Tem ecoado em mim um dos imensos poemas fantásticos de Sophia, Pessoas Sensíveis. Infelizmente, este poema que oiço no silêncio, não me acompanha fazendo-me sorrir mas, antes, fazendo-me pensar que ainda há muitas pessoas hipocritamente sensíveis... Pessoas que enchem textos falando do superior interesse das crianças e que, depois, permitem uma justiça vergonhosamente lenta, fecham os olhos a serviços indignamente burocráticos. Morreram mais duas crianças. Não sei se a mãe estava doente, se o pai era pedófilo, se as crianças estavam ou não mortas antes de entrarem na água. O que sei, e me dói, é que, uma vez mais, com uma ligeireza que me revolta, o estado falhou no acompanhamento a crianças que, há muito, tinham sido sinalizadas como estando em risco! Tenho vergonha por mim também. Como é possível que comente este crime à mesa do café, e que não tenha nada mais para dizer para além do é grave e indecente??
No meio desta barbaridade, que a todos diz respeito, continuo a achar que há pessoas estranhamente sensíveis... Hoje mesmo, numa aula, porque dois alunos se preparavam para fazer análise de Os Maias sem livro, e porque lhes pedi que fossem à biblioteca pedir um livro..., encontrei uma sensibilidade que me indigna também. Zangada, eu disse aos meus alunos: - Vocês acham normal estarem dispostos a perder uma hora de vida sem fazer nada? Será que a vossa vida não tem valor? - Ora uma das criaturas, um jovem muito sensível, disse-me em tom ameaçaor: - Agradeço que não faça comentários sobre a minha vida! - Ficou magoado.. É um rapaz muito sensível. Sensível, sobretudo, à necessidade de cumprir regras, de ouvir contraditórios, de respeitar o próximo.
De facto, Sophia tinha muita razão: Há pessoas sensíveis...
