segunda-feira, 1 de abril de 2019

A Ginja

A Ginja foi-me dada, para que não fosse abatida, há 15 anos. Cruzada de rafeiro e mastim, num instante cresceu e se fez uma cadela possante e meiga. Tinha uma mania, um vício que me tirava do sério: - mal apanhava o portão aberto, ia chatear os cães da vizinhança. A Ginja nunca teve crias, era uma cadela estéril, dizia o veterinário, mas era terna e paciente com o pequeno Zorba. 
Durante doze anos, a Ginja e o Fred eram inseparáveis. Aliás, os nomes deles eram Ginger e Fred, uma homenagem aos dois bailarinos/actores de quem eu tanto gosto. Mas Ginger era difícil de dizer e, sem saber como, transformou-se em Ginja.  Fred, um belíssimo rafeiro alentejano, morreu há três anos. 
A Ginja tinha um tumor, foi operada e recuperou. Corria já bem, feliz e gulosa sempre que ouvia abrir a caixa dos biscoitos.
Ontem, quando corria à minha frente a caminho do canteiro dos morangos, caiu morta. 
Sei que era um animal, mas dói-me fundo esta morte. Sinto a falta das corridas dela, da sua presença, do ladrar forte a dar sinal de tudo. Tenho saudades até da forma como ladrava, desesperada, quando uma trovoada se aproximava. 
Cada vez mais, sinto que há animais mais sinceros e amigos do que algumas pessoas. A Ginja vai ficar no meu património de boas memórias.

sábado, 30 de março de 2019

LAMPREIA

Comer lampreia não é para todos. Há quem se delicie, há quem sinta uma tal repulsa que impede que prove. Eu adoro lampreia! Sobretudo, adoro a lampreia que a Lena cozinha, ali junto à barragem de Belver, no apeadeiro do comboio.
Quando era miúda, era obrigatório, duas vezes por ano, ir à Lena. Brincava cá fora, com outras crianças, enquanto os adultos almoçavam. Mais velha, era a companhia do meu Pai nestes momentos. Conduzia, e como o meu Pai confiava na minha condução!, e conversava durante o maravilhoso petisco. Então, as lampreias eram apanhadas ali mesmo, no Tejo, junto à barragem. Havia muitos barcos, lembro-me de ver sacos cheios daqueles animais escorregadios, feios, mas muito saborosos. Hoje, voltei à Lena. Já não há muitos barcos a pescar, o rio parece uma ribeira, não vi lampreias vivas. Mas comi lampreia deliciosa, vinda do Mondego…
É assim a vida. Muda tudo, alteram-se cenários e práticas mas, para mim, há sempre uma ligação emocional que nenhuma modernidade consegue destruir.
Ir à Lena, comer lampreia, não só me consola o estômago como me enche de emoções e memórias que não quero perder!

quinta-feira, 28 de março de 2019

METAS

"Deus fez o céu para justificar os pássaros", diz Mia Couto. Porque Deus sabe que sempre há uma causa menor, para a imensidão em que nos perdemos. Olho o céu cansativamente azul, vejo as aves que desconhecem limites e lembro Mia Couto. Talvez seja a presença das imagens de destruição de Moçambique que me desassossegam, talvez a insuficiência de palavras para dizer o que se me cola à pele. Gostava de poder inventar uma nova gramática, uma nova forma de dizer, sem palavras gastas, sem regras que travam o pensamento no dique dos possíveis. Na minha gramática por inventar, tão minha, toda a poesia haveria de correr na liberdade de não ter, nunca, de chegar a lugar algum.
Às vezes apetecia-me meter algumas palavras na máquina de lavar a roupa, escolher o programa mais quente, e retirá-las encolhidas e sem serventia. No mesmo programa, poupando água, enfiaria os preconceitos, as verdades alheias, as distâncias impostas e as mil hipocrisias sociais. Havia de as deixar secar qual o peixe na Nazaré, depois, com que prazer as olharia imprestáveis!

PERDÃO

Peço perdão, meu amor, porque te amo
Peço perdão, meu amor, porque te quero
Peço perdão, meu amor, porque te respiro
Peço perdão, meu amor, porque te lembro.

Peço perdão, ser, por não ignorar
Peço perdão, ser, por não desamar
Peço perdão, ser, por não perfecionar
Peço perdão, ser, por nunca acertar.

Peço perdão, vida, por vacilar
Peço perdão, vida, por fraquejar
Peço perdão, vida, por falhar
Peço perdão, vida, por sonhar.

Peço perdão!

quarta-feira, 27 de março de 2019

A MINHA ESCOLA

Acredito, e quanto mais olho o mundo de hoje mais acredito, numa Escola completamente transformada. Sei, porque vejo, oiço e leio, que o mundo de amanhã, que é o de hoje, exige competências que vão muito para além da aquisição de conteúdos, que ao trabalhador de agora não se pede o mesmo que se pedia ao trabalhador de há dez anos. Sei também, embora às vezes finja não saber, que há muitos professores exaustos e desiludidos, que a vontade de fazer diferente, a confiança no sonho, já não é muita. Ainda assim, tenho dificuldade em compreender argumentos assentes na defesa do modelo da instrução, arreigados à pedagogia da transmissão. 
Na Escola que defendo, todos os espaços são de aprendizagem e as competências cívicas, humanas e sociais são efectivamente desenvolvidas. Queria (quero) uma Escola sem muros, feita de partilhas e de proximidade, criando links entre diferentes domínios. Quero, mas convictamente, que a Escola ajude a construir um mundo diferente e melhor, mais equitativo, mais capaz de combater e minimizar as diferenças do berço. Talvez eu nunca chegue a ver, menos ainda a trabalhar, na Escola que desejo mas, com certeza, gerações futuras terão esse privilégio. 
Estranhamente, tranquiliza-me essa certeza...

DÚVIDA

Tens um abraço para mim? Um abraço corda, concha também. Um abraço que me proteja do vento forte que me despenteia, da saudade que me dilacera, da solidão que me consome. Um abraço total, que nos faça um só como quando, nas noites quentes, dançamos abraçados, descalços,  num ritmo único.
Tens ainda aquele abraço que enches de murmúreos  no meu ouvido, aquele que me entra no sangue e provoca calafrios? Dás-me um abraço? Daqueles de deixar a minha cabeça descansar no teu ombro, arrumando dores e calando mágoas? Tens um abraço para mim? Daqueles com a intensidade do siroco, com a fúria quente do suão? Tens um abraço ainda? 
Faz-me falta, agora, o teu abraço. O nosso abraço. O abraço. Tens um abraço para mim?

terça-feira, 26 de março de 2019

DOENÇA NA SAÚDE

Pobre e injusto país, este Portugal. Cada vez mais, seja que governo for, me confronto com a injustiça crescente, com o privilégio de alguns, com a degradação da qualidade de serviços tão fundamentais como a saúde! Estou habituada a ouvir dizer eu é em Portalegre, que nesta cidade devemos fugir do Hospital, mas, afinal, não é só por cá…
Como é possível que uma criança, seis anos!, vá ao hospital de Braga queixando-se de fortes dores de cabeça, de tonturas, depois de uma queda violenta de um baloiço, e espere sete horas até ser atendida? Melhor, ou pior…, desesperar e ter de recorrer ao hospital privado? É incompreensível! Em Portugal, um país tão pequeno, só há saúde para quem pode pagar mas, paradoxalmente, todos pagamos impostos. E pesados! 
Eu nunca fui socialista. Nunca acreditei em políticas totalitárias mas, confesso, nunca tinha sentido na primeira pessoa a injustiça viva. Tenho sido uma privilegiada, admito. Não acredito num país só para alguns. Que mágoa tenho! Que revolta experimento!