sexta-feira, 21 de novembro de 2014

OUTRA VEZ

Eu já tinha decidido arrumar os meus sentires no fundo da gaveta dos papéis por organizar. Tinha decidido esquecer os afectos exagerados, deixar de sonhar e ambicionar a tal felicidade utópica, deixar de acreditar em promessas de cumplicidade e plenitude. Mas, como sou burra (sem ofensa para os animais de que tanto gosto), voltei a cair no erro de sonhar, de gostar, de acreditar que sim, que podia ser possível... BURRA!!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

TERMINAL 2

Muitas vezes, muitas mais do que as que gostaria, viajo partindo do Terminal 2 do aeroporto da Portela. Sempre que lá chego, normalmente em companhia de mim mesma, penso que chamar aquela garagem grande Terminal é muito boa vontade ... Ali não há conforto, não há um espaço agradável onde esperar, não há um restaurante de qualidade, não há, sequer, uma casa de banho limpa e decente. Eu vejo tudo isto e lamento a falta de qualidade do Terminal 2 que, no fundo, revela o pouco (ou nenhum) respeito que existe pelas pessoas, cidadãos comuns, que não podem pagar os voos das grandes companhias e optam, por isso, pelo lowcost. Sou cliente assídua da Easy Jet e nunca me senti mal por isso. 
Só que, no passado dia 13, o incrível aconteceu! A convite do MPT, do eurodeputado José Inácio Faria, viajei para Bruxelas com vinte e quatro alunos. O voo, low cost, era da RYANAIR. Ora, o low cost tornou-se tão-tão low que o voo, previsto para as 9,40h, partiu de Lisboa às 15,00h. E o que pode fazer um grupo de jovens e de professores fechado numa garagem durante nove horas? Sim, porque, com medo de eventualidades, partimos de Portalegre às três da manhã e entramos no Terminal 2 às seis... Nada, se não aborrecer-se, comer hamburgueres e desesperar! Porque, no dito Terminal 2, NADA existe que possa ajudar a passar o tempo!
Bom, eu não estou a lamentar-me, porque eu ia já amanhã outra vez, se pudesse. O que me indigna é a falta de qualidade de um espaço que serve, por dia, centenas de pessoas. Será que quem visitar Portugal, se usar o Terminal 2, está isento das tais taxas e taxinhas?? É o mínimo que se pode esperar...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SUGESTÃO

Sugiro:

letrasetretas9a.blogspot.com

É uma ousadia...

Vou morrer em paz. Um dia...

Quem escreve, sempre se expõe. É impossível, acho eu que gosto muito de achar, despirmos-nos completamente de quem somos quando damos forma de letra a pensamentos e emoções. O que se pode questionar, e continuo a ser eu a achar, é se essa exposição, ou entrega ao olhar alheio, deve ser objecto de vergonha, ou até de crítica. 
Ora bem, eu, que acredito em Deus (para além de todas as religiões, lembrando Régio), acho que o Criador se enganou quando nos fez olhando para fora. Ou seja, Ele construiu-nos do avesso, fazendo-nos olhar os outros, e o que nos rodeia, muito mais vezes do que as oportunidades de nos olharmos a nós mesmos. Assim, e só assim, eu compreendo que haja quem tanto se indigne, e proteste, quando eu escancaro a porta dos sentires e deixo correr as emoções. Acontece que, e juro que não sei porquê, às vezes sinto uma necessidade imensa, uma coisa-vontade-quase-física, de escrever. De dar forma às angústias, aos sentires e aos pensares. Não tenho a pretensão de influenciar ninguém, não quero convencer o outro, ou os outros, de coisa nenhuma, mas dá-me um formigueiro na ponta dos dedos e, quando levanto o olhar, o meu coração dos sentires está esparramado no ecrã. (O outro coração, o que os cardiologistas conhecem, continua na caixinha, batendo, até que.) 
E hoje, agora, com mil coisas para preparar para a pos-graduação que estou a concluir, com a mala para fazer (vou às três da manhã - daqui a bocadinho) para Bruxelas com os meus alunos, vim escrever! E vim escrever, exactamente, a certeza que tenho que o mundo está a entrar em rota de colisão com a emoção e, em breve, tudo vai estoirar e vai chegar o novo Homem! Esse, ao contrário do que todos pensam, vai ser feito de emoções, de compreensão e de humanidade. Vai valorizar a individualidade, vai criar um mundo inclusivo de facto e vai-me ver morrer em paz e sem angústias...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Só Porque Está Frio


Muitas vezes tenho pesadelos. Hoje, tive sonho:
"O  cheiro forte dos churros, das tostadas e do café forte, acordaram-na no espaço diferente. Fxou, primeiro, o tecto de madeira escura e, em seguida, deixou o olhar mergulhar na imensidão de branco que  a pequena janela lhe oferecia. Saudou em silêncio a pausa na vida que, subitamente, podia gozar.
Tinha cinco dias para viver, para ser mais do que existência em cumprimento, para transgredir e fazer do sonho o real. Há alguns anos que não via a neve, e como a desejava Deus meu. Agora, era tempo de escolher as cores fortes, de se deixar afagar pelo frio cortante e de descer, tranquila e seguramente, as pistas feitas de neve fofa e paisagens intensas.
Saltou da cama, gozou com volúpia o banho quente e partilhou o pequeno-almoço, ali desayuno, falando de afectos, cruzando olhares e desfiando sentires. Depois, num instante, a chegada ao cimo da montanha e as descidas a sucederem-se. As subidas para repor o creme protector e forte, as descidas para sentir o prazer do quase voo, a liberdade de deslizar marcando, com o batôn seguro, o lugar de cada curva .  A meio da manhã, o café. A paragem, as gargalhadas verdadeiras, simples, a desnecessidade de temer o medo. Eram só os dois, pr cinco dias, com  a neve, o frio, o toque prometedor, a partilha cúmplice do lenço, da caneca, do chocolate negro.

Mas o dia a esgotar-se. O céu a pintar-se de rosa e a chegada ao Hotel, cansada agora, a oferecer o abraço total, a cumplicidade efectiva. À noite, com a pista do Rio bem iluminada, puxou o capuz até aos olhos, e foi tempo de, com a quentura protetora do abraço, caminhar pela praça de gelo e madeira. Tarde já, depois da bebida forte junto à lareira forte,  a cama branca, o édredon leve e o abraço único. Total. Encerrando em si tudo o que a totalidade garante."

domingo, 2 de novembro de 2014

Os Santinhos

Com o Halloween a invadir o país, nesta consequência directa de sermos um povo permeável e colonizável, desapareceu o hábito dos santinhos. Morreu, ou agonizou, o tradicional pão por Deus. 
Eu nunca pedi os santinhos. Fui sempre um bicho estranho, cosida no meu silêncio, incapaz de bater a portas desconhecidas, ou mesmo conhecidas, para pedir fosse o que fosse. Mas lembro-me de ver pedir os santinhos, lembro-me de os dar, lembro-me de deixar as minhas filhas irem pedir à casa dos vizinhos de onde voltavam, invariavelmente, com uma flor feita de pão pela tia Zélia, ou com um livrinho por ela oferecido. Gostava dos santinhos. A Serra enchia-se de miúdos, à porta era um não parar de gente, e ainda sinto vivo o cheiro dos sacos de serapilheira que todos tentavam carregar. Já adulta, gostava de me preparar para dar santinhos. Ia aos rebuçados, fazia broas de mel, comprava chocolates e chamava as minhas filhas para que aprendessem, também, a dar a quem nos batia à porta. 
Este ano, ninguém me pediu os santinhos e eu não fiz broas. Este ano, vi as bruxas e os zombies, os fantasmas e os vampiros, e comi uma empada, num instante, numa área de serviço sem identidade. Quero fugir ao saudosismo, afinal a vida faz-se de mudança, mas não resisto a achar que estamos a perder, depressa demais, aquilo que nos faz pessoas: - a nossa identidade! Hoje, estamos todos excessivamente iguais, num mundo excessivamente plastificado, com modelos excessivamente vazios. Acho eu...

AFECTOS


Ao lado do vestido que aguarda ser estreado em viagens sucessivas, (a ocasião não chega nunca), dobrou as saudades antecipadas, os estilhaços de memórias já construídas e prontas  a desfiar e trancou a mala. Depois, aproveitando o sono infantil, ao menos que às crianças não se imponha a dor do adeus, fez-se à estrada. Sob chuva intensa, com os números da temperatura a descerem vertiginosamente, sorria sozinha sentindo falta de limpa pára-brisas interiores. É que as lágrimas insistiam em fazer despique com a chuva forte... O Minho, verde mesmo, envolto num cobertor cinzento de nuvens fofas, dizia-lhe adeus, ou até breve, ladeando a língua negra onde ia devorando quilómetros. 
Num instante, a rapidez da existência, a travessia do Porto,o choque com o gigantesco estádio do dragão, o Dolce Vita com multidões devoradoras de domingos consumistas a ofuscar a vista fantástica do Douro. Depois, sempre a língua negra, as ultrapassagens, o cuidado para  detectar polícias e radares. 

Por companhia, os afectos distantes. 
Amarrada na sua própria liberdade de ser sozinha, os atilhos da ternura, do amor aos seus, não servem de companhia visível, pára enfim, movida pela vontade portuguesa de café, pela necessidade de esticar as pernas também. E de novo a solidão a acolhe. É a única singular na moderna área de serviço. Há casais, há grupos, e há ela. Sozinha. Talvez, pensa, seja ela a mais acompanhada na solidão aparente. Porque carrega o abraço quente da neta, a voz doce dos netos longe, a ternura das filhas, a quentura da certeza de, algures,haver quem a ama de facto. Sem interesses, sem necessidades, sem abandonos. São os filhos, os netos, quem dá sentido à essência da sua vida que, na aparência, se faz de tanto adiamento e dor.