quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

FRIO

O dia acordou gelado e brilhante. Eu, que assumidamente tenho o Inverno como estação de eleição, faço render o percurso a pé até ao trabalho, olhando o brilho da cidade, o céu intensamente azul, alguns farrapos de nuvens enganando dos riscos dos muitos aviões distantes. Penso a vida, olhando o chão. Tanta aberração, num cenário perfeito... 
E lembro o telefonema do Professor Marcelo para a Cristina Ferreira, o absurdo de uma jovem mulher que se torna o centro das preocupações e atenções de um país eternamente atrasado. Oiço na minha caminhada os gritos estridentes da bela senhora, recordo os comentários a crimes, explorando a dor e o sofrimento humano, a euforia de ouvir o Presidente da República a acompanhar os crimes, como se tudo fosse assim, igualmente inócuo e vazio. E penso a Escola, a dificuldade de efectivar as transformações necessárias, os obstáculos à urgente transformação de práticas.
As preocupações maiores, as essenciais, parecem perfeitamente acessórias num pais de absurdos. Será mais importante o programa da bela senhora do que a transformação nas escolas? 
Tenho medo. Medo do amanhã que já começou hoje... Medo de um mundo, de um país, que valoriza o insignificante, que "destrói as árvores para não fazerem sombra aos arbustos!"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

ADD

Avaliação de Desempenho Docente. Como professora, e com consciência de que tem de haver avaliação de desempenho para valorizar a carreira e os professores, sou clara e absolutamente contra o sistema vigente. Nem percebo, sinceramente, por que razão os sindicatos ainda não discutiram o assunto e exigiram respeito e dignidade. Sim, respeito e dignidade não tem a ver, apenas, com a contagem do tempo de serviço ou com os vencimentos. 
A avaliação de desempenho, nos moldes em que se faz em Portugal, para mim, é um verdadeiro ultraje. 
Colocam-se professores contra professores, fomenta-se o mau clima de escola e praticam-se enormidades, e arbitrariedades, por causa, apenas, da progressão na carreira. O absurdo é-o ainda mais quando se avalia por comparação profissionais com desempenhos necessariamente distintos, para que se ache o que há-de caber nas quotas. O que de facto acontece, é que alguns professores, ou porque são mais velhos, ou porque são coordenadores de departamento, são obrigados a opinar e a classificar o trabalho dos colegas. Mesmo que nunca tenham observado uma aula dada pelas vítimas, mesmo que eles próprios não sejam docentes de mérito reconhecido, mesmo que não se sintam preparados para o fazer. Avaliam-se simpatias, amizades, opina-se com base em aparências e assim se determina se este ou aquele professor é Bom, ou Satisfaz.
O que está a acontecer é, para mim, uma humilhação. Passei por este mesmo processo há uns anos, pedi aulas observadas e senti-me de facto humilhada. Agora, a prática continua e agrava-se porque, com o descongelamento da carreira, muitos professores precisam da avaliação para progredir.
É tão injusta esta avaliação!
Reafirmo a minha convicção da necessidade de avaliação real do desempenho docente. Há muito bons professores que merecem ser distinguidos, há maus professores que devem ser afastados, mas deveria ser um processo de valorização, realizado com rigor e seriedade e não assim!
Muitas escolas, suspeito, estão agora a avaliar docentes. Imagino os constrangimentos, as discussões, o mal-estar reinante... Podia ser tudo tão diferente!

domingo, 6 de janeiro de 2019

PRIVILÉGIO

Sou uma privilegiada e adoro sê-lo! Fico mesmo feliz quando me sinto especial para a vida, quando experimento a ilusão de que os astros se alinharam para me oferecer coisas boas. No último mês, recebi três livros de novos autores, de gente amiga que escreve. São três obras diferentes, todas da autoria de professores, e todas tecidas de magia própria. Sendo absolutamente diferentes, todas e cada uma me têm oferecido horas de paz, evasão e sonho. Alguma inquietude, também. Primeiro, chegou-me às mãos o título "Os joelhos do meu Pai e outros Contos", do meu colega António Pascoal. Fiz-me à viagem de leitora com apreensiva curiosidade. E se fosse um livro pomposo, cheio de emaranhados e léxico indizível? E se viesse cheio de coisas de esquerdosos, das que eu abomino? E se, de repente, a leitura me desgostasse? - Tudo receios infundados. Contos fantásticos, originais, surpreendentes e de uma linguagem real, correcta e fazedora de comunicação. Devorei os contos e foi com pena que cheguei ao fim. De todos os contos, sem dúvida Três Tabletes de Chocolate Branco é o meu preferido. E eu não gosto de chocolate branco! 
Depois, há muito anunciado, chegou A Mulher do Sargento Espanhol, do Rui Aragonês Marques, meu colega de liceu. Antecipava uma história de ilhas, de crocodilos e miséria. Mais uma vez, estava completamente enganada. Encontrei a aparente simplicidade tão complexa das histórias de amor, chorei, angustiei-me e ri, "A Madre Superiora parecia um cacho de uvas quase em passas" , e eu vi mesmo a Madre bem amarfanhada... O Rui deu-me um pouquinho dos tais esquerdosos, mas em doses suaves e facilmente digeríveis. Deu-me, ainda, boa companhia para as minhas frequentes insónias.
Ontem, foi a Maria João Falcão que me ofereceu a ternura de Os Figos de Setembro e outras histórias. Aqui, a narrativa é de memória, com todo o poder que a memória tem de purificar e reconstruir o tempo. Aqui está Portalegre, a gente que eu conheço, os espaços que me determinam. Correndo o risco de ser agredida pelo politicamente correcto, não resisto a afirmar que a escrita feminina é muito mais almofadada do que a masculina. E eu não sou capaz de dizer de qual dos três livros gostei mais! 
Por isso eu sou uma privilegiada! porque posso ter três narrativas sem ter de excluir nenhuma, porque tenho amigos que escrevem, porque sei ler, porque posso sentar-me no muro, sob o sol de Inverno, ouvindo as brincadeiras dos cães e  saboreando o poder da escrita!

sábado, 5 de janeiro de 2019

O MAR

Tenho saudades absurdas do mar. Saudades do cheiro, da força das ondas, do movimento, do frio que, nesta época, salga o olhar junto à praia. E penso que falta pouco, que dentro de horas estarei em Cascais a olhar o infinito ondulado.
Sempre que vou a Cascais, ao Guincho também, carrego a minha essência de adubo de sonho. Lembro os navegadores ousados, recordo Camões e compreendo a tentação da partida, o desejo de ir para além de. 
Há pouca coisa melhor do que almoçar a ver o mar...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

ARANHAS

Já está escuro, mas dizem que chovem estrelas. Na minha alma cinzenta as estrelas não caem, e está escuro. O silêncio envolve-me, puxo a manta que cheira aos netos distantes e olho o computador. Queres sair daí? Apetecia-me a presença, a conversa simples e fácil, o mimo do colo que desejo. Tenho mimo a mais, dizias tu. Mas o mimo, tu não sabes, nunca é de mais. Tenho falta de carinho, de colo, de beijos fortes e abraços totais. Será que chovem estrelas de facto? Subo as persianas mas só há escuro. E os desejos de mimo não brilham. Aliás, acho que o vazio nunca brilha... Dizem que o homem é, no Universo, o mesmo que uma aranha no canto de uma sala. Sabes que, agora, não me importava que alguém varresse os cantos da sala?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O SEGUNDO PERÍODO

Já recomeçaram as aulas. Os alunos voltam a carregar mochilas, as ruas enchem-se de movimento e os engarrafamentos fazem notícia. É a vida a impor a rotina.
Eu olho com o espanto da idade a velocidade do tempo. Tudo tão diferente e, ainda assim, tudo tão igual...
Gosto de ver os miúdos cheios de mochilas, gosto das conversas cortadas que cruzo a caminho da escola, gosto da alegria ruidosa a entrar no pátio. Gostava, também, de acreditar que de facto a alegria entra na sala de aula.
Este 2019, espero eu, vem concretizar e dar mais consistência à Autonomia e à Flexibilidade e deve fazê-lo numa perspectiva de promover aprendizagens realmente significativas. 
O segundo período deve ser um passo mais da construção de uma sociedade inclusiva, para todos, na especificidade de cada um. O segundo período devia fazer avançar a aprendizagem real, devia de facto promover, agora que na teoria foi trabalhado e esclarecido, o trabalho colaborativo. O segundo período devia promover uma real transformação do paradigma da avaliação.
O segundo período devia, por se iniciar com um Novo Ano, ser mesmo NOVO!! Acho eu. Ou, melhor, desejo eu.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

JÁ ESTÁ!

Já está. Passou mais um Natal, começou um novo ano, e a vida segue, indiferente a festas e comemorações, fazendo-se cumprir em rotinas, desgostos e sonhos. Ah, os sonhos... São espuma, são fogo fátuo mas, paradoxalmente, são o que nos permite seguir sorrindo e acreditando que um dia. Esse dia é o esperado e há-de acontecer, dizemos para nós, antes do ponto final na existência de cada um.
Eu tenho sonhos. Como todos os ditos, impossíveis de cumprir, mas que me aquecem a alma. Agora, quando todos partiram e o silêncio ocupa as esquinas da casa, quando a saudade se agiganta no meu sofá, eu sonho com presenças. Sonho com a essência cúmplice, constante e verdadeira, capaz do abraço que me aquece, do beijo que me apazigua com a vida. Agora, todos partiram. E o sonho é o que me traz a ilusão de, ainda assim, valer a pena respirar.
Não doeu muito a Passagem de Ano, fez chorar pouco o Natal, mas a vida fere fundo. Há muito sempre...