terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CALMA

Com a calma da tranquilidade face ao conhecimento do impossível, enroscou-se no sofá. Arrumou livros, papéis (incrível a quantidade de papéis que guardam agressões), ligou a música e ficou olhando o fogo. Gostava da lareira assim enorme, feita de fogo sonoro, de chama perfumada, transformado na presença feita companhia. Não fechou os olhos, ficou olhando o calor e vendo desfilar momentos, opções, desgostos, sonhos e mil utopias. Lá fora, o frio. Por vezes, o ladrar dos cães, uma buzinadela apressada e tardia. A presença dos outros confortavelmente ao longe.
Fixou as muitas fotografias que enchiam a sua sala, tantas amarelecidas pelo tempo, e lembrou infâncias. Veio Pessoa, sempre presente, ouviu os Sinos da Aldeia que nunca o foi, viu o soldado que,  no plaino abandonado que a morna brisa aquece, jaz morto e apodrece.
Também ela arrefece, e apodrece, ao ver esboroarem-se sonhos, ao confrontar-se com a desistência assumida. Como viveria sem a Poesia, sem a urgência das palavras, sem a magia de tecer sentidos quando o sentido não acontece?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Felicidade

Já muitas vezes, talvez demais, aqui falei de felicidade. No entanto, quando a vida se veste de cinzento, quando a tristeza diz presente, sinto que a felicidade traz cor e necessita ser chamada. 
É possível viver momentos de felicidade! Eu vivo-os quando os meus alunos me fazem sorrir, quando a verdade está presente, quando o carinho é quente, quando a noite tem luar, quando olho o que me rodeia e me sinto parte de algo!
Talvez pareça prosaico, ridículo até, falar de felicidade, mas eu acho, acho mesmo, que se falarmos muito nas coisas há mais probabilidades delas se concretizarem...

sábado, 10 de janeiro de 2015

SILÊNCIO

Acho que foi Churchill quem disse que é precisa muita coragem para falar, mas também é precisa muita coragem para ouvir. E hoje tenho-me lembrado muito desta frase, por causa dos horrores em Paris e por causa, também, da minha vidinha pessoal. Paris revolta-me, apavora-me, faz-me viver o pior dos  sentimentos: - O Medo! A minha vida fica insignificante e experimento uma enorme necessidade de paz e silêncio. Aterrada, eu que sou profissional da solidão, dediquei-me, consciente e voluntariamente, a ouvir o silêncio!
Depois de uma aventura no mundo da Saúde em Portugal, que me ocupou de angústia a tarde de sexta-feira, dediquei a mim mesma tempo de qualidade: - Sem telefones, sem ligar o computador, frente a uma boa lareira e na companhia de um bom livro. Fiz com mil cuidados uma salada de mozzarela, tomate e salmão, enchi uma taça com vinho suave e fresco e concluí que, na vida,  temos de saber ser às vezes a nossa própria prioridade... Concluí, também, que o silêncio da humanidade é uma óptima companhia.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

VIOLÊNCIA

Medo. É, talvez, o pior dos sentimentos. E é com o medo que a sociedade actual, na era das tecnologias e da modernidade, tem de aprender a viver. O que hoje aconteceu em Paris não tem classificação. 
Há duas palavras que me saltam: - bestialidade e maldade. Tenho medo. Medo físico, medo social, medo emocional. Que mundo é este onde se mata com a ligeireza com que se bebe um copo de água?! 
Eu acreditava na educação, costumava achar que se se educasse a sério, se se ensinassem Valores e comportamentos, se haveria de construir um mundo bom. Hoje, já não acredito em nada. Tenho MEDO! Um MEDO feito indignação, revolta, mágoa, incompreensão, raiva. Mas, MEDO...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

PARTILHA

Li hoje, numa daquelas revistas que não têm interesse nenhum e servem para acelerar o tempo no cabeleireiro, uma frase que retive: - Não se pode viver sem partilhar. Quem disse a frase foi a Catarina Furtado, a propósito do trabalho humanitário que desenvolve e que eu, sinceramente, não conheço em profundidade. Mas não foi o trabalho dela que me marcou, até porque disso pouco se falava na reportagem,  foi sim a frase que ficou a ecoar em mim. 
Cada vez mais acho que faz sentido a ideia de que não se vive isoladamente, que não é possível uma pessoa realizar-se humanamente, experimentar momentos de felicidade, sem partilhar com o outro. Com os outros. E, se é bonito falarmos de ajudar os desfavorecidos, não devia ser menos bonito falarmos da partilha com aqueles com quem vivemos rotinas e quotidianos. Talvez, acho eu, a partilha possibilite a vivência plena do Amor que, ao contrário do que cantou Camões, não quer "suas aras banhar em sangue humano", mas, sim, elevar a patamares superiores os Humanos que o são...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Deixem-me Rir

5 de janeiro. Regresso ao trabalho, à escola, à vida rotineira com tudo o que tal implica. E não me sai da cabeça a letra cantada pelo Jorge Palma - Deixem-me rir! -. Porque esbarrei com o pequeno poder buscando tirania, com a idiotice em bicos de pés, com o vazio a encher o absurdo que não devia ser a Escola.
Deixem-me rir, porque esta vida, infelizmente, é a minha...

sábado, 3 de janeiro de 2015

OPTIMISMO

Já é dia 3. Já passou a euforia, já subiu a gasolina, já aumentou tudo e a tristeza voltou à rotina. Sei lá porquê, provavelmente por nenhuma razão, hoje sinto uma enorme vontade de acreditar em impossíveis. A luz do dia, clara e intensa, o céu azul, o lume a arder com força, o cheiro do bolo inglês e do café, fazem-me ter vontade de ser optimista e de acreditar que, como diz o Papa Francisco, é melhor aproveitarmos o que temos do que lamentar o que não podemos ter...