domingo, 9 de setembro de 2018

DOMINGO

Tenho com os domingos uma relação estranha. Indefinível. Gosto da ideia que o tempo é meu. Como nunca fui de me levantar tarde, gosto de saltar da cama bem cedo e ficar a jiboiar por casa, com o café ao lado, sem urgências exteriores. Gosto, ainda, de poder nunca cumprir todas as tarefas que deixei para este dia... 
Por outro lado, o domingo termina sempre com uma sensação dolorosa de inutilidade e repetição. Porque é já véspera de segunda-feira, porque afinal tudo ficou igual e porque, ainda por cima, acabou num instante...
Hoje, com a perfeita consciência de que o domingo tem de ser especial, fiz uma caminhada na minha Serra. Esbarrei com o Outono a querer nascer, sofri com o calor ainda excessivo e achei que a existência possível me fica cada vez mais curta. 
Agora, com a segunda-feira a nascer, compreendo que falhei de novo no sentido do domingo...

sábado, 8 de setembro de 2018

FAZER A DIFERENÇA

Eu não gosto muito (NADA) de desporto. Não gosto de corridas, a pé ou de bicicleta, nunca vi um jogo de futebol do princípio ao fim e, quando há Jogos Olímpicos, só vejo a abertura... Ainda por cima, eu não gosto nada de ser obrigada seja ao que for, e gostar de desporto, ter uma t-shirt brilhante e usar ténis, parece estar a tornar-se obrigatório! Tudo o que me é imposto, sem que me seja dada hipótese de escolha, irrita-me e enerva-me. 
Ora, confessado este meu estado de não-desportista-militante, facilmente se adivinha como me sinto violentada quando esbarro com desporto no meio das ruas e me vejo obrigada a assistir à passagem de gente suada, ou a chegar a casa horas depois do desejado. Mais revoltada fico ainda, quando encontro os agentes de autoridade, como há bem pouco tempo me aconteceu em Portalegre, a soprarem impropérios nos apitos estridentes impedindo, sem oferta de alternativas, que eu faça a minha vida como cidadã relativamente livre.
E vem este desabafo, agora, precisamente para me contradizer! 
Pela primeira vez na minha longa vida, esbarrei com elementos da GNR de uma simpatia, educação e profissionalismo incríveis! 
Tive de ir a Castelo de Vide e, logo no primeiro cruzamento, um jovem militar, com um sorriso e pedindo desculpa, indicou-me um percurso alternativo. Questionado sobre se eu teria possibilidade de chegar ao destino, para deixar a minha mãe de 90 anos, a resposta surpreendeu-me: - Com certeza! se tem de ir, vai. Tem é de ter paciência, mas diga aos meus colegas onde vai que eles hão-de ajudá-la. Assim fiz, três vezes. Todos, TODOS, foram correctos, educados, simpáticos e eficientes. 
Dei uma volta muito mais longa do que é habitual, mas pude chegar onde queria e ninguém me gritou ou ameaçou. Desta vez, não senti o peso da ditadura dos desportistas e pensei, juro, que poderia estar num país desenvolvido. Obrigada à GNR de Castelo de Vide. Obrigada aos jovens militares que conseguiram que a minha tarde não ficasse estragada, com a mais valia de não ter visto um único desportista!!!

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

SETEMBRO

Gosto do mês de Setembro. Gosto das manhãs envoltas em algodão, do fresco de fim de tarde, dos dias a minguar, do cheiro dos livros a voltar à escola. Gosto dos sabores de Setembro, das uvas, da marmelada a secar na varanda, das compotas que sujam o fogão e, depois, enchem de cor as prateleiras da despensa. Setembro traz-me, sempre, Itália. A magia da Toscânia, as mil desilusões que resultaram, de certeza, de luas de mel em Veneza, as caminhadas em Florença, os amarelos de Siena. Setembro devia ter uma chuvinha isolada todos os dias. Só para haver um pretexto para o abraço dado ainda com o avental sujo e os lábios doces da geleia acabada de provar...
Quando eu for feliz, escolherei como mês de eleição o Setembro da minha imaginação!

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

LÂMPADAS FUNDIDAS

"Dizem que a vida é como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Mas ninguém fala das lâmpadas fundidas". É mais ou menos assim que diz uma dedicatória que um amigo escreveu numa fotografia. Tenho a fotografia no meu lugar de trabalho, olho as teias de aranha em torno dos interruptores e penso que, de facto, há muitas lâmpadas fundidas que ninguém substitui. Ou seja porque ninguém repara que estão fundidas, ou seja porque, às vezes, a escuridão convém...
Fundidas parecem estar as lâmpadas da verdade, as que fazem com que a transparência do quotidiano tenha brilho; fundidas estão as lâmpadas do amor verdadeiro, daquele que faz romper com tudo, mandar às urtigas as normas sociais, e partir para um abraço longo e verdadeiro. Obviamente, sei bem que o amor não é eterno, mas sei, também, que vale pela intensidade e não pela longevidade.
Às vezes, apetecia-me ser capaz de substituir muitas lâmpadas excessivamente fundidas!

terça-feira, 4 de setembro de 2018

RECEITAS

Uma das coisas que me distraem é cozinhar. Gosto de olhar as receitas, de as alterar um bocadinho e de me surpreender, ou encantar, com os resultados. Como vivo sozinha, já me tem acontecido cozinhar para congelar, só para estar distraída e ocupar a minha cabeça com coisas saborosas...
Hoje, deu-me para pensar que deve ser a minha incapacidade de seguir receitas à risca que me complica a existência. É que toda a gente, ou quase, me dá receitas de vida e as ditas nunca funcionam! Vejamos:
- Não dar atenção a pessoas que carregam o mal com elas: - Como, se elas insistem em falar comigo, se fazem parte do quotidiano, se me entram no computador, no telemóvel e no serviço sem pedir licença?
- Valorizar os pequenos momentos de felicidade: - Faço-o! Mas são cada vez menos, e mais pequenos...
- Ignorar a  estupidez: - Como, se ela pulula por aí, em forma de governantes, deputados, dirigentes, e outros?
- Ignorar as injustiças: - Mas elas são constantes e, se as ignorar, como posso combatê-las?
- Não fazer planos:- Como sobreviver ao hoje, sem a ilusão de um amanhã diferente?
Pois é, decididamente, seguir receitas não dá mesmo sabor à vida. Pelo menos, à minha...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

REGRESSO


Este ano voltar às aulas não devia ter re. Não devia ser uma repetição de rotinas, não devia ser mais do mesmo, não devia iniciar-se com os professores a lamentarem o malfadado 942. Este ano, devia ser o ano da transformação, do fazer diferente.
2018/19 é um ano que pode ser marcante, decisivo mesmo, na construção de uma Escola diferente, mais equitativa, mais fazedora de gente feliz.
Não, eu não gosto do PS. Não gosto deste governo, não confio na maioria dos nossos dirigentes. Mas eu confio no projeto para a educação, porque eu sei – cum saber de experiência feito – que a Escola que temos não serve o mundo de hoje, não promove sucesso e não contribui para minimizar as graves (e tristes) injustiças sociais deste país que é o meu.
Este ano, cada escola vai poder olhar-se e reorganizar-se. É o tempo em que NEE deixará de significar Necessidades Educativas Especiais para significar Nova Era na Educação. Porque todos, e cada um, temos necessidade específicas de aprendizagem!  
É o tempo de criar aulas dinâmicas, de colocar a tónica na aprendizagem!
Este ano, os alunos vão ter oportunidade – espero eu… - de aplicar os conhecimentos teóricos em tarefas práticas (estão aí os DAC), de construir sentidos para o tempo (tanto) que passam na escola, que gastam na sala de aula.
Acredito que os novos diplomas legais abrem uma porta enorme! Uma porta por onde, para além do sonho, pode entrar a transformação de práticas.
Sei, claro!, que nem tudo é perfeito. Os professores foram colocados tardiamente, há um forte desconhecimento do que os documentos legais preconizam, há uma profunda resistência à mudança, há a nacional máxima pessimista de que nada é possível e vai ficar tudo na mesma…  Mas eu quero acreditar que em cada escola, em cada agrupamento, haverá um núcleo de professores que acredita, que quer uma Escola nova e feita de sucessos e de pessoas.
Talvez eu venha a desiludir-me, como tantas outras vezes, mas farei TUDO o que puder para que a transformação seja visível e generalizada!

Memórias

Foi já há 45 anos que a minha irmã morreu. Era jovem, amava a vida, tinha um namorado, tinha sonhos, enchia a casa de boa disposição. A minha irmã adoeceu e morreu. Lembro esse tempo com a nitidez do hoje.
A morte da minha irmã marcou todos. Os meus pais, que nunca mais foram os mesmos, eu e o meu irmão, que sentiamos, até no silêncio, a ausência dela. Agora, 45 anos depois, certa da purificação de factos que o Tempo sempre faz, penso que tudo teria sido diferente se ela não tivesse partido...Às vezes, penso no que ela diria em determinados momentos. Hoje, como naquela altura com 13 anos, penso que podia ter sido eu. Todos teriamos sofrido menos!