segunda-feira, 8 de abril de 2019

NOVA ERA

A vida cumpre-se em ciclos. Em idades, talvez. Eu estou a entrar na era das perdas… 
À medida que aumentam as perdas, as ausências, quando as molduras dos ausentes ocupam o maior espaço da casa, começo a olhar para trás e a achar que há mais passado do que futuro. 
Tenho um enorme volume de perdas e, se algumas me aliviam pela injustiça de quem quis livremente partir, outras doem-me muito fundo. 
Entrei na era das perdas. E, ainda assim, sonho com haveres. Contrassensos de vida. 

domingo, 7 de abril de 2019

DANÇAS?

Queres dançar comigo? Não é preciso seres bailarino, basta quereres encontrar o ritmo certo no meu abraço. Isso, envolve-me  a cintura e deixa correr o disco. É um disco antigo, vinil ainda, devolve-nos as festas de garagem, lembras-te? Então, era slow. Bastava arrastar os pés e sentirmos que pertencíamos um ao outro, fácil. Agora, é mais difícil, acho que perdemos o ritmo. Mas podemos tentar, vá lá. Abraça-me. É bom sentir-me segura, balancear levemente, sentir o teu perfume perto, encostar-me e apertar a tua mão. Havemos de reencontrar o ritmo perdido, não é? Porque, por muito que a música seja diferente, só sei dançar nos teus braços.
Queres dançar comigo? 

sábado, 6 de abril de 2019

COMER,ORAR e AMAR

Devo ter visto o filme Música no Coração mais de vinte vezes. Ainda assim, sempre choro e sempre sofro quando a família Von Trapp  se esconde no cemitério... Quando estive em Salzburgo, olhando as montanhas e a cidade linda, esperava ver surgir um horroroso alemão a cada esquina, ouvia dentro de mim a Maria a cantar e cantarolava, em silêncio e só para mim, o edelweiss. A Música no Coração era, para mim, uma referência de jovem, de adulta também.
Agora, o filme das valsas e da paixão entre montanhas, corre o risco de ser ultrapassado pelo Comer, Orar e Amar. Vi, pela primeira vez, o filme no cinema. Depois, comprei o DVD e revi muitas vezes. Agora, com a vantagem que a Netflix oferece, vejo regularmente. 
Gosto da actriz Julia Roberts, do actor Javier Bardem, de cenários naturais e belos. Mas, neste filme, é a procura de um sentido para o eu que me cativa. Em Roma, como a actriz (salvo as devidas proporções) , também tentei encontrar um sentido para a minha existência. Não estava nas pizzas, não o achei no osso buco, nem sequer o descobri nas muitas igrejas. Ao contrário de Júlia Roberts, não fui para a Índia, não procurei um guru. Não só não fui por não ter dinheiro para isso como, muito a sério, seria dos últimos países para onde escolheria viajar. Detesto humidade, choca-me a miséria, odeio insectos! Também nunca fui a Bali, nem sequer tenho fé nos videntes, mas conheço muito bem o confronto com uma realidade onde não nos sentimos confortáveis. Conheço, na primeira pessoa, a fraqueza de não conseguir partir, mudar tudo, procurar o tal sentido (será que existe?) que nos faz falta a cada respirar. Rezo. Não em Bali, mas por aí. Rezo, agradeço, peço perdão e falho. Não me realizo. Amo. Apaixonadamente as minhas filhas e netos! Mas, ainda assim, muitas vezes me sinto sem rumo. Perdida. Sem razão de existir. Como a actriz, só que na realidade!
Comer, orar e amar não é um grande filme. Não é uma obra-prima, não tem um argumento incrível. Mas tem alguma coisa que me toca e encanta.
E pronto, lá vou eu, de novo, ligar a Netflix...

sexta-feira, 5 de abril de 2019

NEVE

É Abril. As cerejeiras, os marmeleiros, as cameleiras, estão carregadas de flores e neva. Cai do céu, suave e macia, tão silenciosa como Augusto Gil a descreveu, em flocos gordos, a neve branca que cobre o chão. Faz frio, muito frio, e o olhar confunde flores que prometem frutos (nascerão?) e água feita fofura branca. Os cães estão calados, espantados talvez, os pássaros não voam e as árvores nem se agitam. Gosto da neve. Gosto do conforto da lareira, do lume forte, do chá quente, olhando a neve que cai. 
Em Portalegre, este é o fim-de-semana da Festa da Doçaria, do Concerto dos Triunfonia da amizade, e não me apetece sair. É tão bom fingir que acredito   que o mundo parou, assim, almofadado na brancura gelada da neve.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

(DES)ILUSÃO


Do lado de lá do passado, não há nada. No passado, nada é. O presente ilude-nos e, talvez por isso, talvez, também, pelo medo do futuro, tendemos a refugiar-nos no passado que julgamos terreno seguro. 
Mas o passado não está lá. O passado foi para o mundo dos sonhos, para a espuma das ondas e nunca mais é verdade. Campos dizia que deveria ter trazido o passado roubado na algibeira, mas sabia ser um condicional impossível. O passado é uma esteira, feita de cinzas e brilhos como o do fogo-fátuo. O futuro, por outro lado, é um sonho a haver, uma realidade que raramente o será. A gente sonha, imagina, planifica, acredita, projecta e, depois, a vida, ou a sucessão de dias de cada existência, destroem tudo e mostra que temos mesmo de nos satisfazer com cada instante.

Só que, pelo menos para mim, os instantes são transições de tempos sem sentido.

Ah… Sentido. 
Talvez, quem sabe, a questão seja mesmo ignorar a existência de sentido e viver ao sabor do momento, saboreando a certeza de que não haverá desilusão, porque nunca chegou a existir ilusão!

terça-feira, 2 de abril de 2019

A Bicicleta e a Escola

Sinto necessidade de explicar. Não que alguém mo tenha exigido, não que tenha medo de represálias, mas sinto que devo explicar.
A semana passada, já nem sei quando, surgiu a notícia de que as escolas irão passar a ensinar as crianças a andar de bicicleta. 
Logo, com a rapidez que a internet permite, se manifestaram as vozes contra: - Que essa é tarefa dos pais, que a escola deve é ensinar conhecimento, que agora é tudo para cima da escola, que há professores que não sabem andar de bicicleta porque não foram ensinados, que nem todos os miúdos têm bicicleta, que é preciso equipar as escolas com bicicletas para todos, que há professores que nunca tiveram bicicleta por serem oriundos de famílias desfavorecidas, etc.
Obviamente (para mim), eu discordei. E discordei, eu que não sou do PS e menos ainda apoiante da geringonça, porque penso o seguinte:
. A Escola, para ser de facto transformadora da sociedade, tem de desenvolver nos alunos competências - Todas as enunciadas no Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória (set. 2017);
. Se queremos um mundo diferente, e eu quero, os alunos devem, na escola,  adquirir e desenvolver competências que permitam fazer a diferença: - Nadar, andar de bicicleta, reciclar, respeitar o ambiente, são algumas delas;
. Obviamente, não serão os professores de inglês, ou de matemática, ou de português, a ensinar os meninos a pedalar. A escola faz parte de um território e há que organizar, nesse território, a forma de ter nas escolas, algumas horas, quem sabe como desenvolver o equilíbrio e o pedalar;
. Não é preciso haver uma bicicleta para cada criança, ou uma piscina em cada escola. Devemos, e podemos fazê-lo, rentabilizar os recursos existentes no território. Não há vila, ou quase aldeia, que não tenha uma piscina. Há muitos miúdos que têm bicicleta, podem partilhar, aprender a fazê-lo é muito importante;
. Para um hoje diferente, porque amanhã não sei se estarei viva, temos de conseguir que a escola faça muito do que muitas famílias não podem, não querem, ou não sabem fazer. Uma sociedade mais inclusiva e livre só acontecerá quando a nova geração aprender a respeitar o próximo, a partilhar e a ter sentido crítico;
. Não compreendo por que razão a Escola, e muito a Escola portuguesa, parece considerar que apenas a cabeça é educável se, de facto, o corpo é essencial… Defendo, muito a sério, que a escola ensine dança, música, natação, cozinha, organização familiar e todas as competências que fazem TANTA falta no mundo de hoje. E acredito, porque sei como fazer, que todas estas aprendizagens podem acontecer em relação, de forma articulada, com o inglês, a matemática, o português e todas as áreas curriculares.
Não gosto de falar de cor e, por isso, estou disponível para conversar com quem quiser sobre a efectiva possibilidade de concretização desta Escola diferente. 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A Ginja

A Ginja foi-me dada, para que não fosse abatida, há 15 anos. Cruzada de rafeiro e mastim, num instante cresceu e se fez uma cadela possante e meiga. Tinha uma mania, um vício que me tirava do sério: - mal apanhava o portão aberto, ia chatear os cães da vizinhança. A Ginja nunca teve crias, era uma cadela estéril, dizia o veterinário, mas era terna e paciente com o pequeno Zorba. 
Durante doze anos, a Ginja e o Fred eram inseparáveis. Aliás, os nomes deles eram Ginger e Fred, uma homenagem aos dois bailarinos/actores de quem eu tanto gosto. Mas Ginger era difícil de dizer e, sem saber como, transformou-se em Ginja.  Fred, um belíssimo rafeiro alentejano, morreu há três anos. 
A Ginja tinha um tumor, foi operada e recuperou. Corria já bem, feliz e gulosa sempre que ouvia abrir a caixa dos biscoitos.
Ontem, quando corria à minha frente a caminho do canteiro dos morangos, caiu morta. 
Sei que era um animal, mas dói-me fundo esta morte. Sinto a falta das corridas dela, da sua presença, do ladrar forte a dar sinal de tudo. Tenho saudades até da forma como ladrava, desesperada, quando uma trovoada se aproximava. 
Cada vez mais, sinto que há animais mais sinceros e amigos do que algumas pessoas. A Ginja vai ficar no meu património de boas memórias.