Connosco partilhavam, achava eu, alegrias e tristezas. Cheguei a pedir-lhes que intercedessem junto da minha mãe para me deixar fazer algumas coisas não permitidas, mas nunca me ouviram e eu, então, atribuía o seu silêncio ao facto de serem velhos e, por isso, não compreenderem as minhas razões. 
Agora, olho-os e imagino sobre o que falarão ainda. Da política manhosa? Das diabruras dos meus netos? Do meu silêncio vazio? 
Ou será que os velhos, que hoje me fazem companhia iludindo a solidão, só conversam sobre literatura? Fico olhando e revendo momentos, imaginando amanhãs, pedindo-lhes que povoem o meu presente vazio. Calam-se, mas sorriem. São boa companhia, os meus velhos.Não exigem nada, não criticam, não insultam, não julgam. Os meus velhos existem só para mim e, se calhar e eu tiver sorte, um dia vão descer do banco e sentar-se a meu lado no sofá.