sexta-feira, 26 de junho de 2015

UMA QUESTÃO DE WC??

Neste serão muito quente, uns amigos desafiaram-me para uma sangria ao fim do dia. Porque ando falha de ternura, ou só mesmo porque aos amigos não se diz que não, lá fui. A conversa correu fácil, saborosa, e a sangria ajudou. A dada altura, falando de livros, contei que ando a ler o último romance de Domingos Amaral, "Assim nasceu Portugal", e que estranho a linguagem que ele utiliza.  Com sentido de oportunidade e humor, mas também com muita verdade, um amigo afirmou ter concluído, há tempos, que a diferença maior que acontece ao longo da História é apenas em termos de WC... 
Ou seja, tanto no século XII, como no XVI, como no XXI, o poder vive de subornos, de contrapartidas, de jogos escuros, de troca de influências. As pessoas, no essencial, mantêm-se iguais, apenas tomando, agora, mais banhos do que no séc. XVI e usando a retrete em vez da rua. Ri-me e contestei mas, vendo bem as coisas, o meu amigo tinha razão: - A evolução da humanidade acontece na relação directa da evolução do WC...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

JIBOIANDO

Chegou exausta, com o calor sempre lhe acontecia assim, um cansaço potenciado, uma vontade de ficar jiboiando ignorando as exigências da vida. Vestiu o velho vestido branco, calçou os chinelos de horroroso conforto, pôs o chapéu de boas memórias e esticou-se na cadeira da piscina. Fechou os olhos para escapar à violência do sol, e deixou-se amolecer. Aos poucos, foi despertando para a vida em seu redor. Podia adivinhar a curiosidade da lagartixa verde, ali mesmo na base da roseira branca, ouvia distintamente o ressonar do cão, à sombra da velha ameixoeira, dormindo atento aos movimentos dela, conseguia captar excertos de conversas vazias na piscina próxima. Felizmente, pensou, tinha a sebe verde e grossa a salvaguardar-lhe a privacidade do fim de tarde. 
Quase adormecida, sentiu chegar um carrerinho de pensares de doer e, rapidamente, tirou o chapéu e entrou na água. Sorrindo, ficou a ver o vestido colar-se-lhe ao corpo sem conseguir deixar de desejar que o vestido fosse humano.

terça-feira, 23 de junho de 2015

NÃO DITOS

Ficou tanta coisa por dizer. Não te disse, vezes suficientes, como o teu cheiro me dá vida, como o toque da tua pele me acalma o desespero. Não te disse como é bom ver-te dormir, como sabe bem a minha perna na tua, como é bom quando, sentados à mesma mesa, partilhamos a refeição. Não te disse, tantas vezes como seria ncessário, que o teu silêncio me fere, que as tuas prioridades me dilaceram.
Acho que não te disse, também, que me fazem falta as caminhadas à beira-mar, os toques ousados na areia. Não te contei da compridura da solidão, da imensidão do ciúme.
Disse-te, apenas, Adeus. Agora, vou fazer dos não ditos um molho de lixo inútil!

VAZIOS

Gostava de se sentar ali, na amurada que gritava palavras de amor eterno em graffitis de gosto duvidoso, olhando o mar. 
No Inverno, gostava do abraço que as nuvens davam às ondas, no Verão divertia-se com os corpos desnudos, o cheiro dos cremes, os gritos das brincadeiras infantis. Para o seu poiso, farol térreo, trazia às vezes um livro, outras vezes nada. Bom, nada nunca acontecia porque quando a idade é redonda as memórias nunca descolam, as saudades não dão paz. Tanta vida vivida, tanto sonho por sonhar... E um vazio tão grande, tão imenso, que nem a grandeza do mar conseguia preencher!

domingo, 14 de junho de 2015

NECESSIDADE


Era Julho. Ou Junho ainda? Eu levava os exames para corrigir, sim, esses mesmos que a polícia transporta com mil seguranças e que nós, professores, levamos para onde queremos para corrigir. Tu levavas um livro, tinhamos combinado aproveitar a manhã para, junto ao mar, trabalhar um bocado. O silêncio, aquele mesmo cúmplice que conhecemos, pousava nas chávenas da bica . De repente, o vento soprou forte, ficou frio, e tu embrulhaste-me no teu casaco azul. Eu, como sempre descuidada, não tinha sequer levado casaco... 
O abraço que me deste era da cor do casaco, misturava-se com a maresia e fazia-me entrar na paz do céu. Ainda tens esse casaco? 
É que continuo a precisar de me aproximar do céu...

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dia de Portugal

Foi ontem o Dia de Portugal. Dia de lembrar a Poesia (acho que somos o único país que tem como Dia Nacional o Dia de um poeta), dia de pausa e de discursos. Não ouvi os discursos, infelizmente, outros valores mais altos de alevantaram... mas vi a lista dos nomeados, perdão, dos condecorados e tive pena. Pena que o meu país seja tão hipocritamente festejado; pena que a grandiosidade se tenha perdido; pena da pequenez das grandes figuras.
Este não é Portugal a entristecer. É Portugal entristecido...

domingo, 7 de junho de 2015

VIAGENS.

A viagem fora longa mas a conversa boa, no conforto do ar condicionado, tornara-a rápida e agradável. No caminho, entre sorrisos cúmplices, acontecera a pausa, a boa esplanada frente ao mar, as brincadeiras entre os dois a propósito da multidão de corpos nus a fazer iguais todas as diferenças. O peixe, acompanhado pelo vinho frisante gelado que ela sempre pedia, soubera-lhes divinamente e o tempero de cumplicidade efectiva tornara-o inesquecível.
Ali, naquele lugar de sonho, no exacto ponto onde toda realidade é possível, ela adormeceu a desilusão e o desespero dos erros acumulados. Porque, afinal, enquanto o sonho existe a vida não está perdida!