domingo, 15 de novembro de 2009

Chuva!

Fazia, e faz, muita falta a chuva. Eu gosto da chuva. Gosto de a ouvir, como agora, furiosa lá fora, gosto de a sentir em cima de mim e gosto até, imagine-se, do seu atrevimento quando se enfia pela gola e molha, gelada, as costas quentinhas. A chuva fazia falta, o meu Alentejo já tinha gretas e, acho eu, andava poeira demais pelos ares.
Agora, que a chuva chegou, voltou a minha esperança num quotidiano profissional diferente. (Profissional, porque pessoal já eu tratei disso, mesmo com sol a mais). Queria que a nova Ministra, que por acaso até já foi professora do Secundário, devolvesse a dignidade aos professores. Obviamente, teria de ter a coragem de acabar com a divisão injusta, arbitrária, indecente, da carreira. Teria de enfiar no lixo, no normal para não haver sequer hipóteses de reciclagem, o estatuto da carreira e, ao mesmo tempo, todo o sistema de avaliação. Teria de ter coragem para dizer que esta Escola, esta com a paranóia da informatização e sem um olhar para as PESSOAS, não serve! Se ela refrescasse ideias, aproveitando a chuva que cai de borla, havia de proibir turmas com mais de 20 alunos e havia de reduzir, drasticamente, o tempo que os miúdos passam enfiados na Escola.Eu gostava que a Ministra se lembrasse que os miúdos precisam de tempo para viver! Até para viver as Aventuras que ela imagina para eles...Deus queira que ela apanhe uma molha revigorante!!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mudanças

Coitado de Luís de Camões... Já morreu há mais de 500 anos e eu ainda ando a chateá-lo com o que escreveu. Dizia ele que "todo o mundo é composto de mudança" e digo eu, agora, que a mudança custa, dói, é exigente e não acontece com a simplicidade das estações do ano que se sucedem. Aliás, as próprias estações do ano também já se cansaram e, agora, mudam pouco.
Eu desejo a mudança. Queria ver mudar a Escola, a sala de aula, as atitudes, as emoções também. Queria, ainda, ser capaz de mandar às urtigas (ou a outro sítio qualquer, porventura mais desagradável ainda) as rotinas que tornam as pessoas mecanizadas, que nos prendem - Sim, a mim também - a realidades incómodas e dolorosas. Hoje, apetecia-me ser dona de uma transportadora de essências e, de repente, sem demorar nada, fazer a mudança de toda a minha realidade!!!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Avarias

Há dias assim, dias em que tudo se avaria! A máquina da loiça não avança do enxaguamento, o computador não abre o excel, a máquina da roupa tem a gaveta do detergente partida, o esquentador não dispara. Tudo parece, hoje, ter acordado para me infernizar a vida. Como se eu precisasse que me lembrassem que o inferno existe... Para complicar as coisas, a minha cabeça anda a mil, o coração a cinco mil, as emoções a dez mil! Hoje, queria entrar nas histórias da minha infância, encontrar a Alice, passear no País das Maravilhas (e não no das avarias) e ouvir o coelho branco dizer-me para escolher bem o lugar para onde quero ir. Gostava de ser menina, para pedir colo e ter a certeza, essa certeza inconsciente e boa, de que alguém havia de resolver os meus problemas.
Como já não caibo nos livros da minha infância, o corpo cresceu, tenho mesmo de fazer face à vida real... E tenho pouca vontade. Que chatice, será que também eu avariei? Ou serei avariada de origem???

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

INCRÍVEL!!!

Dia de formação. Kms feitos com a cabeça a mil à hora, o coração em sobressalto. Chegada à escola em obras, bandeira da Mota Engil, contentores, homens de capacete, ruído. Finalmente, o Bloco D e a sala certa.
Porta fechada e, para passar o tempo, conversa com a colega que chegara antes da hora. E, conversa puxa conversa, ela foi contando: - "Os professores queixam-se da avaliação, têm razão, mas o que passamos nós, os contratados, é bem pior... "Eu, curiosa, fui puxando confissões, e ela continuou: "Este ano, só tenho área de projecto. Eu, que não tenho os alunos em nenhuma disciplina, tenho a área de projecto. E, amanhã, vou começar a dar educação sexual. Estou apavorada!" Perguntei se esta professora não era, como eu, de português. "Sim, sou. Mas a educação sexual tenho de dar no projecto". E sabe como fazer isso? "Falei com uma colega de Biologia. Disse-me para nunca usar a 1ª pessoa, nunca dizer eu, ou nós, para não personalizar as coisas. E disse-me que é fundamental que fale sempre neles, nas pessoas, sem referir homens nem mulheres, para não ser acusada de segregação dos gays e lésbicas". Felizmente, a funcionária chegou, abriu a porta e eu fui preparar-me para a formação. Decorreu a sessão, falámos de novas metodologias, de sonhos, de sucessos e fracassos, mas a angústia daquela jovem colega ficou-me cravada na alma.
O que está a acontecer neste país??? Como podem acontecer barbaridades destas?? Experimento hoje uma angústia preocupada. O que vai ser destes miúdos, a quem se fala de sexo de pessoas assexuadas??? O que vai ser destes professores, lançados assim para uma tarefa violenta e contrária a todos os Valores???
Ao pé do que esta colega, e centenas de outros colegas..., estão vivendo e fazendo, que importa falar de didáctica do português ou de novas metodologias???

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Avaliação

Já foi afixado o calendário com os passos, e datas, da avaliação de desempenho docente para o próximo ano. Manteve-se o sistema da idiotice: - as arbitrariedades, as injustiças, as falsidades, as anormalidades instituídas. Os professores, os tais 120 mil que se manifestaram e depois votaram PS... - Alguém me explica como foi possível?? -, parecem acomodados e tudo decorre da mesma forma. Ouve-se dizer que é preciso voltar a imprimir os objectivos do ano passado, e eu que já eliminei os meus..., e pensa-se nas datas das aulas assistidas pelo colega titular que, tantas vezes, personifica a mediocridade!
Como pode vingar um sistema que assenta em subjectividades, em faz-de-conta, em papéis, grelhas e questões burocráticas?? Desespero! Não quero mais integrar a revolta, se ela surgir, porque acho que o esforço é inglório e, sinceramente, acho que o Ministério da Educação não merece sequer uma palavra minha. Mas, ainda assim, sofro a humilhação que a presente avaliação representa. Sofro a raiva contida contra um sistema obsoleto e estúpido! Queria ser avaliada com base no meu quotidiano lectivo, no trabalho com os meus alunos, na dinâmica e qualidade das aulas. Queria uma avaliação formativa, capaz de me ensinar a fazer melhor e não, NUNCA!, uma avaliação punitiva e castradora de inovação.
Socorro! Esta EScola fica-me escandalosamente curta!!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Conquistas e Afectos

Frequentemente, na minha vida de professora, esbarro com dificuldades, com incompreensões, com desentendimentos até. Se, com os colegas, estes facto me incomodam e perturbam (às vezes muito mais do que eu desejaria), quando com alunos desesperam-me. Desde sempre, desde os meus primeiros anos como professora, que considero os alunos a minha prioridade e, sempre, me esforço e empenho para os ajudar a crescer, para os orientar, para, mais do que ensinar-lhes português, lhes ensinar a vida.
Às vezes, felizmente, as coisas resultam. E foi o que aconteceu, no último ano lectivo, com a minha turma de 12º G. Fiz, naqueles miúdos, amigos para a Vida e nunca, mas NUNCA!, me vou esquecer da Filipa, da Joana, das Margaridas, da Carolina, da Ana, do Eduardo, da Maria João, do João, do Fábio, etc. Assim, quando a Maria João, a minha MARIA!, me veio visitar um destes sábados, eu saltei de alegria! Foi um serão com o coração aos pulos, ouvindo as novidades, entusiasmada porque a minha menina se assumiu como mulher política (filiou-se e tudo), receosa porque me falou das muitas dificuldades do novo curso.
Para mim, ser professora, muito mais do que apresentar objectivos ou cumprir horários, é ser ISTO: - Criar cumplicidades, construir amizades, despertar sentidos e sentires que ajudem a mudar o mundo de amanhã que, não esqueçamos, começou ontem!!
Obrigada miúdos, por me fazerem sentir com sentido!
Obrigada Maria, por estares a tornar-te numa mulher fantástica!!!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Esperança

Se calhar é possível.
Tenho andado numa roda-viva, de formação em formação, com aulas e reuniões pelo caminho mas, no meio de toda esta loucura profissional, tenho as rosas vermelhas, ainda perfumadas, lembrando-me que é possível dar sentido à existência. Sinto o meu coração mais mole, tenho vontade de sorrir, apetece-me brincar e voltei a acreditar naquela janela que, dizem, Deus abre sempre que fecha uma porta. Redescobrir o frisson de uma paixão, sentir de novo o coração aos pulos, acordar a cada dia fazendo desconto no tempo que falta para a plenitude, tem-me feito pensar que, se calhar, o mal deste mundo, e do meu país, é apenas ter perdido a capacidade de Amar!! Se eu fosse ministra da educação, ou se ao menos pudesse conversar com ela, havia de lhe recomendar que fizesse acções de formação sobre a capacidade de amar; que implementasse, nas Escolas, projectos de Gostar, que investisse em espaços de construção de afectos. É que sinto-me tão bem assim, apaixonada!!!