terça-feira, 9 de setembro de 2014

GUERRAS INSEGURAS E DE COSTAS

Não sou do PS. Não sou de esquerda, embora ache, às vezes, alguma piada a teorias por essa área apresentadas. No entanto, como sou pessoa, e como tenho o azar de viver em Portugal, tenho esbarrado com as guerras do PS nacional: - Seguro (porventura um dos mais inseguros que tenho visto), contra Costa. A maioria dos socialistas que conheço defende Costa. É um político mais experiente, dizem, e eu fico pensando o que quererá isso dizer... Gostam mais dele, é mais adulto, tem o apoio dos mais velhos, qual na Grécia Antiga os senadores têm peso, é mais consistente. 
Eu até concordo. 
Embora de fora, vejo o Tó Zé como um seminarista em férias, sem consistência e sem norte. Mas tenho pena dele, coitado. O homenzinho até ja perdeu a voz.. E deve ser duro ser maltratado por quase todos, ele que serviu o Partido no momento em que ninguém queria dar a cara. 
O Dr. Costa, que se manteve planando por cima, desceu agora, quando achou que o terreno era seguro e a presa era fácil. Desceu dos céus em voo picado e aí está, sorridente e feliz, cheio de si mesmo, propondo já confrontar-se com Rui Rio. Eu pasmo! O que tem de facto António Costa que justifique tanta confiança e entusiasmo? Olho com surpresa este frenesim em torno do PS e, no silêncio meu, desejo que empatem e que continuem a guerrear-se para que o país continue a ter algo que o faça distrair-se da realidade...

domingo, 7 de setembro de 2014

PERDÃO

Gosto de ir à missa, nos domingos. Gosto do tempo de reflexão, de alguma paz, de luz filtrada. Hoje, falava-se de perdão. Da necessidade de sabermos desculpar, de não julgarmos, de aceitarmos a diferença e a singularidade também. Ouvia, no banco da minha Sé de Portalegre, e pensava no quão longe estou da realização do perdão. Queria ser capaz de perdoar também, de eliminar os pequenos ódios, de aceitar e compreender as diferenças. Mas também queria poder ser perdoada e compreendida. Tenho tanto porque pedir perdão, tenho tanta incompreensão a pedir compreensão!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O 1º DIA

Bem cedo, no país distante, o meu neto vestiu o uniforme e fez-se à escola. É uma nova fase, determinante, que agora começa e, para mim avó, é cedo demais... O meu neto mais crescido só tem 4 anos, é um quase-bebé, e vai começar a aprender a ler, a conhecer o fascínio de saber e de compreender, a desenvolver as necessárias competências para viver em sociedade. O meu Manuel Bernardo vai deixar o colo da mãe, a quentura do ninho, e vai iniciar o voo que, desejo eu, o levará a altos céus! Hoje, bem cedo, imaginei o meu menino (será sempre o meu menino) a entrar na nova etapa da vida. Sei que crescer dói mas, hoje, desejo que doa mais aos pais e aos avós do que ao meu menino. 
A preparar o meu ano lectivo, sonhando actividades capazes de encantar os meus meninos crescidos, penso ainda no meu neto. Sei que em Inglaterra tudo é diferente, que se valoriza o ensino colaborativo, que se trabalha por objectivos e perfis de desempenho, que há turmas por nível de competência. Aqui, neste Portugal cinzento, ainda se segue o modelo da escola do século XIX embora estejamos no século XXI... Enfim, sorte tem o Manuel Bernardo... 
Hoje, é nele que penso. Estava lindo no seu uniforme escolar, com os caracóis loiros e o olhar escuro carregado de curiosidade!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

SETEMBRO

Chegou ao fim o intervalo na realidade. Terminou o tempo longe da rotina, ignorando problemas, olhando estupidamente a aparente calma como se fosse realidade. Por alguma razão se chama a esta época "silly season"...Setembro, apesar de ter chegado quente demais para o meu gosto, lança sempre um balde água gelada (sem direito a donativos) na minha vontade de viver. O meu coração, embora eu o ache enorme, está partido em pedaços e, ao contrário do do Poeta, não foi a criada descuidada que o deixou cair pela escada abaixo. Cada partida de seres importantes levou um pedaço de mim e, agora, só me restou um farrapito para encarar a vida possível. 
Setembro devolveu-me os medos apavorados do amanhã, o susto do futuro negro, a solidão do amanhecer. Agora, com o vento quente a soprar lá fora, com o corpo da cor castanha do bem-estar que já não é, começo a desejar a chegada do Natal...

terça-feira, 19 de agosto de 2014

INSIGNIFICÂNCIAS

Correndo o risco de repetir banalidades, apetece-me destacar, hoje e agora, o fascínio das pequenas coisas. O encantamento das insignificâncias que, normalmente, desvalorizamos por, exactamente, serem insignificantes (O pleonasmo é intencional). Creio que a idade, e a vida, me têm ensinado a cada vez mais, desfrutar do silêncio, da paz dentro de mim, das ninharias que tornam o meu quotidiano mais significativo. Para quê ódio, brigas e maledicências se, um dia, que é sempre breve demais, tudo se desfaz em nada? Se, afinal, o fim é o mesmo para todos? Ricardo Reis que a inveja provoca movimento excessivo aos olhos, e eu acho que o ódio, a má língua, a crítica cruel e feroz, provocam movimento desnecessário à alma. Quero aprender a valorizar cada amanhecer, cada palavra suave, cada abraço cúmplice, cada mergulho na água fresca. A vida, a exterior, passa...

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LEMBRANDO UMA AMIGA

Não tenho a pretensão de gostar de toda a gente. Aliás, eu assumo que há pessoas de quem não gosto e sobre quem não perco tempo a pensar. Mas há, também e felizmente, muita gente de quem gosto muito. Gente que cresceu comigo, que caminhou na vida perto de mim, que conheci por diversos motivos. Há pessoas que me são especiais e não são, apenas, as minhas filhas e netos, os meus maiores amigos, aqueles que me marcam e, de alguma forma, definem. 
Hoje, há pouco, perdi uma dessas pessoas. A Luísa Mourato era da minha idade e morreu, depois de um ano de intenso sofrimento, vítima de um cancro voraz. Estava a ler "O Grande Conspirador", gozando no silêncio da minha Serra os últimos dias de férias, quando a notícia surgiu. 
Lembro a Luísa. Lembro-a na minha turma, como eu fraca aluna a matemática, lembro-a nas aulas da minha mãe, a tentar dar nomes à imensidão de orações e ques que Camões inventou sem querer. Eramos os números 16 e 17, os nossos pais eram médicos e trabalhavam juntos no Sanatório, íamos às festas de anos uma da outra. Depois, a vida separou-nos: Eu fui para Lisboa, ela para Coimbra. Não havia Facebook, afastámo-nos. Mas, sempre que nos reencontrávamos, a velha amizade voltava. A Luísa deu explicações de Filosofia à minha filha e não deixou nunca que lhe pagasse (isso não é coisa de amigas, dizia). A minha filha diz sempre que ela era a melhor professora de mundo, e eu acredito. A Luísa conversava e ensinava, gostava de jovens e sabia chegar a eles. Às vezes, no cabeleireiro, riamos juntas das nossas vidas, do facto de já termos passado os 50 anos, da necessidade de sermos felizes! A Luísa adorava meias, e eu brincava com ela por vê-la usar peúgas com bonecos e flores. A Luísa via as fotografias dos meus netos e achava-os lindos!
Agora, a Luísa partiu. Sei que há momentos em que as palavras perdem o valor, o sentido, mas quero acreditar que, lá onde estiver, ela há-de rir-se deste meu post. Um dia, quero muito acreditar, voltaremos a encontrar-nos. Até lá, fiquei mais sozinha na vida. 

sábado, 9 de agosto de 2014

PORTUGAL DOIS

É comum e frequente ouvir falar em assimetrias, na existência de um Portugal esquecido, na injustiça que preside à distribuição da riqueza. Normalmente, quando oiço dissertações sobre este assunto, penso no meu Alentejo, no isolamento de muitas populações, na carência de quase tudo. A meus olhos surge, invariavelmente, a planície amarela e seca, polvilhada de Montes românticos onde habita a solidão.
No entanto, depois de uma vivência familiar no Minho, percebi que as assimetrias não têm a ver apenas com o Alentejo. O Minho, uma das províncias mais belas de Portugal (se eu não amasse o Alentejo diria que é a mais bela), sofre também com as sucessivas políticas de centralidade no litoral. Ponte de Lima, a mais antiga vila portuguesa, Ponte da Barca, de águas límpidas e gentes simpáticas, Arcos de Valdevez, um lugar mágico e terno, vivem com o flagelo do desemprego e abandono. Vi, claramente visto!, fábricas fechadas, homens com rostos sulcados de desalento, crianças portuguesas pedindo esmola à porta dos hipermercados. Espantei-me com o número exagerado de emigrantes, gritando numa língua cheia de misturas, estacionando em segunda fila ruidosamente, desejosos de matar saudades, de encher a alma da terra que é a deles.
Para além da mágoa, experimento uma sensação de revolta enorme. Como é possível que os nossos governantes, independentemente da cor política, continuem centrados em belos discursos, em parangonas ocas, esquecendo os portugueses que fazem o país verdadeiro? Numa lavandaria, um jovem empresário dizia-me que a mulher, licenciada em jornalismo, passava roupa e ele, licenciado em marketing, geria a lavandaria. Contou-me do sonho impossível de terem filhos, do esforço imenso para sobreviverem. Este país que ignora os jovens, que se faz de diferenças, que não tem um projecto para crescer humanamente, revolta-me e incomoda-me. Até quando? Como fazer para mudar? Romanticamente acredito que teremos de nos unir, de fazer ouvir a nossa voz; mas, realisticamente, sei que o silêncio e o vazio estão para durar...