terça-feira, 7 de abril de 2020

JÁ ESTÁ!

Apareceram os primeiros casos de Covid-19 em Portalegre. Já se sabia, esperava-se que acontecesse, era uma questão de dias. A cidade entrou em pânico e as redes sociais não param de perguntar, e de inventar, sobre os três infectados.
Tenho para mim que o pânico, a ansiedade, o medo, são os piores dos conselheiros e, muitas vezes, os causadores de maiores desgraças. Claro que a situação que vivemos é muito grave, é estranha, é exigente, obriga-nos a formas de vida que muitos de nós nunca imaginámos. No entanto, é necessário preservar a sanidade mental e não entrarmos em loucuras e desvarios.
Sabemos que muitos de nós vamos morrer, devemos evitar que esse número cresça. Mas não podemos, defendo eu, aumentar riscos com opções absurdas e perigosas. Tenhamos cuidado, fiquemos em casa o mais possível, respeitemos todos os conselhos que nos dão os profissionais de saúde, mas não queiramos ser heróis nem heroínas. Tranquilidade, bom-senso e muito desinfectante são muito necessários nestes meses!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

FRACASSANDO

Está a ser muito difícil. Compreensivelmente, cada dia mais difícil. Os mortos continuam a somar números aterradores, não parece haver fim para esta pandemia terrível. As pessoas, na sua maioria com uma imensa capacidade de adaptação e resistência, inventam e reinventam-se. Observo-as e admiro-as. Sinto que não tenho a força de muitos. 
Está a ser muito difícil este isolamento, esta solidão absoluta, a ausência dos que me são mais queridos e necessários. 
À noite, passo no quarto dos meus netos, olho os brinquedos, os livros de histórias e não tenho resposta para tantos porquês! Talvez o maldito vírus tenha sido intencionalmente criado na China para atacar a economia mundial; talvez seja uma resposta da natureza à violência dos ataques que tem sofrido; talvez seja um azar; talvez seja, como muitas outras que a história nos lembra, uma doença que terá cura. Não sei, creio que, com absoluta verdade, ninguém sabe. Mas sei que está a deixar o mundo de pernas para o ar. Sei que nunca mais a vida vai ser igual. Hoje, mais do que ontem (e temo que menos do que amanhã) tenho medo, estou infeliz, preocupada e profundamente triste.

domingo, 5 de abril de 2020

ESPERA MARIDOS

Hoje, 5 de Abril, faz anos o meu querido sobrinho António. Incrível como os meus sobrinhos fazem parte de  mim, mesmo que cresçam, mesmo que partam, mesmo que esqueçam.  
Acredito que temos a sorte de ninguém nos poder roubar afectos e memórias. Podem levar as presenças, podem até tentar encher-nos de afastamento e dor, mas as memórias boas, os gostares que cada um experimenta e vive na primeira pessoa, ninguém rouba.
A mim, como a muita gente, já  roubaram muitas esperanças, já rasgaram muitos possíveis. Mas eu guardei para mim os momentos bons, muitos, e não abro mão deles.
Hoje, dia de anos do meu António, recuperei, bem vivas, as memórias de outros aniversários, na Casa Amarela, com o meu Pai a dirigir alegremente os preparativos. O meu Pai gostava de me pedir que fizesse o espera-maridos. Era, e é, um doce rápido, com ovos açúcar e canela, que a minha avó Leonor ensinara. 
Há muitos anos que eu não fazia espera-maridos. 
Hoje, domingo solitário e chuvoso, com a alma a escorrer vazios e mágoas, resolvi fazer. Está apetitoso. E a canela sempre me traz memórias fantasiadas. Até Camões, há pouco, estava na minha cozinha provocando sentires! 

sábado, 4 de abril de 2020

RECLUSÃO

Caminhada. Sabe bem. Olho os campos, as velhas noras, as modernas antenas ao longe, as videiras e as árvores a prometerem frutos. Não há ninguém. Hoje, nem o pastor me acenou, nem as vacas estavam na rua. Gosto destes espaços, vazios de gente, plenos de promessas de que tudo há-de ficar bem. 





Caminho, sempre com o Zorba por companhia, e desfio pensares e sentires.
Afinal, e apesar de muitos pesares, sendo que o maior é não ter filhas e netos comigo, esta reclusão imposta até me está a saber bem...

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O MONTE

Há lugares que nos/me fazem sentir bem. É o sentimento telúrico, tão marcante na obra de Miguel Torga, é a certeza de que há uma essência que nos influencia (se não nos determina). O Alentejo é o meu chão. 
Hoje, a caminho do Monte, onde fui buscar borrego para a minha Páscoa solitária, enchi o olhar, a alma também, da essência deste chão. 
Os campos estão lindos, salpicados de flores de muitas cores, o verde lavado brilha ao sol e as aves cantam incansáveis. Ir ao Monte é sempre muito bom. O poial na rua, as almofadas coloridas, a conversa com as pernas esticadas ao sol, ajudaram a quebrar esta reclusão imposta pelo maldito vírus. 
Hoje, o dia há-de custar menos a passar!

quinta-feira, 2 de abril de 2020

ESPANTO

É claro que o vírus, a Covid-19, não tem cor política. Não é de esquerda, não é de direita, não se confina às águas moles do centro. O Vírus não distingue os ricos dos pobres, os governantes dos governados, os inteligentes dos burros. O vírus é, penso, a coisa mais democrática que existe. Ataca todos por igual. E exige, por isso, respostas concertadas pelo mundo, questionando a organização social, centrada no egoísmo absurdo, da sociedade de hoje. 
Eu não acredito que tudo passe, que tudo fique bem. Não ficará bem para os que morreram, e morrerão, não ficará bem para os que perderam alguém, não ficará bem para os que perderam e trabalho, não ficará bem para ninguém. 
Este vírus horrível vem exigir da humanidade uma nova forma de vida. Talvez aprendamos a dar mais valor ao essencial, talvez olhemos cada amanhecer como um privilégio. Ou talvez, pelo contrário, a miséria aumente, a tristeza cresça e as injustiças proliferem. Ninguém sabe. E o facto de não sabermos oferece-nos, acho eu, um novo direito que há muito parecia perdido: - O direito ao espanto! O direito a optar por caminhos por fazer.
Este tempo horrível, poderá, quero acreditar, levar-nos a compreender como todos dependemos de todos, como somos essencialmente sociais, como sozinhos não vivemos, vegetamos. Este vírus assassino, este mostro invisível a olho nu, pode ser a metáfora da vida que há muito levamos. Seremos capazes de nos reinventar? A minha emoção grita que sim. A minha razão cala-se. 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

ESPERANÇA

Que neura! Esgotei o dia de ontem,  terça-feira, numa neura imensa. As mensagens de vai passar, os arco-íris nas janelas garantindo que tudo vai ficar bem, exasperaram-me. Hoje, felizmente, estou muito mais razoável e enérgica. Vou começar a trabalhar! Decidi que a adaptação a novas situações, a resposta inteligente e rápida a alteração de circunstâncias, é um sinal de humanidade e eu sou (acho) humana . Levantei-me cedo e, desde as sete da amanhã, um pouco antes, aqui tenho estado, entre o zoom.pt e o Moodle, a transformar as minhas formações em sessões síncronas, assíncronas e virtualmente presenciais (parece um paradoxo, mas não é) . A vida tem de retomar a sua parte activa e eu vou contribuir.
Afinal, pensando bem, quantas vezes não fui eu já capaz de me adaptar, me transformar,  me refazer das cinzas e destroços em que a vida me deixou? Vai resultar. Não vai passar, porque o dano está cá, na pele, nos cabelos mais brancos, mas vai resultar numa nova forma de trabalhar. Talvez, quero acreditar, até seja melhor assim.