quinta-feira, 22 de agosto de 2019

DESGOSTAR

Quando as crianças partem, quando as coisas voltam a estar no lugar e o silêncio se instala, a minha casa cresce assustadoramente e a solidão oprime-me. 
Os meus netos, as minhas filhas, enchem o meu Tempo de sentido(s). Quando chegam, cada segundo ganha vida, cada hora, ainda que mais cheia de cozinhados e arrumações, torna-se válida. Depois, quando partem, o silêncio fere-me e eu volto a pensar no que é o meu eu-sem-filhas-nem-netos. 
É pouco. É um Eu de desejos calados, de saudades constantes, de memórias ternas e irrepetíveis. 
Agora, com ainda alguma desarrumação e sem vontade de arrumar, penso nas muitas perdas, nas muitas desistências. Queria poder aprender o desamor. Gostava de ser capaz de desgostar de algumas pessoas para que, talvez, a minha solidão doesse menos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Conjugações

O meu pai costumava dizer, brincando, que eu era boa a conjugar o verbo ir. Se me visse agora, ia ficar admirado com a minha capacidade de conjugar o verbo ficar. Cada vez gosto mais de ficar, de fugir ao mundo, de me proteger dos outros no meu casulo. Hoje, fiz uma deliciosa caipirinha e, com os cães por companhia, gozei uma verdadeira tarde de férias!

domingo, 11 de agosto de 2019

O Livro do Império

As palavras escritas são, para mim, entidades mágicas. Sempre li muito, em miúda para fugir aos outros, mais crescida para encher muitos vazios. Perco-me nos livros, apaixono-me pelas personagens e converso com elas com frequência.
Hoje, de madrugada, terminei a leitura do Livro do Império, de João Morgado. 
Agora, que cheguei à última página, vou ter saudades de adormecer com Camões, vou ter medo da mulher de negro. 

NORTE-SUL-NORTE-SUL

Vim do sul, da "minha" praia da Rocha, de dias óptimos e noites quentes e rumei ao Norte. Verde Minho, milhares de emigrantes de olhar turvo de saudades cansadas, estradas perigosas e  ternura dos netos. Olhei o mar do Norte, escuro e intenso, pensei os meus pensares, bebi vinho verde - bem gelado!- e rumei de novo ao Sul. Mais netos, os afectos intensos que as saudades tornam mágoas. E sol, mergulhos, gargalhadas. Logo, cedo mesmo, a subida até a capital do reino, a essa cidade que já não é minha, onde predomina o turismo, os ataques a essências, o culto das aparências. E eu a vestir-me de turista também, mascarando a alma, a identidade que me faz calar tanta dor, iludir grande revolta. 
Férias são isto? Sim, são a fuga à realidade, ao quotidiano, às exigências de horas. Férias são, para mim, tempo de fugas. 
Fujo de mim, afinal. 
E sempre me encontro, à noite, seja olhando o Tejo que substituiu as ninfas pelo Hippotrip, seja nas praias que abarrotam de corpos tatuados, seja no Minho que trocou o verde da canção pela cinza e o negro do fogo.

sábado, 10 de agosto de 2019

Siesta ao jantar

A praia de Algés, reza a história, já foi lugar de nobres, de gente endinheirada, praia de ares puros. Hoje, é um rio oleoso e sujo, uma areia negra que mete nojo e a torre de controlo, até essa inclinada, que nos recebem. Felizmente, existe o La Siesta onde, com Margaritas saborosas, se tenta ignorar o cenário exterior. Há pouco, com os meus netos, jantei


lá muito bem. A dificuldade foi, no regresso ao Chiado, explicar ao Manuel Bernardo, verdadeiro inglês, porque razão os portugueses escrevem nas paredes e até nos monumentos!!

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

MULHER

Obviamente a brincar, costumo dizer que o Criador, quando fez o homem, ficou tão desgostoso com a sua obra que decidiu convertê-la em rascunho. Num borrão. Olhou com tristeza a criação, pensou como fora possível que Ele, perfeito, tivesse construído algo tão imperfeito e, para se redimir, focou-se em fazer algo realmente artístico: - A Mulher!
Como qualquer artista que se preza, escolheu com cuidado os materiais, procurou a Harmonia e esmerou-se nos pormenores. Podia, de facto, ter sido uma obra-prima, mas não o foi. Porque, acho eu, o Grande Artista, para compensar as falhas do borrão, abusou das emoções, da sensibilidade, da capacidade de amar. 
E é só assim que eu consigo compreender o que leva uma mulher a suportar o insuportável, a amar para além do razoável, a tentar limpar com lágrimas as nódoas negras que a vida lhe faz na alma.





quinta-feira, 8 de agosto de 2019

HIATO

Penso sempre que férias são hiatos na vida. Abre-se uma espécie de parentesis e, durante algum tempo, a vida real, essa que se faz de desilusões, mágoas, chatices, deixa de ser prioridade. É tempo de desligar a razão (quando possível) e ligar o eucomsentido na potência máxima. Neste tempo, de qualidade, até o corpo ganha nova cor, a gargalhada mais verdade. 
Claro que, só para chatear, nas férias também é preciso dizer adeus, também existem ausências e incompreensões mas, ainda assim, é este um Tempo de razoável desrazão. 
Como se os paradoxos fossem a verdade compreensível. Única.