domingo, 21 de fevereiro de 2016

3 Anos

A minha neta fez três anos. Abriu, excitada, uma casinha de bonecas, encantou-se com o bolo da Minnie, foi abraçada por familiares e amigos, viu a casa cheia de balões e a mesa coberta de coisas boas. A minha neta estava contente, crescida - dizia - nos seus três anos recheados de amor e ternura. Eu insisto em não me querer deixar levar pela saudade, obrigo-me a fugir ao habitual o tempo voa, mas recupero nela outros três anos da mãe dela então crescida também... E o soprar das velas, o cantar infantil dos parabéns, as gargalhadas felizes dela, fazem-me acreditar que vale a pena existir. Vale a pena porque, felizmente, há existência para lá da solidão, da rotina, da desilusão e da dor. Há essência no abraço, bem apertadinho,  que ela me dá para chegar aos balões pendurados do tecto... Afinal, eu há muito tempo que sei que, como diz Umberto Eco,
a vida se cumpre num fazer de pequenas (grandes - digo eu) coisas!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

As Pessoas Sensíveis

Tem ecoado em mim um dos imensos poemas fantásticos de Sophia,  Pessoas Sensíveis. Infelizmente, este poema que oiço no silêncio, não me acompanha fazendo-me sorrir mas, antes, fazendo-me pensar que ainda há muitas pessoas  hipocritamente sensíveis... Pessoas que enchem textos falando do superior interesse das crianças e que, depois, permitem uma justiça vergonhosamente lenta, fecham os olhos a serviços indignamente burocráticos. Morreram mais duas crianças. Não sei se a mãe estava doente, se o pai era pedófilo, se as crianças estavam ou não mortas antes de entrarem na água. O que sei, e me dói, é que, uma vez mais, com uma ligeireza que me revolta, o estado falhou no acompanhamento a crianças que, há muito, tinham sido sinalizadas como estando em risco! Tenho vergonha por mim também. Como é possível que comente este crime à mesa do café, e que não tenha nada mais para dizer para além do é grave e indecente??
No meio desta barbaridade, que a todos diz respeito, continuo a achar que há pessoas estranhamente sensíveis... Hoje mesmo, numa aula, porque dois alunos se preparavam para fazer análise de Os Maias sem livro, e porque lhes pedi que fossem à biblioteca pedir um livro..., encontrei uma sensibilidade que me indigna também. Zangada, eu disse aos meus alunos: - Vocês acham normal estarem dispostos a perder uma hora de vida sem fazer nada? Será que a vossa vida não tem valor? - Ora uma das criaturas, um jovem muito sensível, disse-me em tom ameaçaor: - Agradeço que não faça comentários sobre a minha vida! - Ficou magoado.. É um rapaz muito sensível. Sensível, sobretudo, à necessidade de cumprir regras, de ouvir contraditórios, de respeitar o próximo.
De facto, Sophia tinha muita razão: Há pessoas sensíveis...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Mas as crianças, Senhor? - Já não é poesia...

Guardar as crianças e jovens nas escolas até às 19.00h - Ouvi com surpresa. Com mais surpresa ainda porque, conhecendo de perto o trabalho do actual secretário de estado, sabendo-o um homem de bem e preocupado, de facto, com os alunos, soava estranho. Por isso, antes de embarcar nas enormidades  que a opinião pública faz por vezes parecerem verdades, esperei e li. E não fiquei convencida...
A ideia, teoricamente, até pode ter justificação. Os pais trabalham cada vez mais, as crianças ficam muito tempo entregues a si próprias e sujeitas a riscos.
No entanto, penso que a solução não passa por mais horas nas escolas mas, bem pelo contrário, por uma maior organização e flexibilização de horários de casais com filhos.
Claro, mais fácil é aumentar o tempo na escola. Até sai mais barato... Mas as crianças são pessoas e, como tal, carecem de tempo de afectos, de qualidade no tempo da aprendizagem do relacionamento humano, de disponibilidade para ouvirem e serem ouvidas. Por muito excepcional que seja um professor, e eu sei que a maioria o é, não substituirão nunca a família...
Olho a actual proposta e, sei lá porquê, lembro-me da juventude hitleriana. Lembro-me dos jovens retirados às famílias para serem educados pela Alemanha; lembro os acampamentos da Mocidade Portuguesa; lembro muitas realidades educativas onde se formatavam mentalidades, limitavam sonhos e construíam falsidades. À minha frente desfilam os pequenos coreanos, todos de idêntica tristeza e futuro vazio.
Não quero isto para os jovens do meu país! Creio que a sociedade em geral devia mobilizar-se para defender as crianças e os jovens. Nem tudo podem ser números, nem tudo pode ser dinheiro! Tem de ser possível construir uma sociedade com espaço para as Pessoas que a constituem!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

UM e-mail

Chegou cansada, molhada até aos ossos, carregada de frio na alma e humidade nos sentires. Como sempre fazia, atirou os sapatos para o meio do hall, vantagens de viver sozinha, e fez um chá bem quente. Ligou a braseira, agradeceu em silêncio ao inventor da camilha e passou o dedo no ecrã no tablet. As luzes piscaram, o cenário passou de verde a vermelho, fez-se azul e o indicador de e-mail piscou.
Abriu a página: - Trabalho, reuniões, tarefas, perguntas, desculpas, promoções de supermercado, sugestões para o dia dos namorados. Lixo, pensou. De repente, sentindo a alma a sorrir, reparou num endereço desconhecido. Abriu. A resposta ali estava: - Fora admitida! Ia partir sem data de regresso, leitora no centro da Europa, longe da rotina que, definindo-a, a limitava. Ia partir, sabendo, de antemão, que ainda assim não deixaria para trás a dor que a sufocava, o desejo impossível que a consumia. Mas lá, num mundo que sendo velho a recebia como novo, haveria muito com que encher o vazio enorme da sua existência sofrida. Releu. Era em breve, breve porque três meses voam...
Eliminou as promoções do supermercado, não sem antes reparar que a carne de porco estava em saldo, e sorriu aos contrastes.
Ia partir!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CHATICE

Tenho andado muito afastada do meu blogue. Afastada, também, da minha vida de eu comigo, daqueles momentos, como este, em que converso comigo só porque não quero perder a certeza de que existo. Existo para além da família, dos amigos, da escola, dos alunos, das formações, das angústias. Existo, porque respiro a cada dia com vontade de fazer diferente, de fazer melhor.
Sou, decididamente, uma incurável sonhadora e, com o diagnóstico certo, conheço o sofrimento que daí decorre. Sofro demais, por incapacidade de dizer NÃO à muita maldade e idiotice que me rodeia... Ou será, porventura, o contrário? Provavelmente, a minha patologia leva-me a imaginar que tenho razão, que faz sentido evitar conflitos e privilegiar a harmonia e, afinal, a idiota sou eu. Seja lá como for, ou porque for, a verdade é que não consigo compreender porque razão há algumas pessoas que parecem só ser felizes a semear discórdia e a espalhar conflitos. Claro que eu devia estar-me nas tintas, devia dar ao demo de barato estes comportamentos, mas não sou capaz. A maldadezinha, aquela mesmo inha, feita de certezas absurdas, de ameaças veladas, de invejas doentias, incomoda-me demais! E não é que tenho de suportar isto diariamente?? Que chatice! Por isso mesmo, hoje, sabe-me incrivelmente bem este lugar vazio, com bom café e memórias doces...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

FALHANÇOS

E lá volto eu à Educação... Devia já, ao fim de tantos anos, lidar com estas questões com indiferença e alheamento mas, ou seja que vou envelhecendo - e por isso se me agudizam os sentires (se possível fosse) - ou seja que os casos tristes não deixam de acontecer, continuo a precisar de desabafar as minhas angústias profissionais. E, desta vez, a minha tristeza desalentada nasceu em duas visitas de estudo que realizei...
Eu acredito, mas verdadeira e convictamente, que ver, experimentar, interagir, dar dinâmica aos processos de ensino e aprendizagem é determinante para o sucesso dos alunos. Assim, lá ousei desafiar dois colegas, porventura tão idealistas quanto eu, e metemo-nos a caminho do Porto Romântico para uma visita de dois dias, levando 47 alunos de 11º ano. Gente com 16/18 anos, até 19... Ora tudo parecia correr bem, com as habituais cantorias e reclamações sobre tudo, quando, perante a minha estupefação e indignada surpresa, sou chamada à portaria da Pousada de Juventude, pois o dono do café em frente queria falar com o professor responsável pelo grupo. E aí a minha surpresa transformou-se em indignação! Três jovens tinham resolvido ir para o café meio despidos, em robe, de boxers e t-shirt de alcinhas. Três rapazes maiores de idade que, quando os interpelei, me perguntaram onde estava escrito que não podiam ir despidos para a rua... Nunca, nem por um instante, estes alunos reconheceram o absurdo e pediram desculpa! 
Mal refeita da desilusão, ontem mesmo fui a caminho de Lisboa com mais 50 jovens, desta vez, alunos de 10º ano. Ora não é que, em pleno Rossio,  resolveram arrancar as penas de leme a um pombo? E não é que umas meninas saltaram para cima - literalmente - de um actor de novelas que filmava junto ao elevador de Santa Justa?!
Dormi mal. Porque acho que estou a falhar como educadora! A Escola tem de educar, tem de ser capaz de promover comportamentos responsáveis, tem de saber desenvolver competências sociais. E não me venham dizer que a família é que tem de educar porque, sabemos todos, a família modelo (seja lá isso o que for) há muito faliu... 
Mais grave, para mim que sofro com isto, é que eu sei como poderiamos fazer . Não é preciso trabalhar mais, basta trabalhar diferente...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

EDUCAÇÃO??

É com revolta, e algum desespero, que tenho acompanhado as decisões mais recentes no que à Educação diz respeito. A decisão de terminar, de um dia para o outro, com os exames de 4º ano, e as razões que se apresentam para tal, surpreendem-me. Obviamente, sei e sempre defendi que os exames, por si só, não são garantia de Educação de qualidade, ou sequer de avaliação fidedigna. No entanto, são uma forma de aferição com alguma relevância e, creio, servem também para ajudar os alunos, que são pessoas em formação, a enfrentar desafios. Não sendo uma defensora dos exames em si mesmos, quero o rigor na avaliação, e, sobretudo, quero  qualidade na Educação.  O que a Assembleia da República está a ratificar são medidas de revanche política: - O importante é eliminar tudo o que foi feito no passado. Um absurdo. Uma infantilidade, diria. Reduzir a escola a um espaço de convívio e socialização, parece-me absolutamente longe dos ideais e objectivos da mesma.
Nada tenho contra o novo ministro, nada sei dele, para além da idade, e da barba que lhe dá um ar simpático, mas veio da investigação sobre o cancro e talvez não tenha percebido que uma educação sem qualidade pode ser bem mais mortal do que a doença que investigou...