domingo, 7 de junho de 2009

FONDUE DE LAGOSTA

Ao fim do dia, depois de muita reflexão e discussão, afinal o que são competências? Será possível ensinar de facto as crianças portuguesas a ler, falar e compreender? E estratégias são só opções militares? - Aconteceu o fondue de lagosta em Porto Brandão. É um lugar lindo e pobre, miserável, a ilustrar o verdadeiro Portugal: - Uma enseada romântica carregada de lixo, um edifício em escombros, um largo com estacionamento caótico, o Cristo Rei espantado e impotente, um restaurante terno com uma oferta saborosa.
Fui de barco, um barquinho sujo e velho, partindo do Porto de Belém a esforçar-se por ser moderno, bilhetes recarregáveis, entradas computorizadas, a modernidade a tornar-se dolorosamente agressiva face aos olhares gastos, à barba suja do bêbedo que, numa cantilena incompreensível, aguardava o barco onde não entrou. Depois de dez minutos de espera, oscilando sobre o Tejo irrequieto, no barquinho quase vazio, lembrei-me de Fados conhecidos, e agradeci a ausência das ninfas que, sem dúvida, iam sentir-se muito deslocadas no Tejo actual... Num instante cheguei à enseada triste.
No restaurante, com uma travessa de boa lagosta e um prato largo de frutas coloridas, bebendo uma deliciosa sangria de champanhe (o espumante português feito pretensiosismo...), vi anoitecer sobre o Padrão dos Descobrimentos, vi acenderem-se as luzes sobre a Ponte Salazar e vi Lisboa aconchegar-se no manto negro. Podia ser uma fadista, a cidade das varinas, se em vez de lixo e miséria tivesse encontrado limpeza e harmonia.
Soube-me bem o jantar. Boa companhia, boa conversa, e eu a tentar distrair os pensares das opções dolorosas que insistiam em fazer. Porto Brandão.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Tristeza imensa

Olho para dentro de mim e vejo um monte amarfanhado de desilusões e desesperanças. Olho-me no espelho e vejo as olheiras que fazem com que me perguntem se estou doente. Estou, de facto, doente. De uma doença que não passa com aspirinas, nem melhora com antibióticos, nem mata como a gripe mexicana.
A minha doença chama-se revolta sufocada! Revolta séria e funda. Revolta porque não consigo aceitar o que a sociedade está a fazer com os jovens de hoje!! Pior do que a anormalidade da avaliação dos professores, é a aprendizagem dos jovens.
Hoje, 3 de Junho de2009, numa turma de 12º ano, jovens de 17 e 18 anos insultaram-se, agrediram-se, movidos pela inveja, pela desconfiança, pelo ódio, pelo espírito mesquinho que esta sociedade promove. Jovens que, há uns anos, se uniam para puxar pelos mais fracos, agridem-se agora por décimas nas classificações finais. São jovens hipócritas, velhos por dentro, falsos e dolorosamente ajustados à sociedade actual...
Felizmente, para me animar um pouco, aconteceram momentos de afectos efectivos num almoço de despedida de outra turma. Talvez para me lembrar que a maioria não é a razão.
Como eu gosto destes miúdos! Como me dói ver raiozinhos de ódio nos olhares que deviam ser frontais e puros...Apetecia-me contar-lhes as histórias de Coimbra, memórias herdadas que me marcaram, para lhes ensinar como se constrói a essência humana, como se tece uma Amizade! O que está Portugal a fazer com a próxima geração??

terça-feira, 2 de junho de 2009

O TEMPO

O meu pior inimigo, e eu tenho muitos, é o tempo. Parece um glutão com barriga interminável, nunca fica saciado, exige devorar cada cagagésimo de segundo a uma velocidade alucinante. O tempo esgotou este doloroso ano lectivo. Num instante, um instante marcado de muita revolta, angústia, dor, mágoa, frustração, incompreensão e desilusão, chegou ao fim o ano lectivo 08/09. Para mim, ficará nas minhas memórias profissionais mais negras. Fez-se de muito sofrimento, de dolorosa solidão.
Agora, vejo partir os miúdos, três meses de inactividade (só em Portugal) e assusto-me. É que eu ainda tinha muito para viver com eles... Queria, agora, tempo de efectiva aprendizagem. Sem a maldita avaliação sumativa, com tempos de qualidade. Queria poder ir sair com eles, visitar museus, ouvir boa música, correr na praia, conversar sem campainhas inoportunas. Se eu mandasse alguma coisa, ou se alguém me ouvisse de facto, os miúdos apenas ficariam em casa em Agosto. Até lá, haveria aprendizagens de SER, reais e efectivas, feitas de cumplicidades, de diversidade e de imensa qualidade!
Mas, porque o tempo é mesmo meu inimigo, vou morrer com esta mágoa de ser professora num país que reduz a aprendizagem à instrução (pouquinha, ainda assim...)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Inhos e Inhas

Somos um país de inhos e inhas. Um país de pensamento diminuto, de ódiozinhos, de paixõezinhas, de vingançazinhas, de vidinha, de percariazinha. Sim, nem a porcaria chegamos: - Somos uma porcariazinha! Só assim se compreende, entre muitas e violentas realidades, a questãozinha que surgiu por a Escola de S. Lourenço ter recebido a medalha de ouro da cidade e a Mouzinho não. Como se a medalha trouxesse às escolas mais qualidade, mais verdade, mais prestígio... Enfim... Por uma questão de somenos importância, azedaram-se os ânimos e até o Presidente da Câmara foi à Mouzinho esclarecer as coisas!! Será possível?! Obviamente, uma questão destas nunca surgiria num país inteiro, sem inhos. Porque nesses há mais preocupação como o SER do que com o PARECER!!
Às vezes, chateia-me imenso viver no meio de tantos inhos e inhas. Apetecia-me uma verdade inteira!!

domingo, 31 de maio de 2009

FESTA DA DANÇA

Foi uma tarde cheia. De som, luz, amizade e nervoso miudinho. As crianças sempre me encantam, no ballet como no hip hop, no karaté como nas sevilhanas. Lindas, ágeis, cheias de ritmo e, sobretudo, extravasando energia. Os adultos também, nestes dias. Ficam mais bonitos, talvez reflexo da música que ecoa nos corações soltos. Este ano, saíu-me dançar um cha-cha-cha. Não tem a sensualidade do tango, sequer a imponência da valsa, mas tem muita alegria e isso faz-me bem. Senti-me solta dançando, segura nas mãos firmes do meu par que, baixinho, murmurava confiança.
Claro, com a minha sensibilidade exagerada ia borrando a maquilhagem... É que a Filipa, a minha menina-aluna sempre atrasada com um enorme coração, encheu o palco num solo de ballet que me encantou. Vi a Filipa dançar e na minha cabeça havia Álvaro de Campos, os olhos de Blimunda, a poesia de Camões a fazerem-lhe companhia. A minha Filipa refilona, hoje, rodopiando de azul, lembrou-me a força da juventude, abanou-me os pensares, fez-se um soneto no palco do Centro de Artes do Espectáculo em Portalegre!

terça-feira, 26 de maio de 2009

125 ANOS DE ESCOLA!

Estou na sala 11 da Escola Secundária de S. Lourenço, a minha escola, a mesma escola que assinala 125 anos de existência, os mesmos do Jardim Zoológico. Coincidência, decerto...
À minha frente há 24 cabeças de jovens tentando compreender Camões e "Erros meus, má fortuna, amor ardente". Há olhares compridos para os trabalhos dos colegas, há suspiros de ignorância, e alguns, poucos, sorrisos de competência. Um deles, miúdo com corpo demais para o tamanho da alma, traz uma T-shirt preta que grita:" You have to Destroy the previous generation to invent your own". Indiferente ao apelo violento, o miúdo esforça-se por descobrir o que serão os erros meus, a má fortuna também. Não me apetece ajudá-lo. Ele que cresça, que aprenda, que desvende o mundo imenso que anuncia querer destruir. Incomoda-me a gratuidade, a ligeireza, com que estes miúdos consomem ideias feitas, frases gastas, apelos ocos.Devo estar a ficar velha... Porque me apetece uma juventude original, crítica de facto, criativa e exclusiva.
Perto da janela, o Francisco estica o pescço. Mas a Mariana tem uma letra pequenina e ele desiste. Não consegue mesmo copiar. Suspira. Oh professora, bem podia ter feito um teste mais fácil. Nem respondo. Fácil demais é, por vezes, a Escola. Por isso eles se tornam velhos de quinze anos. Oh professora, o que quer dizer conjuraram? E eu a lembrar-lhes a importância de LER!!
Sol lá fora. Oiço os pássaros, chegou o Verão, riem dois homens que, por conta da Câmara, montam barraquinhas no Jardim para a Festa dos 125 anos da Escola. A tal festa, como no Jardim Zoológico! Onde haverá mais feras? Mais perigosas?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Anedotas?

Há uma anedota sobre alentejanos, uma das muitas a provar a genialidade do Alentejo, que apresenta um alentejano que, confundido com o facto do seu relógio ser ou não de ouro, responde (sabiamente) tem dias... Hoje, estou como o meu conterrâneo. Acho que a vida se faz de dias, de momentos, de antíteses e paradoxos.
De manhã, fui agredida, juro que é verdade!, pelo egoísmo e inveja instalados na cabeça de dois ou três alunos. Por ironia da humanidade, um deles eleito o melhor companheiro e premiado pelo Rotary Club (???)!! Estes jovens de idade, velhissimos de coração, magoaram-me fundo por quererem o mal dos colegas, por afirmarem, com uma violência emocional que me dilacerou por dentro, que não desejam o sucesso alheio. Fiquei com uma nuvem negra dentro de mim, ficou a doer-me a cabeça, senti-me perdida nesta existência oca que parece não ter fim.
Depois, em casa, aguardava-me uma carta fantástica de um senhor que me sente a falta na escrita. Fez-me bem! Recuperou-me (um pouco) a confiança nos homens.
Ao fim da tarde, quando cheguei exausta e cheia de frio, quem me manda ter vestido saia sem meias?, telefonei à Águeda Sena. E, do lado de lá do fio, veio uma voz alegre e sábia para o lado de cá dos meus sentires. Ri-me. Senti o abraço forte-forte que me mandou e, em silêncio, pedi ao meu Cristo que me ajude a seguir a coragem, a força, a sabedoria, a ternura e a confiança desta Senhora! Agora, já quente e quase a caminho do segredo dos lençóis, vejo a minha existência como a tal anedota: - Tem dias...