sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Renovação

Bem sei que é na Páscoa, e normalmente na Primavera, que se fala de renovação. Mas hoje, ao atravessar o Alentejo, só esta palavra me assaltava. 
O mundo, depois das chuvas violentas, parece-me renovado. Os verdes, verdes moços de Garrett, fazem jus à caracterização. As árvores parecem mais frondosas, a terra brilha, fértil, pedindo mesmo para produzir. O gado, as vacas castanhas, parecem cheias de energia e olham, com desinteresse, os carros que passam perto. Gosto deste tempo! Gosto da Natureza assim, promissora e carregada de amanhã.
Infelizmente, dói-me o contraste com a vida humana que, cada vez mais, se faz de desilusão e cansaço...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

RECAÍDA

Não tenho febre, não estou com dores de coisa nenhuma. Tive uma recaída pedagógica! 
Eu tinha decidido que ia deixar-me de sonhar actividades com os meus alunos, mas desisti. Hoje, os meus meninos de 7º ano, aqueles mesmos que me tiram do sério com demasiada frequência, aqueceram a minha alma de professora e encheram-me de razões para sonhar.
Tudo aconteceu a propósito do Natal, o conto de Miguel Torga que põe o velho Garrinchas a desafiar-nos para a ternura. Os meus meninos, as pestes que me fazem cabelos brancos, vestiram-se de seriedade e fizeram uma leitura que me convenceu. Fiquei cheia de vontade de realizar outros e novos projectos, de continuar a investir no portefólio e de ficar perto deles durante muito tempo.  
Tive uma recaída pedagógica. E, curiosamente, desejo que o tempo não me cure...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Quase Natal

É quase Natal! E de nada adianta dizer que o tempo voou, que parece que ainda há pouco estavamos a comer as passas para tentar garantir, com pouco sucesso, um 2012 cheio de coisas boas...
O Natal está aí e, apesar da crise, é tempo de ir às compras e de escolher um presente para cada uma das crianças próximas, e dos adultos mais queridos. Eu sou uma defensora acérrima dos presentes de Natal! Ao contrário de muita gente, não acho que o facto de darmos presentes queira dizer que somos consumistas, ou materialistas. Para mim, pensar nos outros, passar tempos a imaginar o que cada um gostaria de receber, procurar aquele presente para aquela pessoa, é um acto de ternura e de fraternidade! Gosto de escolher os presentes que ofereço, com calma, conferindo identidade a cada um. Não é o presente que está em causa, menos anda o seu valor, é, sim, a oportunidade (cada vez mais rara) de se dizer a quem se gosta que pensamos nele/a.
Habitualmente, faço as minhas compras de Natal na minha cidade. É o presente, pequenino, que ofereço a Portalegre! Gosto de subir e descer a Rua do Comércio, de olhar rostos que conheço de sempre, de sair dizendo FELIZ Natal. Acho que é aquele telurismo (provinciano?) que me define...
Lembro-me de comprar o boneco que gatinhava, os polly pockets com malinhas, e sempre livros. Muitos livros!
Ontem, iniciei as minhas compras e cheguei a casa com o coração desfeito. A minha rua do Comércio, o coração da minha cidade, está a agonizar. Há mais espaços fechados do que abertos, há mais sorrisos tristes do que alegres, há mais que Deus nos ajude, do que Feliz Natal! Temos de fazer alguma coisa. Se morrem as pequenas comunidades, morre  a vida no que ela tem de mais verdadeiro! Este ano, gostava de fazer um desafio de ternura e afecto aos portalegrenses como eu: - Vamos fazer greve às grandes superfícies, vamos ignorar os grandes empresários que levam o dinheiro para outros países, e vamos gastar o pouco dinheiro que temos no Comércio Tradicional da nossa cidade!
Portalegre merece um presente de Natal! A nossa presença nas ruas, a nossa cumplicidade activa na luta pela sobrevivência.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

INVEJA

Penso, muitas vezes, nas razões que levam Portugal a estar, quase sempre, na cauda da Europa. Por obrigação profissional, e admito que por gosto, leio frequentemente excertos de Os Lusíadas e entusiasmo-me, sempre, com a narrativa épica das descobertas. Chego (ainda agora) a comover-me com a história do infeliz Adamastor, a revoltar-me com o destino cruel de Inês - Tu, só tu, puro Amor deste causa à molesta morte sua! - e a deliciar-me com a arte da Formosíssima Maria para mover o Pai feroz. Gosto, muito, de levar os meus alunos até Belém e de, com eles, partilhar as lágrimas de saudade e dor dos que partiram, e dos que ficaram. E, quando chego às últimas estâncias de Os Lusíadas, partilho o cansaço desalentado de Camões - No mais Musa, no mais!.
Tudo ficou em nada! O sonho morreu e, parafraseando Pessoa, o Império se desfez.
Portugal foi grande. Hoje, é humilhado e triste!
No entanto, lá fora, seja na Europa (na outra), seja na América, seja em África ou na Ásia, há portugueses que se destacam,  que produzem e que ajudam, de diversas formas, a fazer funcionar este mundo oco.
Qual será, então, a razão que leva a que, neste ractângulo virado para o mar, tudo pareça condenado a apodrecer?
Deu-me para concluir que a culpa é da inveja! (Camões já o dizia...) Somos um povo doente de inveja! Invejamos o carro do vizinho, a saia da vizinha, as férias do patrão, o ordenado do ministro, a casa do presidente, etc. Invejamos, inclusivamente, a desgraça alheia... É uma chatice quando a vizinha está doentinha e todos vão visitá-la e a nós, ali ao lado, respirando saúde, ninguém pergunta como estamos! Esta inveja endémica impede-nos, acho eu, de reconhecermos autoridade, de obedecermos e de cumprirmos. Expressões como "mas quem é que ele julga que é?" , "mas ela não manda em mim! Não é mais do que ninguém", são habituais no nosso quotidiano!
Além desta invejazinha, quase imperceptivel, há a inveja cruel, mazinha, feita de "se não é para mim, não é para ninguém"...É até assim que age a oposição ao governo, seja ela qual for!
Assim, hoje deu-me para pensar que, para diminuirmos a dívida externa, bastaria taxar a inveja! E podiamos, então, ter de volta a nossa vida relativamente desafogada, sem cortes e com subsídios!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Era boato...

Afinal, era boato. Passos Coelho garantiu que nunca falou em copagamentos na escolaridade obrigatória e, assim, fica tudo em paz. Alguns jovens continuarão a ir às aulas quando não estiverem cansados, nem tiverem nada de mais interessante para fazer; outros continuarão a tentar aprender para, um dia, poderem, finalmente, abandonar o país e obterem sucesso no estrangeiro.
 Está tudo certo e de acordo com as normas de facilitismo que, há tempo demais, imperam em Portugal!
 A indignação de quem me lê, (alguns), com a minha hipótese de fazer os faltosos e vadios sentirem o custo do seu desinteresse, já não faz sentido. Ainda bem. Ainda bem, porque eu não quero escandalizar ninguém. Mas ainda mal porque, de verdade mesmo, penso (e sinto) que tem de haver uma grande mudança nas políticas educativas se queremos, um dia, ter um país que funcione!
Às vezes, quase concordo com alguns amigos que dizem que temos o que merecemos... Se queremos só direitos, só facilidades, um estado paizinho e tutor, desresponsabilização individual e igualdade de diferentes, temos aquilo que merecemos: - Um país de ignorantes e vadios!
No entanto, eu sou portuguesa e, na sua maioria, gosto dos portugueses! Recuso-me a acreditar que estejamos fadados para a miséria em que vivemos!

domingo, 2 de dezembro de 2012

ATÉ CONCORDO

Soou, numa daquelas atoardas que nos costumam surpreender, a ideia de que os alunos do ensino secundário iriam pagar propinas. Assim, dito simplesmente assim, parece um absurdo. O ensino é obrigatório, a educação deve ser uma prioridade de um qualquer país, toda a gente deve ter direito a ela. No entanto, se analisarmos bem as coisas, talvez a medida não seja descabida... 
Nada é gratuito, tudo tem custos, e a educação também. Ora, assim sendo, que sentido faz que sejam os nossos impostos a pagar a escolaridade daqueles que não estudam, não querem aprender, não são assíduos e impedem os outros de aprender?! Acho muito bem, acho até educativo, que os alunos que não estudam, que são indisciplinados e que se arrastam anos repetidos nas escolas, sejam obrigados a pagar propinas. Deviam, mesmo, ser obrigados  a indemnizar os outros pelos danos que causam. Claro que há situações de insucesso que não dependem, exclusivamente, da vontade dos alunos. Para esses casos, teriam de ser adoptadas outras medidas (nunca mais aulas "de apoio" iguais às outras). Mas há, e cada vez mais, jovens que vão à escola só porque sim. Como poderiam ir a um café, ou até ficar no jardim a namorar. Há jovens, e falo com conhecimento real das coisas, que faltam porque têm sono... Que vão à primeira aula, e faltam à segunda porque ficam cansados; que aproveitam as aulas para se maquilharem, ou para fazerem penteados, ou para porem em dia os sms trocados com amigos. Estes jovens são, se olharmos a realidade sem emotividades excessivas, potenciais criminosos: - Prejudicam os outros deliberada e conscientemente! Deviam, por isso, pagar propinas e pagar coimas sobre cada falta dada. Estes jovens deviam ter alternativas à Escola e essas alternativas não são, NÃO PODEM SER, os actuais cursos profissionais...
Felizmente, há também jovens, e muitos, que gostam de aprender, que trabalham, que se interessam, que cumprem, que tentam desenvolver competências, que sonham com um futuro de qualidade! Há jovens, eu tenho muitos alunos assim, que têm verdadeiro prazer em aprender, em fazer cada vez melhor, em crescer para fazer um mundo diferente e melhor. E estes jovens têm o direito de ser protegidos dos outros. 
A escola inclusiva, politicamente muito correcta, corre o risco de tornar-se escola de nulidades. Exclui os bons, inclui os vadios!
Assim, eu até concordo com a ideia de, no ensino secundário, haver propinas. Para alguns.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Vazio

É feriado, hoje. Pela última vez lembraremos a vitória sobre os castelhanos, em 1640, e a ascensão ao trono do rei D. João IV e de sua mulher, a Dona Luísa de Gusmão. Lembro-me sempre da janela de Lisboa, ali no Palácio de Vila Viçosa, de onde, dizem, Dona Luísa via chegarem os mensageiros com notícias da capital. Diz a História que D. João não tinha grande interesse em ser rei, homem sensato preferia a calma do Alentejo à politiquice de Lisboa, mas que a mulher o levou a mudar de atitude. Há mulheres com grande poder! Dantes, quando eu era miúda, a banda saía à rua e nós íamos a Badajoz, comprar caramelos e passear o nosso orgulho: - Tinhamos conseguido ver-nos livres deles!
Hoje, é tudo bem diferente! Hoje, chegamos a pensar que, se calhar, teria sido muito melhor termos continuado a ser espanhóis... Eu não acho isso. Penso, mesmo, que é o facto da União Europeia ser uma união contrária à identidade que faz com que o projecto entre em falência!Hoje, Portugal é um vazio imenso, sem rumo nem identidade, perdendo até o hábito de assinalar datas que nos fazem ser o que fomos (mas já não somos).
Este último 1º de dezembro é um dia triste e soturno. Ainda bem que, amanhã, já é dia 2!