Estar em férias é muito bom, claro. Mas, às vezes, é também incómodo porque não temos desculpa para fugir ao encontro com nós mesmos, com aquele eu que mora em cada um de nós, que para o Pinóquio podia ser o grilo falante, mas para mim é mesmo a voz da Razão. Nestes dias de ausência de trabalho, sem ter de pensar em estratégias de sucesso, nem em aulas divertidas e interessantes (ainda acho que se aprende mais e melhor com prazer!), tenho tido muitas horas para gastar comigo. E, apesar de alguns desentendimentos dolorosos, nem sempre eu e o meu eu estamos de acordo, concluí algumas verdades: - Não adianta, por exemplo, querer manter alguém na nossa vida. Se esse alguém quiser ficar, vai saber como; não adianta, também, acreditar que se alguém fez parte do passado tem de fazer parte do futuro, porque só o presente existe de facto... Sobretudo, não adianta querer acertar sempre, porque desistir e errar, às vezes, é só sinal de inteligência!
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Duvida
l
A vida não tem livro de instruções. Por um lado, é bom, torna a existência mais suportável. Por outro lado, é terrível porque a gente sofre que se farta...
Agora, olhando o meu mundo a deixar de o ser, desfiando erros e falhanços, desejava ter tido um livro de instruções porque, pelo menos hoje, não sei como encaixar as peças da minha existência...
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
O BAPTIZADO
O dia declinava já quando o Alentejo amarelecido nos viu passar. Esperava-nos, no silêncio belo daquele Lugar, a capela do Senhor Jesus dos Aflitos. Cá fora, as crianças brincavam, corriam, faziam perguntas e, quero crer, aprendiam afectos que há muito marcam pais e avós. Os amigos chegaram, poucos mas certos, e Sebastião da Gama deu início à cerimónia. Desta vez, não ficou tudo como estava, porque a pequena Constança, vendo a avó junto ao altar a ler, decidiu correr para ela..., aflita, pedindo para fazer xixi! É assim, afinal, a vida: - as urgências da existência sobrepõem-se à Fé...Depois, perante o sorriso amigo de todos, o pequeno António, feliz na segurança inconsciente dos seus cinco meses, recebeu a água sem choro e prestou atenção às palavras de oração.
A festa acabou em torno da mesa, na verdadeira fraternidade que só os amigos conseguem, e eu acredito, mas acredito mesmo, que o meu neto António ficou mais rico porque, na sua inocência e fragilidade, sentiu que terá sempre amigos para o ajudarem a sorrir à vida. Obrigada a todos, digo eu por ele!
A festa acabou em torno da mesa, na verdadeira fraternidade que só os amigos conseguem, e eu acredito, mas acredito mesmo, que o meu neto António ficou mais rico porque, na sua inocência e fragilidade, sentiu que terá sempre amigos para o ajudarem a sorrir à vida. Obrigada a todos, digo eu por ele!
terça-feira, 11 de agosto de 2015
O PRESENTE
Entrou em casa com as mãos atrás das costas e encontrou-a na cozinha. Tinha colocado o grande avental vermelho e, no nariz bronzeado, havia farinha. Reparou nas rugas em torno dos olhos, nalguns cabelos brancos que fugiam do elástico com que prendera o rabo de cavalo e sorriu-lhe. Para ele, cada ruga fazia sentido e ela era, ainda, a miúda por quem há muitos anos se apaixonara.
Trago-te um presente. Ela levantou para ele os olhos escuros e sorridentes. Vou adivinhar... Trazes-me chocolates, after eight!! Ele não se mexeu. Frio, muito frio... chocolate não é presente, é gulodice. Ela, esquecendo as mãos sujas, levou-as à testa. Era agora um olhar enfarinhado que insistia: Então, trazes-me flores! Já sei, trazes a rosa amarela do quintal! Frio, muito frio... A rosa continua lá, no lugar dela. Sabemos os dois que há coisas que são sempre mais belas no lugar de origem. Ela ofereceu-lhe um sorriso total e rendeu-se. Desisto! O que me trazes? Ele abraçou-a, sentiu a camisa de linho encher-se de farinha e apertou-a junto ao coração. Trago-te a mim, inteiro e total, para um abraço eterno. Sentiu as lágrimas mornas molharem-lhe a camisa, mas nem pensou que a farinha daria agora uma papa...
Trago-te um presente. Ela levantou para ele os olhos escuros e sorridentes. Vou adivinhar... Trazes-me chocolates, after eight!! Ele não se mexeu. Frio, muito frio... chocolate não é presente, é gulodice. Ela, esquecendo as mãos sujas, levou-as à testa. Era agora um olhar enfarinhado que insistia: Então, trazes-me flores! Já sei, trazes a rosa amarela do quintal! Frio, muito frio... A rosa continua lá, no lugar dela. Sabemos os dois que há coisas que são sempre mais belas no lugar de origem. Ela ofereceu-lhe um sorriso total e rendeu-se. Desisto! O que me trazes? Ele abraçou-a, sentiu a camisa de linho encher-se de farinha e apertou-a junto ao coração. Trago-te a mim, inteiro e total, para um abraço eterno. Sentiu as lágrimas mornas molharem-lhe a camisa, mas nem pensou que a farinha daria agora uma papa...
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
CUMPLICIDADE
Ele, então, fez soar Pessoa, e ela sorriu.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
FILMES
Deixou o telemóvel fechado na gaveta da velha cómoda, vestiu os calções informais, escolheu a Lacoste que ela preferia e fechou a porta. No automóvel, protegido do Verão excessivo pelo ar condicionado, reviu a vida: - Adiamentos, prioridades, frequentes impossíveis, afazeres, urgências, julgamentos precipitados, culto de aparências.
E o amor aguardando uma oportunidade, o momento certo, as condições que os outros impunham. Tinha acordado agora, e acelerava devorando quilómetros. Seria, talvez, tarde demais? No coração levava a esperança envolta em medo. E se ela tivesse partido? E se o The End tivesse encerrado o seu filme antes do termo da história?
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
MÚSICA
O dia quente, aos poucos, despedia-se, dava lugar a uma noite calma, musical, trazida por vento oportuno e refrescante. Marvão, seguro na força da história já vencida, esperava-me. Como Anteu, na paradoxal insignificância do meu ser, preciso pisar os lugares que me fazem, que são meus também, para seguir existindo... E Marvão abraça-me, sempre, oferecendo-se para, sob a protecção das águias, me ajudar a reacreditar no mundo.
À entrada do castelo esculturas recortadas contra o vale imenso, a ideia de que, de facto, somos apenas sombras! Lá dentro, no pequeno pátio do velho castelo, protegida pelas muralhas limpas, a orquestra desafiava sentires e sentidos. Sentei-me, fechei os olhos e deixei-me levar pelas cordas dos violinos, pela energia do violoncelo, pelo entusiasmo do maestro alemão que, a custo, dizia em português "Obrrigaaada Márvão!!"
Depois, a noite. O escuro do manto que o silêncio faz, tantas vezes, assustador. A cama, o sonho que insiste em ganhar forma de pesadelo e a oração, silenciosa, pedindo um amanhecer diferente. Como música, então, apenas o coro de cigarras vadias.
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