quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A MATILHA

Na minha opinião, que vale muitas vezes só para consolo próprio, o ser humano é único, exclusivo, e, por isso mesmo, com singularidades. Eu vejo-me assim.
No entanto, a Pessoa só se realiza, plenamente, em relação com o outro - com os outros. 
Há assim uma espécie de sentimento de matilha, de grupo, que nos ajuda a sermos mais completos e realizados. Deve ser por isso, acho eu, que nós vivemos do avesso, virados para fora e não para dentro, olhando o exterior mais do que o interior. E é nesta relação do eu com o sentimento de matilha, que a existência se complica. Quando o eu se desmatilha, sofre. Quando a matilha o não reconhece, sofre. Se calhar, por isso, às vezes surgem dentadas no alheio.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

VERGONHA

Bem cedo, e tão tarde para a ida que é já segunda-feira, entra um pip e surge, no ecran do meu telemóvel, mais um email. É o Ministério da Educação a dizer-me que precisa dos meus serviços, a chamar-me para dois dias de formação no Vimieiro, a impor-me regime de internato, e a esclarecer que não paga as deslocações. Afinal, são só duzentos e muitos quilómetros... A falta de respeito que o sistema tem pelos professores, parece-me grave. 
Eu acredito na necessidade de mudar práticas, defendo, às vezes aguerridamente, o trabalho colaborativo, mas, sinceramente, não acho justo ter de pagar do meu magro bolso as sessões de formação.
Às vezes, este país envergonha-me!

terça-feira, 24 de setembro de 2019

DEPOIS

E depois, fechou a porta e ficou olhando o vazio. Porque tinha de existir um depois? Porque não podia tudo, ou pelo menos as coisas boas, só terem durante? Escorregou e ficou, aninhada em si mesma, trancada no abraço ao seu eu, sentindo os estilhaços do mundo, do seu mundo, a ferirem fundo o seu pensar. 
Devia ter desistido antes da desilusão. Devia ter travado antes de ganhar velocidade nas asas do sonho. Devia. Mas ela nunca acertava o fazer com o dever e, uma vez mais, tinha acreditado que seria possível, que ia, de facto, transformar a Escola, a sua escola, num lugar de construção de felicidade e aprendizagens de sucesso. E o sal secava-lhe a pele, magoava-lhe a garganta. Estava cansada de tanta desilusão. Não tinha, já, capacidade para o depois.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ILHA da MADEIRA

Na ilha da Madeira, naquele espaço fantástico abraçado pelo mar azul, as pessoas foram a votos. Correram com a extrema esquerda, e para mim fizeram muito bem, e dividiram-se entre o PS e o PSD. Infelizmente, a abstenção voltou a aproximar-se dos 45% o que eu acho absolutamente absurdo.
Não consigo compreender que as pessoas não votem. Reconheço a desilusão colectiva, os maus exemplos de alguns políticos, o aumento da corrupção, mas, ainda assim, continuo a pensar que o voto é a única forma de manifestar a nossa indignação. Enfim...
Na Madeira, a aproximação entre PSD e PS também me entristece. Claro que as práticas são semelhantes (infelizmente) mas, ainda assim, há fundamentações ideológicas que me impedem de confundir os dois partidos. Nunca votarei PS e nunca votei PSD... (Mas penso que poderei fazê-lo). 
Agora, recordo o carismático  Dr. Alberto João Jardim. Um dia, há aí uns trinta anos, fui ao Funchal com o meu Pai, num Congresso de Cardiologia. Num dos dias, houve um jantar oferecido pelo então presidente do Governo Regional e, ao cimo das escadas da Quinta da Vigia, o Sr. Dr. Alberto João recebia os convidados. 
Ao iniciarmos a subida, ele disse de lá, em voz de sonora simpatia . - Ora bem-vindo, Dr. Emílio Moreira, lá de Portalegre! 
O meu Pai nunca tinha estado com o Dr. Alberto João, ele também não o conhecia, mas teve a simpatia de se informar sobre as pessoas que recebia e de as acolher como amigos. Nunca mais esqueci este momento...
Não tenho a mesma simpatia pelo Dr. Albuquerque mas, confesso, fico satisfeita por saber que o PS não ganhou as eleições!
Às vezes, muitas vezes..., fico em pânico com a vivência da Democracia.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

19 de SETEMBRO

Nunca mais vou esquecer esta data! Ontem, Portalegre, uma vez mais, não me desiludiu. Foi uma tarde mágica a que acolheu o lançamento do meu terceiro livro, Prateleiras de Insignificâncias. Um momento de ousadias, com diferentes opções políticas a provar que a democracia é possível. Mas, muito mais do que a política, foi a amizade que esteve presente, que encheu o espaço e o meu coração. 
A escrita, como muitas vezes digo, é uma exposição da alma, e a minha está exposta com emoção. 
Sinto necessidade, neste espaço que é muito meu, de agradecer a algumas pessoas: - ao Raul; sempre presente. Ao João Matela; amigo de cada hora. À Piedade Murta; ombro onde tantas vezes choro. À Paula e à Carla; o que seria de mim sem o carinho irreverente destas duas amigas?. Aos meus sobrinhos Bernardo, João, António; os sobrinhos são um bocadão nossos. Meus. Ao meu primo André; que veio de Lisboa para me ouvir. Aos meus pequeninos, a Francisca, o Bernardo, a Maria, a Madalena, o Manel, o João pequenino; são as crianças do meu coração, são quem ilude e anestesia um pouco a falta que os meus netos me fazem. Aos meus queridos amigos da Universidade Sénior; todos sorrindo ternura para mim!
Há, de certeza, mais nomes que estão no meu coração. MUITOS! mas não é possível registar, aqui, todos. Registei-os nos meus sentires.
Às vezes, acho que tudo me corre mal e que eu nada valho. Ontem, rodeada de tanta gente e de tanto carinho, cheguei a ousar pensar que, se calhar, valho alguma coisa! OBRIGADA!

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

AMANHÃ

Amanhã, para mim, é um dia especial. Escrever um livro é difícil, mas é libertador também. Publicá-lo é mais doloroso, é dar a alma à palmatória, é deixar que o olhar alheio nos invada livremente.
Amanhã, vou revisitar o meu avô, também ele publicou Prateleira de Insignificâncias, em 1941.
Amanhã, é já daqui a um bocadinho, e eu antecipo sentires exacerbados.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

JÁ NÃO HÁ CHEIROS

O céu fez-se de chumbo e ela, junto à janela, desfiava sonhos, memórias também. Setembro costumava ser o tempo dos cheiros, na velha casa. A marmelada enchia a varanda, papel vegetal por cima, para secar, as pevides de abóbora sujando o chão enquanto o doce, lume fraquinho, se fazia no fogão de seis bocas. De repente, vinham os miúdos da escola recém recomeçada, cheios de histórias para contar, de novidades, de dúvidas para esclarecer. Num instante as taças de marmelada marcadas por dedos gulosos, as pevides pisadas por pés descuidados. Depois, os banhos, as brigas infantis, e o jantar à mesa grande, conversas simultâneas e cruzadas. Com as crianças na cama, era o tempo dela e dele. Os dois olhavam o Alentejo ignorando que ali na esquina, bem perto, estava o futuro agora presente. Falavam dos filhos pequenos, das urgências que, hoje, lhe pareciam tão pouco significativas.
Esses eram outros Setembros.
Hoje, já não há cheiros e a solidão escorre nas paredes.