Desligou a televisão, fechou os jornais, baixou a tampa do computador e puxou a manta quentinha, grande invenção o polar!, quase até aos olhos. Estava cansada de problemas, do pessimismo vigente, do que considerava ser um ataque à sua sanidade mental, esse anúncio constante da crise sem saída.
Talvez a crise fosse uma verdade, tudo indicava que era uma inegável realidade, ela sentia-o na carteira, no trabalho, quase na pele. Mas não compreendia como se poderia combater o flagelo destruindo o sonho, limitando horizontes, escavacando esperança. Não defendia a mentira, o deixa-andar, mas sentia que, continuando com o cinzentismo vigente, em breve a escuridão seria irrecuperável... Lembrava Umberto Eco "Não é maldizendo a escuridão, nem apagando as poucas luzes que restam, que se constroem novos possíveis!" E tinha de haver novos possíveis! Tinha de ser possível recuperar vontades, inovar, restaurar sonhos e concretizar projectos. Pensava nos seus alunos, jovens num país moribundo, e não percebia as opções dos dirigentes. Apetecia-lhe gritar alto o seu descontentamento! Não lhe apetecia continuar sendo mais uma no rebanho, quieta, sentada, aceitando o pasto que lhe era dado...
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Benzina
"Este governo não cai, porque não é um edifício. Limpa-se com benzina, porque é uma nódoa!"
Eça de Queirós, 1885
Oiço as notícias, folheio os jornais e penso que, se calhar, não há benzina que chegue na actualidade...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Mar Cantábrico
Parou no miradouro del Fito. Subiu a escada íngreme e mergulhou o olhar cansado no mar imenso. Podia ser Monet, podia ser Degas até. Era uma tela imensa que se lhe oferecia, calma, real, permitindo-lhe descansar os sentidos e dar largas à emoção. Fora um percurso difícil, mapa confuso, avanços e recuos, pedidos de ajuda às gentes locais. A dada altura, pensara mesmo em desistir. Mas, felizmente, fora perseverante e não perdera aquele espectáculo único.
Alguém lhe tinha dito que a água sempre amacia e embeleza a paisagem, ouvia as palavras no eco da memória, mas sentia que, ali, havia mais do que água suavizante. Havia as montanhas que sempre a encantavam! Surgiam picos agrestes que, num abraço forte, protegiam aquele mar espelhado.
Sentiu o vento frio, enrolou-se no casaco, mas não recuou. Queria ter o poder de prolongar, para sempre?, a paz daquele momento.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Covadonga
Incrustada na rocha, num penhasco agreste, está a capelinha de homenagem à Senhora de Covadonga. Conta a lenda que ali rezou Pelayo, 1º Rei de Espanha, antes de dar início à Reconquista Cristã. Eram tempos de outros heróis, de combates violentos mas leais, de inimigos de rosto descoberto e peito aberto à morte por um ideal.
Hoje, na modernidade, na era da informática e do mediatismo, a violência faz-se de traição, de colarinho branco, de exploração dos mais fracos, de injustiças, de hipocrisia, de falsidade. No mundo actual, os nossos principais inimigos fazem leis, tomam medidas que prejudicam os cidadãos e assinam sentenças de morte lenta com canetas de ouro. Hoje, em vez de covas milagrosas, temos buracos muito-muito negros a marcarem a nossa existência.
Hoje, na modernidade, na era da informática e do mediatismo, a violência faz-se de traição, de colarinho branco, de exploração dos mais fracos, de injustiças, de hipocrisia, de falsidade. No mundo actual, os nossos principais inimigos fazem leis, tomam medidas que prejudicam os cidadãos e assinam sentenças de morte lenta com canetas de ouro. Hoje, em vez de covas milagrosas, temos buracos muito-muito negros a marcarem a nossa existência.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Os Lagos
Surgem na sequência das curvas, lindos e pacificadores, os lagos dos Picos da Europa. Para se chegar lá é preciso subir, subir, curvar, recurvar, encolhermo-nos para passarem os carros em sentido contrário e olharmos, com susto, os desfiladeiros que limitam as bermas. Mas vale o risco, o esforço e o friozinho de arrepiar a espinha. É que a paisagem é soberba!!
Os lagos interrompem a violência dos altos penhascos, amaciando a vista, sugerindo que, mesmo nos espaços mais agrestes, nas situações mais difíceis, pode surgir uma nova oportunidade, uma nova paisagem. Fernando Pessoa dizia "Eu sou a minha própria paisagem". Eu prefiro a paisagem que os meus olhos abarcam. É mais tranquilizadora!
Os lagos interrompem a violência dos altos penhascos, amaciando a vista, sugerindo que, mesmo nos espaços mais agrestes, nas situações mais difíceis, pode surgir uma nova oportunidade, uma nova paisagem. Fernando Pessoa dizia "Eu sou a minha própria paisagem". Eu prefiro a paisagem que os meus olhos abarcam. É mais tranquilizadora!
domingo, 9 de janeiro de 2011
Mosteiro de Covadonga
Surge depois de uma curva, altaneiro, firme, impressionante, chocante até. Provoca pasmos, olha ali, incrível, lindo, e, à medida que nos aproximamos, aos gritos surpresos impõe-se o silêncio.
O monumento romântico, de torres pontiagudas e janelas trabalhadas, está limpo e indiferente aos mil olhares, à surpresa causada, à admiração provocada. No adro, bélico, Pelayo lembra que, às vezes, não há espadas que cheguem para impor os sonhos. Do outro lado do monte agreste, em covas naturais, o lugar primeiro, a cova de Covadonga.
No percurso para o Santuário, o túmulo do 1º rei de Espanha, Pelayo, sem grandezas, ornamentado por simples fores silvestres. Caminho por ali com o silêncio por companhia. Tento acalmar o galope do meu coração, mas não contenho o sentimento de insignificância que experimento. O que sou eu, face à bruteza bela daquele lugar? Que sentido fazem as minhas angústias, perante a força de uma Natureza esmagadora?
Rezo em silêncio. Talvez à Senhora da Covadonga, talvez ao Criador, talvez ao meu Cristo companheiro ou, talvez, finalmente, apenas à força secreta que faz, ali, com que as minhas lágrimas se soltem livres.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Carteira de Mulher
Trazia mil coisas na carteira. Ria-se sempre que, tantas e tantas vezes, ouvia comentar a imensidão que pode carregar uma carteira de mulher e, secretamente, pensava na sua. Trazia a escova, o dinheiro, os cartões, a agenda, o bloco de notas, a caneta, a esferográfica, as pastilhas, o telemóvel, as fotografias (tentativa infrutífera de prender o passado), as chaves, os lenços, os cartões, os talões de bilhetes de espectáculos que mereciam uma memória especial´, às vezes um leopardo ou um leão perdidos pelo neto. De vez em quando, arrumava a carteira. Despejava tudo em cima da cama, sacudia o fundo, e voltava a colocar as mesmas coisas, incapaz de se desfazer fosse do que fosse.
Só uma coisa se recusava a guardar na carteira: - Os seus sonhos e projectos!! Esses, ainda que por vezes tornando-se pesados, mantinha-os trancados no fundo do coração...
Só uma coisa se recusava a guardar na carteira: - Os seus sonhos e projectos!! Esses, ainda que por vezes tornando-se pesados, mantinha-os trancados no fundo do coração...
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