quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CONSTRUÇÕES

É cedo, hoje. É noite já, mas é bem mais cedo do que a hora a que, habitualmente, chego a casa. É cedo... E, no entanto, é tarde para muitas coisas. Para quase tudo!
Vim para casa com o trabalho em dia, dei banho ao Zorba, pus a música a tocar, passeei no Facebook, e vim conversar. Conversar com o silêncio da minha solidão, um silêncio que, sei lá porquê, se torna ruidoso em excesso. 
Aproxima-se mais um  Natal. Vão chegar os netos, vão instalar-se as memórias e as saudades. Tenho saudades cortantes de tempos que nunca foram reais! Estranho, admito. 
Tenho saudades das minhas filhas pequeninas, da ternura presente do meu homem, do abraço inteiro, dos cheiros a doces e a perú assado. Tenho saudades da neve a encher o quintal, dos narizes vermelhos colados aos vidros embaciados, das manhãs a quatro na cama, brincando e enchendo de migalhas e papel de embrulho a cama grande. Tenho, fisicamente, dores intensas por falta destas memórias construídas no meu desejo de ser!

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A ASPIRINA

Compro aspirina, tomo aspirina, há muito tempo.
Aliás, seguindo as práticas da minha avó, até tomo uma aspirina quando a irritação é demais. De facto, quando a minha tristeza é muita também tomo uma aspirina e, curiosamente, às vezes funciona.

Mas ontem, em Portalegre (claro!) aconteceu-me comprar aspirinas para sair do parque de estacionamento! Supreendidos? Só quem não conheça Portalegre!

Foi assim: fui a um Seminário ao Salão da CMP. Parei o meu carrinho no parque de estacionamento da Corredoura. A meio da sessão, precisei sair num instante e corri a buscar o carro. Estava um funcionário na entrada que me disse que teria de pagar na caixa do piso zero. Corri à caixa. Dois euros e quarenta. Tentei pagar. Não tinha moedas, não tinha senão uma nota de dez euros e outra de vinte. A máquina não aceitou. Voltei a subir. O funcionário, firme no seu posto, sugeriu-me que fosse à Tasquinha. Fui. Não havia troco, tomei um café (fiquei a dever dois cêntimos, gastei as moedinhas todas que tinha). Corri à Farmácia Romba e... comprei uma caixa de aspirinas! Voltei ao Parque . Vinte cêntimos mais caro, lá consegui pagar e sair.
Alguém poderá explicar-me por que razão estas idiotices só acontecem na minha cidade?! Alguém me explica porque razão em Portalegre as aberrações insistem em nunca mais terem fim??

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

SENSIBILIDADES

Recordo Sophia. As Pessoas Sensíveis não matam galinhas (as pessoas sensíveis comem galinhas... Sorrio na minha mágoa. 

Há tantas sensibilidades estranhas. E eu gostava de compreender, mas compreender mesmo, para depois poder aceitar (ou não), a razão das hiper-sensibilidades!
É-se sensível, manifesta-se melindre, porque nos achamos muito importantes?

É-se sensível, manifesta-se melindre, porque nos achamos perfeitos?
É-se sensível, manifesta-se melindre, porque pensamos que, para os outros, somos o centro das prioridades?
É-se sensível, manifesta-se melindre, porque somos tão pouco inteligentes que não percebemos que há vida para além do nosso umbigo?
Queria perceber. 
Mas, enquanto não percebo, vou criando carapaça. Resistência feita indiferença. Cada vez mais me preocupam menos as opiniões alheias (Hélas, antítese eficaz!). Cada vez mais me dá vontade de rir a proliferação do melindre...
Retomo Sophia. As Pessoas Sensíveis. 
Pois...

sábado, 18 de novembro de 2017

IMPOSSÍVEL

Quem nunca viveu um amor impossível, não sabe o que dói amar na clandestinidade. Porque tudo é do avesso, quando isso acontece! Um amor impossível só o é - impossível - aos olhos dos outros. Dos que opinam, julgam e condenam. Para quem ama, o Amor é sempre possível, porque real. E dói para cima de imenso, quando visto de fora se veste de impossibilidade! 
A gente distrai-se e, pimba! o Amor instala-se, ignorando as regras sociais, as línguas venenosas, e as dificuldades do quotidiano. Instala-se, acomoda-se dentro de nós e toma conta da cabeça, do coração, e até das pernas e dos braços. Sim, porque temos vontade de correr para quem amamos e de estreitar num abraço quente esse outro parte de nós.
Não devia haver amores impossíveis! 
A vida devia ser boazinha, escancarar as portas da aceitação, e deixar que os amores impossíveis acontecessem sem impossibilidades. O Amor impossível, além de nos rasgar por dentro, humilha-nos para lá do razoável. Não é justo, mesmo! Quando eu mandar, vou legitimar todo o Amor verdadeiro e, então, não haverá mais impossíveis entre duas pessoas que se querem por dentro e por fora!

domingo, 12 de novembro de 2017

PAIXÃO

Embora eu seja uma má católica, e apesar de ter com excessiva frequência crises de Fé, sempre que vou à missa, o que acontece todos os domingos, venho com algo novo que ora me apazigua, ora me incomoda, ora me faz pensar. Hoje, não fugi à regra... O senhor cónego falava da necessidade de nos apaixonarmos, garantindo que a paixão nos faz agir melhor, com mais entrega e mais vontade. Achei bonito, como princípio. 
Dei comigo a pensar nas imagens dos apaixonados felizes, com cócegas na barriga, com a convicção de que o mundo tem ritmo certo e que há possíveis a cada esquina. Depois, vim para casa lembrando as minhas paixões. 
Sou uma mulher de paixões! Apaixonei-me com a força da juventude, tinha os meus 14 anos. Era um amor para sempre. O meu primeiro namorado, aquele que me fazia tremer só por me  dar a mão na fila J do velho Crisfal, era a razão do meu existir. Achava eu, então, que íamos casar e ser muito felizes. Gostava tanto, tanto dele!
Depois, mais velha, casei, de novo apaixonada. Agora, então, era mesmo de vez. O meu vestido de noiva espelhava a minha ingenuidade... Mais uma desilusão.
O tempo passou e, hoje, quando olho à minha volta penso que a paixão só me fez (e faz) sofrer! Trabalho apaixonadamente na Educação, sou agredida e magoada; amo loucamente, sou ofendida e ignorada; luto apaixonadamente por Valores como a amizade e o respeito, sou gozada e humilhada; apaixono-me pela minha Serra, venho viver na cidade; quero apaixonadamente às minhas filhas e netos, e estão longe-longíssimo!
Se eu conhecesse o senhor cónego, assim um conhecimento de conversar das coisas, havia de lhe dizer para rever a sua confiança na paixão...

sábado, 11 de novembro de 2017

ARQUITECTA

Se eu fosse arquitecta, havia de fazer uma casa para o meu eu. 
Não para mim, para a pessoa exterior, mas sim uma casa onde pudesse viver o meu eu interior. Havia de fazer um quarto grande, cama king size de edredão branco, para deixar descansar no conforto as minhas ilusões, as mágoas e as tristezas. Seria um quarto amarelo, amarelo suave, com uma larga janela para a Serra. A minha sala teria uma lareira sem fazer fumo. Aí, eu ia deixar que os meus poetas se  instalassem para falarem de outros sentidos, bebendo comigo um tinto com canela. Havia de gostar de os ouvir discutir a força da ironia, a alegria das onomatopeias, as brincadeiras das hipálages. Na cozinha, que seria enorme e cheia de cores e cheiros, eu havia de misturar canela e alecrim, hortelã e gengibre, caril e açúcar. Seria um laboratório para criação de verdadeiros sabores de vida. 
A casa de banho, essa,  seria luminosa e o autoclismo muito eficaz. Muitíssimo eficaz! Porque eu havia de enfiar lá todas as traições que sofri, todas as mentiras que me feriram e ferem, todas as pessoas más (muito más) com que me cruzei!
Às vezes, tenho mesmo pena de não ter sido arquitecta...

domingo, 5 de novembro de 2017

PROFESSORES E MOTORISTAS

Vi, nas notícias, que um motorista de um membro do governo ganha o dobro do que ganha um professor. A primeira reacção foi de indignação. Não de surpresa, porque, sendo professora há 34 anos, sei bem como, em Portugal, se ganha escandalosamente pouco... depois da indignação, fiquei a pensar nos porquês. Encontrei muitos... 
Em primeiro lugar, creio que o desrespeito pela profissão de professor decorre da ignorância da maioria da sociedade. Entende-se que ser professor é uma coisa simples, sem responsabilidade nem consequências, que qualquer idiota pode fazer. E é um pouco verdade. 
Ensinar, não é muito complicado, ser professor é que é complicadíssimo. Aprendi a conduzir, tinha 18 anos, em Lisboa, com um instrutor que não devia ter mais do que a 4ª classe e me ensinou muito bem! Não era professor, mas ensinava... 
Para além da ignorância no que à educação (e a muitas outras áreas) diz respeito, a sociedade ainda não compreendeu como a Escola e o Mundo mudaram, e como a função do professor se tornou crucial. Hoje, é na Escola que tudo se define... Os professores podem, simplesmente, formar uma geração de vigaristas ou uma geração de gente Boa. Fazem-no diariamente. Fazem-no, uns com consciência, outros de ânimo leve, mas fazem-no. Sem dúvida,  se um médico se enganar só antecipa uma inevitabilidade, mas se um professor se enganar pode tramar uma geração inteira.
Outra razão para o desrespeito pela docência tem a ver, na minha opinião, com a atitude de alguns professores. Sim, se a maioria dos professores é excepcional, há uma minoria que o não é. Os professores que não cumprem, que apresentam atestados médicos falsos, que demoram semanas a corrigir um trabalho, que reclamam constantemente dos alunos, que não têm disponibilidade para mudar, para fazer formação, para olhar cada aluno como pessoa que é, que sempre falam mal do sistema e dos colegas, que sempre fazem greve nas sextas-feiras, que nunca olham a profissão como um privilégio, contribuem, sem dúvida, para que a classe seja olhada como menor.
Não me incomoda nada que um motorista do governo ganhe bem. Nem sequer acho que se devam comparar vencimentos. Mas chateia-me imenso, mesmo MUITO, que os professores ganhem tão pouco. 
Acho revoltante que uma pessoa, com uma licenciatura, fique colocada a centenas de quilómetros de casa, que tenha de manter duas habitações, e receba pouco mais de mil euros. É humilhante!
Creio que era Gandhi que dizia que "o desenvolvimento de um povo vê-se na forma como trata os seus animais". Eu acho que o nível cultural de uma sociedade se vê na forma como trata os seus professores!