terça-feira, 24 de novembro de 2015

ANVERSÁRIO

Quando ele nasceu, nada ficou como estava. Foi há seis anos (já) que nasceu o meu neto mais velho. Era uma coisinha minúscula, nem chegava aos dois quilos, tinha um gorro azul enfiado na cabeça e, quando lhe peguei, olhou-me com olhar turvo. Ali, num país diferente, num hospital distante, senti que a vida mudava. Mudava o foco do meu interesse, da minha ansiedade e ternura. O MB era, então e agora, o meu foco essencial, o centro do meu viver. Estava muito frio, nevava, e o pequenino ser, envolto em mantas e protegido no carrinho, passeava comigo por Cambridge. Preservo intectos esses primeiros dias de vida do meu primeiro neto com uma intensidade incrível. Conservo os cheiros do Café Costa, as cores da praça e do mercado, os cheiros das caminhadas da manhã pelos campos do King's College.
Hoje, o meu MB já faz seis anos. Já sabe ler, já diz que tem saudades, já me abraça com uma força mágica que só ele tem. Hoje, como há seis anos, a minha vida tem sentido nele. Por ele.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NEOLOGISMOS

Há muitas palavras que, com o uso, ou com o tempo, se vão banalizando e perdendo sentido. De repente, a gente vai a querer dizer alguma coisa, a querer expressar uma emoção, ou um pensamento, e sentimos que falta originalidade, ou força, às palavras que usamos. 
Isto acontece, por exemplo, com o termo felicidade. Fala-se dessa "coisa", de um estado de alma talvez, no quotidiano, a propósito, muitas vezes, de tantas insignificãncias que, quando a Coisa se torna maiúscula, o que a define se esvaziou... 
Afinal, o que é esse conceito, ou esse sentir, de se ser feliz? Dir-me-ão, avisadamente, que cada um é feliz à sua maneira e, imediatamente, eu me oiço responder no silêncio: Vulgaridade! Isso não quer dizer nada...
Assim, senti-me hoje angustiada para explicar aos meus alunos que também as palavras precisam ser preservadas, protegidas de usos abusivos, reinventadas na verdade do seu sentido. Se eu tivesse de explicar o sentido de algumas palavras, acho que teria mesmo de entrar nos neologismos porque, um pouco como a vida, há palavras excessivamente gastas....

domingo, 15 de novembro de 2015

SUSTO

O Terminal Sul  estava caótico. Malas, casacos, conversas em muitas línguas, crianças, choro, olhares assustados. Dirigi-me, na minha solidão triste e com o coração a doer de saudades, ao shuttle que me haveria de levar ao terminal Norte e esbarrei com fitas vermelhas e polícias armados. Caí, então, na realidade, e percebi que, para além do simpático polícia que me dizia, calmamente, que por questões de segurança o terminal Norte estava encerrado, havia dezenas de outros bem atentos e armados. Esperei por notícias. Havia uma suspeita de terrorismo em Gatwick! Na sequência dos horrores de Paris, o alerta era imenso e, assim, o terminal foi encerrado e evacuado. A situação que, vezes demais, acompanho na televisão era agora o meu próprio cenário. Indiscritível a sensação de insegurança, o MEDO. Olhava à minha volta, assustada e sem saber bem o que fazer, ouvindo a indicação de regressar ao Hotel, quando surgiu a hipótese de conseguir um voo TAP que sairia do Terminal sul. Corri como louca à procura da TAP, comprei o bilhete, passei a segurança, corri até à porta de embarque e quando, finalmente, entrei no avião e a hospedeira me disse, em português, uma boa tarde e bem vinda, tive vontade de chorar. Deve ser isto o tal sentimento de pátria. Senti-me protegida por estar entre gente minha! Lisboa, desta vez, nem me pareceu a cidade barulhenta e caótica que sempre encontro quando volto...

domingo, 8 de novembro de 2015

Será do Sol?

Está um sol excessivo. Sol que, como diz o poeta,  peca quando, "em vez de criar, seca".
Olho a vida, o mundo, e tudo me parece de um absurdo que, para além de me assustar,  me entristece. Será do sol??
Oiço que chegam os primeiros refugiados, mulheres de rosto tapado, homens de nariz largo, crianças de olhos espantados. São pessoas, como eu, à procura de paz, de segurança, de compreensão. Depois, oiço os protestos, que me revoltam, de quem os rejeita sob o falso argumento de que já há em Portugal miséria nacional que chegue. Dentro de mim, desperta a recente leitura de João Pedro Marques, Do Outro Lado do Mar", e o horror da escravatura torna-se presente. Mudamos tanto, evoluindo tão pouco...
Quero acreditar que é possível fazer um mundo melhor. Tenho confiança no amanhã da humanidade, creio que, apesar de tudo (e como esse tudo é imenso), a compreensão e a bondade vão vencer mas, olhando o agora, tremo. Como fazer?
Obviamente, a teoria é fácil: Amar! Acreditar no outro, abrir o coração, compreender e não julgar. Mas, infeliz e eternamente, da teoria à prática há um oceano revolto que parece sempre afogar-nos...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sou Criminosa?

No meu país, na terra que outrora foi de sonhadores e conquistadores, somos todos criminosos. Neste Portugal de hoje, aos olhos do estado, somos todos potenciais agentes de violência. Mais grave ainda, somos todos potenciais pedófilos. Só assim posso ler a ordem superior que me obriga, bem como a todos os profissionais da educação, a apresentar, anualmente, um registo criminal.
Sou obrigada, ao fim de 32 anos a trabalhar com jovens, a ir ao tribunal pedir que me passem um documento, um registo, onde fique expresso que não violo criancinhas, nem sequer as como a qualquer refeição. Pensava que, até julgamento ou indício de culpa, gozávamos todos, cidadãos, da presunção de inocência. Mas enganei-me. Somos todos culpados, até que o papel diga o contrário. Como se pode aceitar este facto sem estupefação? Então o estado, na era da informática, não terá como saber quem é, ou foi, indiciado por crimes ? Então o tribunal não deverá informar as entidades responsáveis do registo dos criminosos? Não... Cada um de nós deve fazer prova que é uma pessoa de bem. Ainda que essa prova custe cerca de 5 euros, o preço moral a pagar é bem superior. Que vergonha! Onde estão, agora, os Sindicatos??

Que Irritação

Olho com espanto o meu país. Não vou tendo paciência para tanta gincana política, para tanto vazio cheio de absolutamente coisa nenhuma. Ainda por cima, não suporto a Catarina com o seu ar de jovem contestatária fora de prazo e aquela mania, que uma certa esquerda cultiva e que a mim sempre irritou, de que sabe o que é melhor para toda a gente. O discurso pela liberdade, na boca de quem se acha superior a todos e capaz de apregoar verdades pessoais destilando veneno, cansa-me. Começo a pensar que a maior estupidez dos portugueses é mesmo a calma com que aceitam que decidam pela cabeça deles...

domingo, 1 de novembro de 2015

Os SANTINHOS

Bem cedo, ignorando o nevoeiro húmido das manhãs da Serra, os miúdos chegavam aos grupinhos. Batiam à porta e entre risos envergonhados, estendiam os sacos de pano pedindo "Dê-me os Santinhos"...
Qualquer coisa os encantava, de chocolates a nozes mesmo pão que fosse. Depois, felizes por terem atingido o objectivo, partiam a rir, a correr, para logo pararem no muro mais próximo partilhando os tesouros. Eu nunca pedi Santinhos. Talvez por isso, a vida ofereceu-me diabinhos em abundância...
Hoje, com netos já, ninguém me pediu os Santinhos. Hoje, ouvi dizer "gostosuras ou diabruras", num vício de imitação acrítica que me incomoda e agride. Há abóboras por todo o lado, eu fiz doce delas, e os miúdos pintam a cara com teias de aranha, vestem-se de cadáver e dizem ser fantasmas ou vampiros. Talvez, no fundo, estas alterações culturais não sejam, apenas, o resultado da importação do alheio. Talvez, afinal os santinhos, com o que de bondade e partilha implicavam, já não tenham lugar neste mundo que é, ou parece ser, cada vez mais povoado por teias negras e animais repelentes...