sábado, 29 de fevereiro de 2020

29 de Fevereiro

Faço anos. Tinha de ser num dia diferente, como eu, o meu aniversário. Quando nasci, contava a minha avó, era terça-feira de Carnaval (como eu detesto o Carnaval) e estava um calor terrível. 
Faço 60 anos. Uma data redonda, dizem-me. Como me dizem, também, que é bom fazer anos, que  a idade nos traz muita coisa boa, que ser sexagenária - que palavra feia - é um privilégio.
Discordo absolutamente. Fazer anos é dar mais um passo em direcção ao fim certo. Envelhecer, é acumular montanhas de vivências e cada vez menos possibilidades. Sim, poesia à parte, envelhecer é caminhar para a morte e eu detesto a morte. A Morte é filha da mãe, é intrusa, tem-me roubado pessoas essenciais na minha existência. 
Faço 60 anos. Tantos! E vim fazer anos longe da minha realidade, nesta absolutamente fantástica cidade de Berlim, neste espaço que já esteve dividido entre a opressão,  a ditadura, e a liberdade. Caminho nas ruas cheias, sinto o frio na cara, saboreio cafés diferentes e espanto-me com os museus sempre feitos Arte exclusiva.
Faço 60 anos. Trago na bagagem muitas desilusões, muitas perdas, muitos erros. Mas trago, também, a certeza de que tudo farei para existir plenamente em cada novo acordar. Até que a sacana da Morte venha.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Berlim

Rendo-me a Berlim. Nunca tive grande simpatia pelos alemães mas, reconheço, estou fascinada com esta cidade. São os monumentos, de braço dado com lojas e restaurantes, é a presença da guerra, são os contrastes, é a ordem e o silêncio no meio de milhões de pessoas. A praça Sony e a subida à Catedral, 265 degraus de expectativa largamente realizada, não permitirão que jamais esqueça Berlim. Senti profunda angústia no Memorial aos mais de três milhões de judeus mortos, rezei numa Igreja Protestante, vi-me reflectida no rio Speer, espantei-me na ilha dos museus,... Tenho de voltar a esta





cidade!!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

MALA FECHADA

Já fechei a mala. Vou preparada para o frio, Berlim vai receber-me com temperaturas a rondar os zero graus. Esta viagem, planeada há muito, chega num momento importante da minha vida. Porventura, todos os momentos da vida são importantes, mas a chegada dos 60 anos tem tido algum peso no meu sentir.
Já passei mais de metade da minha vida. Já devia ter cometido, por isso, todos os erros possíveis. Mas sinto que ainda há muito para errar, para acertar também.
Hoje, já fechei a mala. Amanhã, bem cedo, rumarei à cidade que já foi duas. Que Deus olhe por mim, mesmo que eu não mereça.




terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

PROPRIEDADE PRIVADA


Os meus cães, há algum tempo, brigaram no canil. O mais pequeno ficou ferido, e nunca mais os juntei. Hoje, resolvi tentar reatar amizades e soltei os três juntos. Correu muito bem! Brincaram, correram, quero crer que até tinham saudades uns dos outros.
De repente, o Zorba, o mais pequeno, o Jack Russel corajoso, entrou no canil, aberto, dos outros. Imediatamente o Boss, Serra d'Aires imponente, se indignou e o correu de lá à dentada. Percebi, então, que não é a inimizade que os afasta. É, apenas, uma questão de respeito pela propriedade privada. O Boss quer defender a sua propriedade, e eu acho muito bem. Se até os cães percebem a importância da propriedade privada, como é possível que haja humanos que não a reconhecem?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

NEVE


Gosto deste frio intenso, limpo e honesto. Bem cedo, uma camada fina de gelo cobre a neve e, hesitantes, carregamos os skis até às cadeiras. Há cores a salpicar o branco. São os lábios protegidos a azul e vermelho, são os fatos garridos, são os gorros de mil riscas arco-íris. Ajudas-me, rimos, e o ar congela-nos os pulmões aquecendo as emoções. Num instante estamos lá em cima, nas pistas, e desafiamos o frio. Fazemos a perdiz? Está boa ainda. Ou começamos pela Lloma? A meio, o café forte, o cheiro da madeira a estalar no fogo, o beijo no nariz congelado. E logo a urgência de voltar às pistas, às descidas ziguezagueadas, às gargalhadas, à alegria genuína que a neve permite.

O dia voa, as horas gastam-se na utilidade de se ser feliz e, à noite, entre a repetição narrada de muitos momentos, o sono vem de mansinho. É bom adormecer assim. Com a alma vestida de cor e a vida plena de sentido.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Não Há Castanhas em Maio


Anda, sentamo-nos ali, à sombra, conversamos um pouco. E foram. Com cuidado ela alisou o chão, empurrou os ouriços, despiu o casaco e estendeu-o. Senta-te. E ele sentou-se. Trazia os olhos cheio de azul, azul de muitos mares, carregava sal esquecido nas pregas que a pele, cansada, deixava plena de desistências e olhares. Respirou fundo, ele.  Ela, esperou.
É preciso saber esperar. É difícil dar tempo ao Tempo, deixar que o Chronos dite as regras, que os deuses menores se acoitem. E então, ele perguntou. Que árvore é esta? E ela explicou. Não te lembras do castanheiro? Não te lembras de virmos com o meu avô apanhar castanhas, não tens memória das mãos calejadas da minha avó a retalhar? E ele a sentir o marulho, a força das ondas, o apelo da utopia, daquele lugar não-lugar onde ele desejava tanto chegar. O cheiro do magusto a vir nas brumas da memória, a impor-se ao acre do sal que lhe enchia a pele.
Ah, pois, castanheiro. E apanhou uma castanha, trincou-a, e ficou a mordiscar como quem, aos poucos, saboreia a vida. Sabes, já não me lembrava do cheiro da terra, da humidade do chão, da imensidão da sombra destas árvores. Não me lembrava do chão que não mexe, dos passos sem dança.
Ela abraçou-o a medo. Onde perdera aquele homem? Ele fora seguindo o sonho, respondendo ao apelo líquido, seguindo outras ousadias, desvendando outros longes. Ela ficara. Presa à terra, firme como o velho castanheiro que a vira crescer, chorar, desesperar e sorrir também. A terra e o mar, a mesma madeira que faz barcos a abrigar a sua solidão, o vazio imenso.
Tive saudades tuas. E ele sorriu. São boas estas castanhas. Sim, são muito boas. Felizmente, os castanheiros não correm atrás de sonhos, não abandonam, não perseguem utopias e protegem com picos e coragem os frutos deliciosos. Assim fossemos nós, humanos.
Ele fechou os olhos, deixou escorregar o tronco, pousou a cabeça na saia amarrotada e continuou a morder a castanha. Sabes, às vezes a Terra é pequena demais para os sonhos de um homem. É preciso partir, para se poder voltar. Já aqui estou. Queria dizer-lhe que era tarde demais, que fizera vida, que precisava da segurança da sua quinta. Do souto onde caminhava sempre, dos picos que sabia como não picarem, do adormecer ouvindo o ramalhar junto à janela. Às vezes, é tarde, disse. Os frutos também têm um tempo, e não há castanhas em Maio.
Sem abrir os olhos, ele abraçou a coxa onde se encostara. Tive saudades tuas. Tive, talvez, saudades dos ouriços, do ramalhar do souto. Por isso voltei. Porque não há mais mundo do que o que as fronteiras dos afectos limita. Voltei. Ela deixou que os dedos percorressem sem destino os cabelos pontuados de nuvens brancas. Foi bom teres voltado, gosto de te ter aqui, de poder pisar o mesmo chão que tu. Sabes, és um pouco como as castanhas que trincas. Vives num ouriço, proteges-te com picos que não deixam, por vezes, entrar o meu eu. E, sabes também, já não tenho forças para tentar resistir aos picos…. Ele virou-se um pouco, agora olhar líquido, e confessou o vazio. Preciso de chão. Preciso da essência da terra, afinal, nós somos terra também, preciso de ti. Para navegar, agora, basta-me o teu corpo e nele quero afogar-me.
Ela fechou os olhos, entregou-se, já sem picos, livre e inteira, sob a proteção do velho castanheiro que a ninguém conta segredos alheios.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

LUGARES


Sem dúvida porque nós fazemos parte de lugares, do chão que nos sustenta, há espaços onde somos mais felizes, com os quais nos identificamos de forma quase absoluta. Acontece-me isso em Torre de Palma. A imensidão da paisagem , o castanholar das cegonhas - tantas -, o ramalhar suave das videiras, as árvores a começar a fluir, o vinho agradável, a simpatia de quem nos serve, o branco das paredes, os espelhos de água a reflectir o céu, tudo se conjuga para me fazer sentir num paraíso exclusivo.

Em Torre de Palma há um silêncio único. Sem dúvida, faz-me bem ir beber um copo a este lugar incrível do meu Alentejo!