quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dia do Professor ?

Deveria eu estar hoje de parabéns, estar em festa, ir passear e celebrar o dia do professor. É que eu sou professora há já 28 anos!
Só que, ultimamente, tenho vivido experiências profissionais tão traumatizantes que não me apetece festejar.
Eu acredito na importância do que faço, esforço-me por fazer o melhor que sou capaz, não fujo ao trabalho, vou com os alunos descobrindo a vida, construindo saberes. Com eles, fui já até Bruxelas, Paris, Estrasburgo, Bristol, Stavanger (Noruega), Espanha, Itália, Porto, Lisboa, Coimbra, sei lá mais onde. Com eles vivi  (e vivo) alguns dos melhores momentos da minha vida. Com eles já passei, com erros eventuais da minha matemática deficiente, cerca de 9125 dias, 219000 horas. É tempo!!
Não é dos meus alunos que me queixo. Eles ouvem-me, creio que me compreendem, tecem laços comigo e deixam-me saudades quando partem. Às vezes, de longe, procuram-me e eu fico sempre feliz por poder reencontrá-los. Ser Professor, para mim, é fascinante, é descobrir sentido para a vida, é poder ajudar gerações a serem Pessoas inteiras, é ser agente de um Humanismo cada vez mais necessário no mundo.
No entanto, desempenhar a profissão de professor, hoje, em Portugal, é ser-se humilhado, é sofrer, é ser-se capacho de uma sociedade acéfala e sem nenhum respeito pela cultura e pelo saber - Como poderia respeitar-se o que não se conhece? .
Eu hoje não estou a festejar nada. Porque o meu ser Professora não tem nada a ver com estas celebrações hipócritas e carregadas de banalidades.
Hoje, neste feriado, eu esgoto o tempo preparando aulas, criando textos e, para me homenagear, logo à noite vou trazer para junto de mim todos os verdadeiros professores que conheço, vou trancar a porta dos sentires aos outros, e nessa boa companhia vou rever (pela centésima vez?) o Clube dos Poetas Mortos!

República

Não sou monárquica. Não por ser crente nas vantagens da República, mas, e apenas, porque, para mim, a Liberdade é fundamental e, assim, não posso aceitar que um indivíduo nasça condenado a ser Rei, ou súbdito, ou moço de estrebaria ou seja lá o que for. Para mim, cada ser humano deve ver preservada a sua liberdade de escolha e não imagino o que seja nascer com um destino já  (relativamente) traçado.
No entanto, não consigo deixar de achar ridícula esta república portuguesa e, mais ainda, estes festejos ocos de sentido. Afinal, festejamos o quê? A liberdade que os republicanos durante mais de 40 anos nos confiscaram? O sucesso de um país à  beira da bancarrota? A democracia feita de opacidades e injustiças? A mendicidade crescente nas ruas? A tristeza de um povo que, embora sem jugo real, continua de olhos postos no chão?
Hoje, bem cedo, encontrei a banda da minha cidade (zinha) tocando na rua. Iam alinhados, botões reluzentes, fizeram-me lembrar um fado cantado pelo Nuno da Câmara Pereira de que gosto bastante mas, simultaneamente, senti que aquela música não me alegra.
Festejar a república? Nem a das bananas, porque a Madeira me faz chorar...

Disparates - Só! (Também tenho os meus direitos)

Na minha Serra, lá mesmo em baixo quase a entrar na cidade, fica a Fonte dos Amores. Agora está seca, a água não corre, mas o espaço envolvente não está abandonado, um eufemismo para dizer que está ignorado, e ainda existem bancos de pedra, candeeiros de ferro e, claro, os Amores. Quando desço a Serra, quase todos os fins de tarde, vou até junto deles e sento-me para recarregar as baterias que gastarei na subida. Hoje, olhei para eles e reparei que até nas estatuetas os papéis da mulher e do homem são distintos. Fiquei satisfeita, porque eu, Mulher, acho que ser Mulher é um privilégio e, por isso, gosto quando vejo que a Arte reconhece a diferença.
Há coisas só de Mulheres, e coisas só de homens (já oiço os protestos indignados das feministas ferrenhas...), e as coisas de Mulher denunciam qualidade, subtileza, refinamento, que as coisas de homem (as maiúsculas e minúsculas não são acidentais) não têm (não sei o que têm as coisas de homens). Para mim, homens e Mulheres são diferentes e pronto. Não há melhores nem piores, mas há diferentes!
Nesta estátuas, a água (quando corria) estava mais próxima da boca do homem do que da da Mulher. Ele bebia primeiro, considerava-se o mais importante. Quantas vezes isto não acontece ainda? Ainda hoje, séc. XXI, há homens, e não são poucos nem pertencem a minorias ditas socialmente excluídas, que julgam que a Mulher lhes deve obediência, que devem ver sempre cumpridos os seus desejos. Felizmente, para a paz do mundo, as Mulheres conseguem, quase sempre, desobedecer-lhes em obediência cega... 
Faz-me confusão como, estando, aparentemente, a mulher tão próxima do homem, socialmente tão igualados nos direitos e deveres, na prática ainda há tantos homens a matar a sede antes das Mulheres.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Revolta triste

Eu sei que a idade, e a vida, me deveriam ter já ensinado a aceitar tudo sem revolta nem espanto. Devia ser capaz de manter o distanciamento, de encolher os ombros e sorrir face às aberrações do quotidiano. Devia. Pois, eu devia muita coisa, mas não consigo!!
É tarde, a noite está escura, e eu estou aqui teclando o meu desalento, a minha revolta, a minha frustração também. Eu não consigo aceitar, simplesmente aceitar, que o meu país me force a desempenhar mal a minha profissão, a pactuar com burlas que apelidam de educação.
Ontem, vivi uma situação profissional que nunca vou esquecer! Exigem-me que finja que ensine, mas que, de verdade, reduza ao mínimo os níveis de desempenho; exigem-me que pactue com uma formação profissional que deve ser, parece, apenas uma ocupação dos meninos. Dão-me uma turma de um Curso Profissional com 26 alunos, onde há, no mínimo, quatro indivíduos sinalizados como tendo necessidades educativas especiais (NEE) e querem que eu os integre, que os faça progredir (ainda que não aprender). E eu não sei como fazer isto. Nunca, no meu processo de formação, já longo, aprendi como ajudar alunos com estas caracteristícas a aprender e, com certeza, há-de haver estratégias específicas para o fazer. Mandam-me dar aulas de apoio, mais do mesmo..., e eu sei que essa não é a estratégia adequada!
Será que estes miúdos têm culpa das deficiências que têm? E eu tenho culpa de não ser competente nestas áreas? Sinto que o meu país desaprendeu a Verdade, esqueceu o humanismo e se viciou no faz de conta.
Sinto-me, profissionalmente, frustrada. Sinto que estou a desempenhar mal a minha função e isso revolta-me.
Dizem-me os colegas e os amigos que me conforme. Que de nada serve a minha irritação, a não ser para me consumir. Eu sei que têm razão. Sei que a minha revolta de nada serve, que estes miúdos especiais vão continuar a ser enganados por professores - EU - que fingem que os fazem aprender! Que os outros, os que querem mesmo ser profissionais, vão ficar aquem das suas expectativas, mas, mesmo sabendo tudo isto, sofro horrivelmente!
São quase 4 da manhã e o sono não vence as lágrimas que me atacam.
O meu país é um mau país!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Vulgar

Todos os domingos, pela manhã, faziam aquele percurso, íngreme, e sentavam-se, ora envoltos na samarra grossa, ora abanando-se com o leque espanhol, vendo o mundo de cima. Um bocadinho de mundo, do seu mundo. A conversa começava sempre com um silêncio longo, para recuperar o fôlego, para arrumar os sentires, para eliminar as repetições, para selecionar o tema, para se sentirem vivos, ali, ainda. Se lhes perguntassem há quantos anos repetiam a mesma subida, nenhum dos dois saberia dizer. Nem lhes interessava saber. Sabiam que fora um dia, depois de vidas distintas, de passados cumpridos em lugares diferentes, que se tinham encontrado e unido. Tinham, os dois, a vida, o resto dela, livre para cumprir a gosto, ou a possível?, e, fazendo-se surdos à crítica colectiva, virando as costas à má-língua abundante, tinham acordado, uma manhã, abraçados e unidos. Desde então, não mais se tinham largado e, sentiam-no, eram um só desde sempre. Pelo menos, desde que o sempre tinha sentido. Aquele banco, aquele lugar, era o seu ponto de oração, o seu lugar de fé nos possíveis. E subiam sempre, deixando o carro longe, a velha calçada que a fazia torcer os pés e apoiar-se nele.
Outra vez ali estavam. Ela encostada a ele, calados, vendo lá em baixo a vida a acordar. Era muito cedo, apenas viam as costas das águias, o voo dançado das folhas e algum fumegar nas chaminés distantes.
A conversa surgiu então, agora feita de palavras quentes, murmuradas quase. Desfolharam a semana, as diferentes profissões, as preocupações comuns, a crise crescente e assustadora. Era bom estarem de acordo muitas vezes, como era bom discordarem muitas vezes também. Ela, sempre ela e o romantismo exagerado, beijou-o ternamente murmurando - "desculpa a vulgaridade, perdoa a banalidade, não te rias da saloiice, mas eu amo-te mesmo!Como dizer-te outra coisa, se o que eu quero mesmo dizer-te é que te amo?". Ele sorriu num beijo fundo que, ela sentia-o, era o aceitar cúmplice da declaração vulgar. Mas tão verdadeira!

domingo, 2 de outubro de 2011

Al Mossassa

Todos os anos é assim: - os mouros voltam a Marvão, enchem a velha vila de aromas estranhos e a história ganha vida. Os turistas, muitos, enchem as ruas, os automóveis ficam longe, a subida faz-se ofegando, a descida sorrindo já. A rua principal de Marvão, onde, tantas vezes, caminho imaginando histórias, é ocupada por tendas que oferecem chás, ginjinhas (deliciosas), túnicas coloridas, dança do ventre (algumas do barril) e reconstituições de profissões já desaparecidas. Voltam as forjas, as amêndoas acabadas de tostar, a cerveja artesanal, as primeiras castanhas da época e maçãs de Bravo absolutamente fantásticas. Há ainda os barros, os produtos de cortiça, e os muitos olá! tudo bem sorridentes e descontraídos.
Eu prefiro Marvão sem Al Mossassa. Prefiro Marvão silencioso, as ruas húmidas e cheias de mistério, a possibilidade de entrar com o meu automóvel e estacionar lá bem no alto, junto às ameias. Mas reconheço a importância destas iniciativas para promover, e divulgar, uma vila linda e uma região que tem muitas coisas gostosas, muita História rica e muitas oportunidades por explorar. Ontem, há pouco, o castelo de Marvão foi assaltado por hordas de árabes empunhando espadas mal afiadas (felizmente). Acho que os cristãos os venceram, mas não sei por quanto tempo...

sábado, 1 de outubro de 2011

Bluff

Não sei jogar Póker. Aliás, tirando o King (sem fazer contas) não sei jogar às cartas, nem gosto de jogos de cartas. Não sei fazer bluff, e tenho dúvidas sobre a necessidade de aprender a fazê-lo. Assim, fiquei muito surpreendida quando me confrontei com o bluff que é feito em torno dos cursos profissionais. Os alunos dos cursos profissionais, pagos pelo POPH (não sei muito bem o que é isto) têm regalias sem fim: - Não pagam materiais, não pagam visitas de estudo, não pagam batas para trabalharem no laboratório, têm direito a ver repostas as aulas sempre que faltam, têm, enfim, todos os apoios de que precisam. Estes alunos, teoricamente, pretendem adquirir competência e qualificação profissional. Teoricamente. Na prática, e é aqui que começa o bluff, a maior parte destes alunos não quer trabalhar, não quer estudar, não quer fazer nada! Na sua maioria, estes alunos procuram, apenas, uma forma de estarem entretidos. Eu acho indecente que, nos tempos difíceis que correm, e em todos os tempos!, se invista dinheiro de todos na preguiça de alguns. Se eu mandasse, o jogo seria muito mais verdadeiro, sem bluff, afastando aqueles que não querem mesmo fazer nada. Os cursos profissionais são, na minha opinião, uma oportunidade válida e muito importante mas, por isso mesmo, têm de ser levados a sério. Revolta-me ver desperdiçar dinheiro com quem não o merece!
Tenho, na minha turma de alunos do Curso Profissional, miúdos com muita vontade de acertarem na vida. Porque terão de ser prejudicados por aqueles outros, tantos, que ali estão apenas para prejudicar e enganar o sistema?