domingo, 11 de maio de 2014

Outra vez

É outra vez domingo. Está calor, para mim excessivo, e a vida continua balofa de desilusões. O sol volta sempre a nascer, garantia o meu Pai, e com razão. Mas, agora, parece-me que o sol já não nasce com a força que caracteriza o verbo nascer, cheio de força para rasgar barreiras, iluminar novidades e ganhar futuro. Hoje, agora, sinto que o sol apenas aparece, cansado também, escaldante e exagerado. 
É outra vez domingo. E os outra vez repetem-se, intermináveis e sem originalidade, no fazer da vida dura que sangra. Para mim, claro!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Certeza Absoluta

Lancei o desafio, que é semanal, aos meus alunos: - Redigir um texto argumentativo partindo da frase "E tenho a certeza absoluta!". Para conforto e tranquilidade minhas, muitos, quase todos, referiram o pleonasmo e partiram dele mesmo. Falaram-me do futuro, da importância das dúvidas, da fragilidade das certezas (ainda que absolutas). Alguns, claro, disseram aquilo que pensam que eu quero ler, afinal isso também é uma competência social... mas muitos foram reflexivos e, porque são miúdos de 8º ano, porque têm 13 e 14 anos, foram sinceros. 
Depois de ler os textos, fiquei a pensar também nas minhas certezas. Absoluta mesmo, a certeza de um dia encontrar a paz da morte escura. Viva ainda, as incertezas são muitas... Duvido do amor, da amizade até, do nascer do sol, da força do mar. Desfiando dúvidas, vou construindo certezas negativas. E tenho medo! Não era esta a vida que imaginava, o quotidiano que previa quando, há tempos, tinha a certeza do futuro...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Mar... Saudade!

Na noite comprida, quente e vazia, a poesia de Sophia e a voz de Maria Bethânea fazem-me companhia!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

7 de Maio

O branco gelado do Hospital de Santa Maria fazia-me sentir desprotegida, sozinha e assustada. No coração e na cabeça levava a minha filha mais velha, ainda só com dois anos, e uma grande aflição com aquela vida nova que carregava dentro de mim. Tudo parecia correr mal, uma pré-eclampsia acelerara tudo, não conseguia desligar-me do olhar assustado da mais velha dizendo adeus nos braços de uma amiga. Voltaria a vê-la? Nunca vou esquecer a desumanização do Santa Maria, os gestos mecânicos, profissionais, sem um olhar, sem uma palavra. Já na mesa de operações, gelada, ouvi dizer que tinha morrido Mota Pinto.
Foi assim que, há 29 anos, nasceu a minha filha Joana. Hoje, vejo-a mulher, mãe também, e penso como é possível que o Tempo voe mais rapidamente que a minha memória.
7 de Maio foi sempre uma data cheia de acontecimentos! E lembro ainda uma correria louca pelas ruas do Porto, procurando uma Barbie doutora e fugindo de uma formação que nunca mais terminava para vir passar a tarde com a minha menina! A vida foi-se cumprindo, ora com insignificâncias, ora com importâncias, e de novo passo o dia longe da minha menina-mulher. Ser Mãe também é isto, acho eu. Esta capacidade de eternizar momentos e, assim, agasalhar um pouco o frio da emoção!
Parabéns Joana!

domingo, 4 de maio de 2014

Dia da Mãe

Minha Nossa Senhora, Mãe das  mães

É o nosso dia hoje! Uma vez no ano, juntamo-nos numa data que, sendo Tua, é minha também. Quando era miúda, naquela idade em que, na escola, se fala da Mãe perfeita e se preparam os presentes, fazia-me confusão ver-te chorar sempre. Porque choravas, pensava, se eras Mãe e o Teu filho era perfeito? Hoje, mãe e avó, compreendo que as lágrimas no teu rosto corriam por todos, se todos somos Teus filhos. Ser Mãe é isso, não achas? Um misto de alegria total, com preocupação constante e compreensão eterna. Hoje, as tuas lágrimas são minhas também quando, vendo lá em baixo, ao longe, a tua imagem sobre o Seminário da minha cidade, recordo as minhas filhas ausentes, os meus netos abraçando as mães num espaço que já não é meu. Ser Mãe é difícil, Tu o saberás melhor que ninguém!
Já adulta, velhota mesmo, continuo sem poder avaliar o tamanho do teu sofrimento vendo o teu filho morrer. 
Mãe, é a ti que, hoje, peço força, coragem e sabedoria. Ajuda-me, aí de longe, a continuar suportando distâncias, consolando-me com a montanha de vivências felizes que constroem o meu património de afectos. Dai-me sabedoria para ignorar as mágoas, as agressões frequentes, as violências quotidianas. 
Senhora Mãe, sei que a solidão não existe porque Tu estás por aqui, porque guardo em mim os sorrisos das minhas filhas e netos. Minha Nossa Senhora Mãe, obrigada, hoje, pela Paz da Serra, pelo azul do céu, pelo verde e amarelo que tecem o meu horizonte, pela tranquilidade dos meus sentires. 

sábado, 3 de maio de 2014

A alça

O meu destino era a capelinha do Senhor Jesus dos Aflitos (mesmo a fazer-me falta), quando parei para meter gasóleo. À minha frente, um casal jovem, daqueles cheios de saúde dentro dos fatos de corrida modernos e brilhantes, ténis a condizer, garrafa de água na mão e telemóvel à cintura. Pensava eu que muito teriam de me pagar para andar assim na rua quando, de repente e assustadoramente, os meus olhos pousaram nos ombros da rapariga/mulher. A par com as alças do Top, vermelho, lá estavam as alças do soutien, pretas. 
Paguei o gasóleo, cada vez mais  caro, e saí a pensar que este mundo me fica cada vez mais distante. É que eu acho horrível verem-se as alças do soutien, como acho pavoroso ver as cuecas (perdão: boxers) de alguns rapazes! Não acho piada nenhuma andar na rua a mostrar as intimidades, e não devo ser a única porque há soutiens que prendem no pescoço, e que até nem têm alças, exactamente para que não se veja aquele pormenor desnecessário!
Claro que cada um mostra o que quer, mas claro, também, que cada um pensa o que quer! E, decididamente, eu penso que é de um mau gosto atroz mostrar as alças do soutien! 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

SOL TOTAL

Na velha casa, as sombras antigas sorriram. As pedras gastas, as mesas de granito, viram chegar gente amiga e, de novo, a vida a cumprir-se com sentido. Na fonte, onde a água corre abundante, há já uma terceira geração que se molha, feliz, a estrear o Verão. Vejo o Sol Total na minha Serra e pergunto porque não chega para iluminar a escuridão dos meus sentires... Respiro a alegria alheia, converso e, quando abraço a minha neta pequenina, oiço o coração falar. Peço-lhe que se cale: - Agora não, por favor! Agora, é tempo de Sol Total!