Parece que nós, portugueses, somos um povo com jeito para a representação, para o faz-de-conta. De facto, a nossa História está cheia de histórias de mentiras, de embrulhadas, de faltas de lealdade, desde logo os tempos de D. Afonso Henriques e Egas Moniz. No meu livro de História de miúda havia uma imagem de Egas Moniz, com os filhos à volta, todos vestidos de branco e com uma corda ao pescoço, oferecendo-se ao Rei de Leão (seria Leão?)por causa da deslealdade do nosso Primeiro Afonso e, sinceramente, aquela imagem impressionou-me e manteve-se presente nas minhas memórias até hoje! Pensava eu, sobretudo nas minhas noites de insónia que é quando mais penso, que eram tempos passados...
Ora, ontem à noite, parece que a mentira, a hipocrisia e a representação, voltou a fazer-se notar na figura do primeiro ministro! Confesso que não ouvi, nem vi, a entrevista. A minha alergia ao dito cujo é tão intensa, o meu desespero é tão forte, a minha tristeza é tão profunda que não sou capaz de o ver e, assim que ele aparece, mudo de canal. Ontem, fui para a dança. Só que não me livrei de o ouvir, porque os telejornais insistem em repassá-lo. Assim, com uma colher de arroz de frango a caminho da boca, fui agredida com as declarações sobre os professores. Ouvi, não queria..., o dito personagem falar de "pouca delicadeza", de "dificuldades de comunicação", e já não consegui jantar. Que ousadia!! Como se o problema fosse, apenas, o processo! Como se o mais grave e revoltante não fosse o conteúdo das medidas implementadas!!! Tenho a certeza que, se este homenzinho ganhar as eleições, o que ESPERO NÃO ACONTEÇA!, vai reassumir a sua arrogância e os ataques a todos os que trabalham. Hoje, só rezo para que a minha gente, os portugueses de verdade, não se deixem ir em representações de actores de má qualidade e impeçam o PS de ganhar!!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Afinal...
Afinal, nem tudo é mau. Se o regresso à Escola foi doloroso, desagradável, feito de repetições e tristezas, o regresso, à noite, às minhas aulas de dança foi formidável! Tinha saudades do tango, da rumba, do cha-cha-cha, da valsa, da salsa e até do kizomba que, depois de detestar, passei a adorar. Fez-me bem reencontrar a cumplicidade do meu par, o esforço posto nos passos que o professor quer perfeitos, as coreografias que eu, sempre cheia de mil coisas na alma e na cabeça, já mal lembrava. Depois de uma manhã terrível, até com chaves do carro perdidas!!, chegou a noite a ajudar-me a sobreviver. Afinal, penso agora, no silêncio absoluto do meu espaço, nem tudo é mau...
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Fim de Férias
Acabaram-se as férias. Amanhã, bem cedo, retorno à vida, à existência dolorosa, à Educação sem sentidos. Anuncia-se um ano complicado, muito complicado!, e não me sinto com forças para o enfrentar. Para complicar tudo, a minha escola tem obras: - Ruído, pó, desordem. Ai, ai... como eu queria reformar-me e poder ser EU!!!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O meu dia D
27 de Agosto de 1925. 27 de Agosto de 1981. Duas datas, na mesma data, a marcar momentos com significado para mim. Dia de anos do meu Pai. Dia que era, sempre, de grande festa em casa, de muitos amigos, mesas na rua, gargalhadas e amizade verdadeira. O meu Pai gostava de festas, de se ver rodeado de amigos, de abrir a Casa a todos aqueles que estimava, e eram tantos!, em torno de bons petiscos. Um dia eu, completa e profundamente apaixonada, resolvi tornar maior a festa dele e casei-me no mesmo dia. Foi o Dia D da minha vida, o dia em que todos os impossíveis eram verdades absolutas. A Casa voltou a engalanar-se, vieram os amigos, encheu-se a Igreja do Reguengo e, à noite, voei para Espanha numa Dyane Argent cheia de pedrinhas nos tampões das rodas, presente dos amigos (as pedrinhas, claro!). Então, há já 28 anos, o mundo parecia-me pefeito e eu, nós, achavámo-nos capazes de reinventar a existência.
Hoje, a Casa já não se enche para mim. As minhas memórias doem de saudade forte e o meu Pai faz-me a cada dia mais falta! Hoje, na Missa, vou conversar com ele e pedir-lhe que lembre ao Céu que eu existo. Hoje, em tempos de conflitos, julgamentos apressados, críticas e abandonos, a data faz doer.
Hoje, a Casa já não se enche para mim. As minhas memórias doem de saudade forte e o meu Pai faz-me a cada dia mais falta! Hoje, na Missa, vou conversar com ele e pedir-lhe que lembre ao Céu que eu existo. Hoje, em tempos de conflitos, julgamentos apressados, críticas e abandonos, a data faz doer.
domingo, 23 de agosto de 2009
Insónia
Chegou sem aviso. Não houve ruído de cascos sonoros, resfolegar de montada cansada, sequer buzinadelas estridentes ou travagens bruscas, o que, sendo menos poético, seria decerto mais real. Não chegou envolto na magia do sonho, não se fez anunciar. Chegou apenas. Trouxe nos bolsos sem fundo anos de mil vivências, olhares de riso e lágrimas, memórias sentidas e indizíveis. Deixei-o instalar-se, fiquei a olhá-lo e calei a vontade de me fazer também ouvir. Com ternura desfiou histórias que conheço bem, acolheu o meu silêncio e não discordou da minha revolta. Seguro do conforto da sua condição de não-ser, fez-se presente não existindo e pintou de cores intensas o negro da noite que esgotava sozinha. No peito largo e disponível abriguei a minha dor. Bem cedo, de manhãzinha, partiu como chegara.
Espero que volte. Sempre que a noite se fizer excessivamente comprida!
Espero que volte. Sempre que a noite se fizer excessivamente comprida!
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Desamor
Estou farta do amor. Já chateia. - Foi assim que ouvi, com decisão na voz, de uma jovem à conquista da vida. Alguma coisa dentro de mim, eterna alma romântica, estremeceu. Como se pode estar farta do amor? Como é possível enjoar-se a paixão? Fiz conversa. Conversa de desdizer, de contraversar mesmo, sentadas as duas à beira da piscina, interrompendo, de vez em quando, para um mergulho refrescante. Falei da necessidade de recuperar a vontade de amar, a fé nas relações humanas, a confiança nos afectos. Ouvi falar de desviver, de desexistências e de realidades por demais irreais. Que o amor não leva a lado nenhum, que este mundo, esta sociedade, é tão melhor quanto menos ocupada. Falou-me desta coisa da inumanidade e garantiu-me, com a frieza irónica dos jovens, que o fim do mundo é isto mesmo: - o esvaziar da essência humana. A construção e investimento numa desumanização eficaz. Metálica, até.
Contrapus a minha fé nos Homens. Falei da realização perfeita que só se consegue quando dois corpos se fazem uma alma só. Confessei que já ouvi as asas dos anjos quando, depois do Amor feito e vivido, vêm invejar a felicidade que o silêncio envolve. Riu-se de mim a minha jovem parceira. Que isso são mentiras, ficções, e, lembrando Alberto Caeiro, garantiu que a mentira está em mim. Depois, como quem põe ponto final, declarou: - Acabou o tempo dos poetas. Agora, o importante é despoetar. Fiquei dorida.
Contrapus a minha fé nos Homens. Falei da realização perfeita que só se consegue quando dois corpos se fazem uma alma só. Confessei que já ouvi as asas dos anjos quando, depois do Amor feito e vivido, vêm invejar a felicidade que o silêncio envolve. Riu-se de mim a minha jovem parceira. Que isso são mentiras, ficções, e, lembrando Alberto Caeiro, garantiu que a mentira está em mim. Depois, como quem põe ponto final, declarou: - Acabou o tempo dos poetas. Agora, o importante é despoetar. Fiquei dorida.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Rendo-me...
Fui vencida, não convencida. Rendo-me. Baixo os braços, olho o chão e tremo de indignação. Mas rendo-me! Contra tudo aquilo que defendo, com o coração em pedaços e a inteligência esfrangalhada, cumpro o disposto num qualquer decreto de lei deste país sem sentido e proponho-me para prestar provas que me permitam (?) ser professora titular! Porque cedo? Porque sou fraca! Porque não tenho vocação para heroína, porque estou cansada de lutar contra a estupidez institucional. Para me consolar, e para me levar à rendição, amigos falam-me na força da lei. Hoje, perguntavam-me se, se tivesse vivido no reinado de D. João V sendo judia, não passaria a cristã-nova, não substituiria as farinheiras por alheiras... Mas nada me consola! Nem sou judia, nem este é, por enquanto, um caso de fogueira. Sinto-me mal comigo por entrar no esquema da estupidez, por ter medo de me prejudicar na carreira docente. Por isso,movida por interesses só materiais e descrente de qualquer interesse desta tarefa, vou fazer um trabalho e vou prestar provas perante um júri ao qual nem sequer reconheço mérito ou competência!! Dói-me a minha decisão. Mas dói-me, mais ainda, a humilhação que o meu país me impõe.
Hoje, só me apetece praguejar!!
Hoje, só me apetece praguejar!!
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