Fazia, e faz, muita falta a chuva. Eu gosto da chuva. Gosto de a ouvir, como agora, furiosa lá fora, gosto de a sentir em cima de mim e gosto até, imagine-se, do seu atrevimento quando se enfia pela gola e molha, gelada, as costas quentinhas. A chuva fazia falta, o meu Alentejo já tinha gretas e, acho eu, andava poeira demais pelos ares.
Agora, que a chuva chegou, voltou a minha esperança num quotidiano profissional diferente. (Profissional, porque pessoal já eu tratei disso, mesmo com sol a mais). Queria que a nova Ministra, que por acaso até já foi professora do Secundário, devolvesse a dignidade aos professores. Obviamente, teria de ter a coragem de acabar com a divisão injusta, arbitrária, indecente, da carreira. Teria de enfiar no lixo, no normal para não haver sequer hipóteses de reciclagem, o estatuto da carreira e, ao mesmo tempo, todo o sistema de avaliação. Teria de ter coragem para dizer que esta Escola, esta com a paranóia da informatização e sem um olhar para as PESSOAS, não serve! Se ela refrescasse ideias, aproveitando a chuva que cai de borla, havia de proibir turmas com mais de 20 alunos e havia de reduzir, drasticamente, o tempo que os miúdos passam enfiados na Escola.Eu gostava que a Ministra se lembrasse que os miúdos precisam de tempo para viver! Até para viver as Aventuras que ela imagina para eles...Deus queira que ela apanhe uma molha revigorante!!
domingo, 15 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Mudanças
Coitado de Luís de Camões... Já morreu há mais de 500 anos e eu ainda ando a chateá-lo com o que escreveu. Dizia ele que "todo o mundo é composto de mudança" e digo eu, agora, que a mudança custa, dói, é exigente e não acontece com a simplicidade das estações do ano que se sucedem. Aliás, as próprias estações do ano também já se cansaram e, agora, mudam pouco.
Eu desejo a mudança. Queria ver mudar a Escola, a sala de aula, as atitudes, as emoções também. Queria, ainda, ser capaz de mandar às urtigas (ou a outro sítio qualquer, porventura mais desagradável ainda) as rotinas que tornam as pessoas mecanizadas, que nos prendem - Sim, a mim também - a realidades incómodas e dolorosas. Hoje, apetecia-me ser dona de uma transportadora de essências e, de repente, sem demorar nada, fazer a mudança de toda a minha realidade!!!
Eu desejo a mudança. Queria ver mudar a Escola, a sala de aula, as atitudes, as emoções também. Queria, ainda, ser capaz de mandar às urtigas (ou a outro sítio qualquer, porventura mais desagradável ainda) as rotinas que tornam as pessoas mecanizadas, que nos prendem - Sim, a mim também - a realidades incómodas e dolorosas. Hoje, apetecia-me ser dona de uma transportadora de essências e, de repente, sem demorar nada, fazer a mudança de toda a minha realidade!!!
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Avarias
Há dias assim, dias em que tudo se avaria! A máquina da loiça não avança do enxaguamento, o computador não abre o excel, a máquina da roupa tem a gaveta do detergente partida, o esquentador não dispara. Tudo parece, hoje, ter acordado para me infernizar a vida. Como se eu precisasse que me lembrassem que o inferno existe... Para complicar as coisas, a minha cabeça anda a mil, o coração a cinco mil, as emoções a dez mil! Hoje, queria entrar nas histórias da minha infância, encontrar a Alice, passear no País das Maravilhas (e não no das avarias) e ouvir o coelho branco dizer-me para escolher bem o lugar para onde quero ir. Gostava de ser menina, para pedir colo e ter a certeza, essa certeza inconsciente e boa, de que alguém havia de resolver os meus problemas.
Como já não caibo nos livros da minha infância, o corpo cresceu, tenho mesmo de fazer face à vida real... E tenho pouca vontade. Que chatice, será que também eu avariei? Ou serei avariada de origem???
Como já não caibo nos livros da minha infância, o corpo cresceu, tenho mesmo de fazer face à vida real... E tenho pouca vontade. Que chatice, será que também eu avariei? Ou serei avariada de origem???
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
INCRÍVEL!!!
Dia de formação. Kms feitos com a cabeça a mil à hora, o coração em sobressalto. Chegada à escola em obras, bandeira da Mota Engil, contentores, homens de capacete, ruído. Finalmente, o Bloco D e a sala certa.
Porta fechada e, para passar o tempo, conversa com a colega que chegara antes da hora. E, conversa puxa conversa, ela foi contando: - "Os professores queixam-se da avaliação, têm razão, mas o que passamos nós, os contratados, é bem pior... "Eu, curiosa, fui puxando confissões, e ela continuou: "Este ano, só tenho área de projecto. Eu, que não tenho os alunos em nenhuma disciplina, tenho a área de projecto. E, amanhã, vou começar a dar educação sexual. Estou apavorada!" Perguntei se esta professora não era, como eu, de português. "Sim, sou. Mas a educação sexual tenho de dar no projecto". E sabe como fazer isso? "Falei com uma colega de Biologia. Disse-me para nunca usar a 1ª pessoa, nunca dizer eu, ou nós, para não personalizar as coisas. E disse-me que é fundamental que fale sempre neles, nas pessoas, sem referir homens nem mulheres, para não ser acusada de segregação dos gays e lésbicas". Felizmente, a funcionária chegou, abriu a porta e eu fui preparar-me para a formação. Decorreu a sessão, falámos de novas metodologias, de sonhos, de sucessos e fracassos, mas a angústia daquela jovem colega ficou-me cravada na alma.
O que está a acontecer neste país??? Como podem acontecer barbaridades destas?? Experimento hoje uma angústia preocupada. O que vai ser destes miúdos, a quem se fala de sexo de pessoas assexuadas??? O que vai ser destes professores, lançados assim para uma tarefa violenta e contrária a todos os Valores???
Ao pé do que esta colega, e centenas de outros colegas..., estão vivendo e fazendo, que importa falar de didáctica do português ou de novas metodologias???
Porta fechada e, para passar o tempo, conversa com a colega que chegara antes da hora. E, conversa puxa conversa, ela foi contando: - "Os professores queixam-se da avaliação, têm razão, mas o que passamos nós, os contratados, é bem pior... "Eu, curiosa, fui puxando confissões, e ela continuou: "Este ano, só tenho área de projecto. Eu, que não tenho os alunos em nenhuma disciplina, tenho a área de projecto. E, amanhã, vou começar a dar educação sexual. Estou apavorada!" Perguntei se esta professora não era, como eu, de português. "Sim, sou. Mas a educação sexual tenho de dar no projecto". E sabe como fazer isso? "Falei com uma colega de Biologia. Disse-me para nunca usar a 1ª pessoa, nunca dizer eu, ou nós, para não personalizar as coisas. E disse-me que é fundamental que fale sempre neles, nas pessoas, sem referir homens nem mulheres, para não ser acusada de segregação dos gays e lésbicas". Felizmente, a funcionária chegou, abriu a porta e eu fui preparar-me para a formação. Decorreu a sessão, falámos de novas metodologias, de sonhos, de sucessos e fracassos, mas a angústia daquela jovem colega ficou-me cravada na alma.
O que está a acontecer neste país??? Como podem acontecer barbaridades destas?? Experimento hoje uma angústia preocupada. O que vai ser destes miúdos, a quem se fala de sexo de pessoas assexuadas??? O que vai ser destes professores, lançados assim para uma tarefa violenta e contrária a todos os Valores???
Ao pé do que esta colega, e centenas de outros colegas..., estão vivendo e fazendo, que importa falar de didáctica do português ou de novas metodologias???
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Avaliação
Já foi afixado o calendário com os passos, e datas, da avaliação de desempenho docente para o próximo ano. Manteve-se o sistema da idiotice: - as arbitrariedades, as injustiças, as falsidades, as anormalidades instituídas. Os professores, os tais 120 mil que se manifestaram e depois votaram PS... - Alguém me explica como foi possível?? -, parecem acomodados e tudo decorre da mesma forma. Ouve-se dizer que é preciso voltar a imprimir os objectivos do ano passado, e eu que já eliminei os meus..., e pensa-se nas datas das aulas assistidas pelo colega titular que, tantas vezes, personifica a mediocridade!
Como pode vingar um sistema que assenta em subjectividades, em faz-de-conta, em papéis, grelhas e questões burocráticas?? Desespero! Não quero mais integrar a revolta, se ela surgir, porque acho que o esforço é inglório e, sinceramente, acho que o Ministério da Educação não merece sequer uma palavra minha. Mas, ainda assim, sofro a humilhação que a presente avaliação representa. Sofro a raiva contida contra um sistema obsoleto e estúpido! Queria ser avaliada com base no meu quotidiano lectivo, no trabalho com os meus alunos, na dinâmica e qualidade das aulas. Queria uma avaliação formativa, capaz de me ensinar a fazer melhor e não, NUNCA!, uma avaliação punitiva e castradora de inovação.
Socorro! Esta EScola fica-me escandalosamente curta!!
Como pode vingar um sistema que assenta em subjectividades, em faz-de-conta, em papéis, grelhas e questões burocráticas?? Desespero! Não quero mais integrar a revolta, se ela surgir, porque acho que o esforço é inglório e, sinceramente, acho que o Ministério da Educação não merece sequer uma palavra minha. Mas, ainda assim, sofro a humilhação que a presente avaliação representa. Sofro a raiva contida contra um sistema obsoleto e estúpido! Queria ser avaliada com base no meu quotidiano lectivo, no trabalho com os meus alunos, na dinâmica e qualidade das aulas. Queria uma avaliação formativa, capaz de me ensinar a fazer melhor e não, NUNCA!, uma avaliação punitiva e castradora de inovação.
Socorro! Esta EScola fica-me escandalosamente curta!!
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Conquistas e Afectos
Frequentemente, na minha vida de professora, esbarro com dificuldades, com incompreensões, com desentendimentos até. Se, com os colegas, estes facto me incomodam e perturbam (às vezes muito mais do que eu desejaria), quando com alunos desesperam-me. Desde sempre, desde os meus primeiros anos como professora, que considero os alunos a minha prioridade e, sempre, me esforço e empenho para os ajudar a crescer, para os orientar, para, mais do que ensinar-lhes português, lhes ensinar a vida.
Às vezes, felizmente, as coisas resultam. E foi o que aconteceu, no último ano lectivo, com a minha turma de 12º G. Fiz, naqueles miúdos, amigos para a Vida e nunca, mas NUNCA!, me vou esquecer da Filipa, da Joana, das Margaridas, da Carolina, da Ana, do Eduardo, da Maria João, do João, do Fábio, etc. Assim, quando a Maria João, a minha MARIA!, me veio visitar um destes sábados, eu saltei de alegria! Foi um serão com o coração aos pulos, ouvindo as novidades, entusiasmada porque a minha menina se assumiu como mulher política (filiou-se e tudo), receosa porque me falou das muitas dificuldades do novo curso.
Para mim, ser professora, muito mais do que apresentar objectivos ou cumprir horários, é ser ISTO: - Criar cumplicidades, construir amizades, despertar sentidos e sentires que ajudem a mudar o mundo de amanhã que, não esqueçamos, começou ontem!!
Obrigada miúdos, por me fazerem sentir com sentido!
Obrigada Maria, por estares a tornar-te numa mulher fantástica!!!
Às vezes, felizmente, as coisas resultam. E foi o que aconteceu, no último ano lectivo, com a minha turma de 12º G. Fiz, naqueles miúdos, amigos para a Vida e nunca, mas NUNCA!, me vou esquecer da Filipa, da Joana, das Margaridas, da Carolina, da Ana, do Eduardo, da Maria João, do João, do Fábio, etc. Assim, quando a Maria João, a minha MARIA!, me veio visitar um destes sábados, eu saltei de alegria! Foi um serão com o coração aos pulos, ouvindo as novidades, entusiasmada porque a minha menina se assumiu como mulher política (filiou-se e tudo), receosa porque me falou das muitas dificuldades do novo curso.
Para mim, ser professora, muito mais do que apresentar objectivos ou cumprir horários, é ser ISTO: - Criar cumplicidades, construir amizades, despertar sentidos e sentires que ajudem a mudar o mundo de amanhã que, não esqueçamos, começou ontem!!
Obrigada miúdos, por me fazerem sentir com sentido!
Obrigada Maria, por estares a tornar-te numa mulher fantástica!!!
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Esperança
Se calhar é possível.
Tenho andado numa roda-viva, de formação em formação, com aulas e reuniões pelo caminho mas, no meio de toda esta loucura profissional, tenho as rosas vermelhas, ainda perfumadas, lembrando-me que é possível dar sentido à existência. Sinto o meu coração mais mole, tenho vontade de sorrir, apetece-me brincar e voltei a acreditar naquela janela que, dizem, Deus abre sempre que fecha uma porta. Redescobrir o frisson de uma paixão, sentir de novo o coração aos pulos, acordar a cada dia fazendo desconto no tempo que falta para a plenitude, tem-me feito pensar que, se calhar, o mal deste mundo, e do meu país, é apenas ter perdido a capacidade de Amar!! Se eu fosse ministra da educação, ou se ao menos pudesse conversar com ela, havia de lhe recomendar que fizesse acções de formação sobre a capacidade de amar; que implementasse, nas Escolas, projectos de Gostar, que investisse em espaços de construção de afectos. É que sinto-me tão bem assim, apaixonada!!!
Tenho andado numa roda-viva, de formação em formação, com aulas e reuniões pelo caminho mas, no meio de toda esta loucura profissional, tenho as rosas vermelhas, ainda perfumadas, lembrando-me que é possível dar sentido à existência. Sinto o meu coração mais mole, tenho vontade de sorrir, apetece-me brincar e voltei a acreditar naquela janela que, dizem, Deus abre sempre que fecha uma porta. Redescobrir o frisson de uma paixão, sentir de novo o coração aos pulos, acordar a cada dia fazendo desconto no tempo que falta para a plenitude, tem-me feito pensar que, se calhar, o mal deste mundo, e do meu país, é apenas ter perdido a capacidade de Amar!! Se eu fosse ministra da educação, ou se ao menos pudesse conversar com ela, havia de lhe recomendar que fizesse acções de formação sobre a capacidade de amar; que implementasse, nas Escolas, projectos de Gostar, que investisse em espaços de construção de afectos. É que sinto-me tão bem assim, apaixonada!!!
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