segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

PREOCUPAÇÃO

 Dormi mal, preocupada e triste com o rumo que o meu país leva. Não, não tenho vergonha, nem estou zangada, com o meu distrito, ou com o meu Alentejo. Este é o meu chão, conheço as pessoas, orgulho-me muito de fazer parte desta comunidade onde o sol encomprida as tarde e majestosos sobreiros ponteiam os campos. Somos gente boa!

O que me entristece, profundamente, é o que, a meus olhos, parece cegueira coletiva.
Porque é que Ventura colhe tantos votos por aqui? Porque nós, alentejanos, estamos cansados de ser ignorados, porque sentimos que o 25 de Abril nos esqueceu, porque o envelhecimento cresce, porque não há trabalho, porque nem sequer temos representação, digna do nome, na Assembleia da Republica.
O Alentejo indignado deu um grito de revolta. E eu, que não votei e nunca votaria AV, compreendo.
Não acredito, sinceramente, que esta votação signifique algo mais do que revolta e mágoa.
Vergonha tenho, e muita, quando penso que apenas cerca de 1/4 dos portugueses votou em Marcelo, como eu fiz. Vergonha porque a abstenção, que os comentadores dizem ser de "apenas" 60%, denuncia um povo desinteressado, sem consciência cívica, sem interesse por aquilo que a todos diz respeito.
Eu era miúda quando aconteceu o 25 de Abril, não tenho memórias reais da ditadura, mas aprendi, na literatura e na vida, que a Liberdade é um Valor essencial. E ser Livre é votar, é pensar no quotidiano de todos, é escolher em consciência.

Penso, sincera e tristemente, que estas eleições presidenciais deviam obrigar os atores políticos a, se fossem capazes, repensarem o seu desempenho. Portugal merece bem melhor!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

INDECISÃO

 Vão fechar as escolas, passaremos ao regime não presencial. Não! As escolas vão continuar abertas, o governo não deixa fechar. Afinal, vão fechar, há já muitas turmas em casa. Não, parece que é para continuar abertos. Vai mesmo fechar, Campo Maior e Monforte já estão em regime de aprendizagem à distância. Não! Parece que não têm autonomia para tomar essa decisão, afinal parece que abrem as escolas mas os alunos não vão...

É mais ou menos assim que jovens, professores e famílias, estão a viver cada dia, cada hora. 

Instabilidade, angústia, a associar-se aos problemas de saúde, ao desemprego, à ansiedade que marca o quotidiano de cada um de nós. 

Neste momento, e depois de ter já defendido que as escolas deviam, até Março, encerrar portas e desenvolver aprendizagens à distância, já só queria que houvesse uma decisão a sério, que pudesse adormecer e acordar sabendo com o que, pelo menos profissionalmente, conto. Sinto que vivemos à deriva, que não há ninguém ao leme do navio chamado Portugal, nesta terrível tempestade que atravessamos. 

Como dizia Fernando Pessoa

"(...) tudo é incerto e derradeiro

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

INCOERÊNCIA

 Trago os ouvidos cheios de morte, de sofrimento e dor. Trago a alma encolhida, de medo, desconfiança e tristeza. 

Os números de infectados e mortes não páram de crescer, e as medidas anunciadas parecem-me claramente deficientes e desajustadas. 

É no salão de cabeleireiro, que funciona por marcação, uma ou duas pessoas em simultâneo, máscaras e higienização, que os contágios acontecem? É no comércio local, com porta para a rua, onde entra um cliente de cada vez, com máscara e higienização, que nos contaminamos? É nos restaurantes, onde a higiene é rigorosa e o distanciamento praticado, que tudo se complica? 

E não há risco nas escolas, onde trinta a trinta e duas pessoas convivem sem distanciamento? Não são um perigo os transportes públicos, onde partilham espaço cem pessoas ou mais? E não há contágio à porta das escolas, onde se aglomeram dezenas de pais que vão levar e buscar as crianças?

Claro que não sou especialista, mas penso, e basta pensar para compreender as incoerências deste confinamento assim-assim. Dizem que noutros países também há confinamento, e é verdade. Mas confinamento: - Escolas a funcionar à distância, TODA a gente em casa. Aqui, no meu país que adoro, é sempre um remendo, uma coisa assim-assim, mais ou menos, que não prejudique os maiores, mas sufoque os mais pequenos. Quanta injustiça!

Sou professora e prefiro as aulas presenciais. Gosto de olhar os meus alunos ao vivo, gosto de poder estar junto deles. Mas, neste momento, e com tantas ferramentas para apoiar o trabalho à distância, não compreendo porque não se fecham as escolas.

Enfim, resta-me fazer a minha parte, cumprir o que posso e como posso, e rezar. Rezar muito!

domingo, 10 de janeiro de 2021

HIGIENE DA ALMA?

Aproveitando o domingo, com tempo para mim, vesti um casaco forte e fui caminhar. O telemóvel avisou que estariam entre zero e cinco graus, mas eu, que gosto de frio, não liguei nenhuma. De luvas e cachecol, botas e casaco, fiz-me ao caminho. São passos que dou com gosto, no chão a que chamo meu, olhando, e surpreendendo-me sempre, com a beleza do espaço, a curiosidade dos cães, a agilidade dos rebanhos de cabras com que me cruzo. 
Caminho pensando. Em quê? Em tudo, e em nada. Embaraço o pensar no sentir, e deixo-me levar por aí.
Quando regressei, quinze mil passos e quase duas horas depois, acendi a lareira e, sem porquê, chorei.

Dizem que chorar faz bem, que lava a alma. Mas, talvez porque a minha alma não esteja suja, hoje não me fez bem e vestiu-me de funda tristeza. 
Eu, que sempre disse que não quero ser animal de companhia, às vezes sinto que me sobra solidão.



 

INSULTO?

Tenho, em relação à política, uma mistura de pensares. Racionalmente, compreendo que é impossível vivermos em sociedade sem ação política, sem organização e ordem. Compreendo que devemos lutar pelo modelo de sociedade que preferimos e que, se queremos mesmo uma sociedade melhor e diferente, não podemos alhear-nos do quotidiano social e político. 

Emocionalmente, a maior parte das vezes acho que os políticos, todos de uma forma geral e os portugueses da forma particular, não são verdadeiros, não são competentes e só prejudicam. 

Neste confronto entre pensar e sentir, obrigo-me a impor a razão. E, porque, como dizia Sophia de Mello Breyner "Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar", eu não ignoro e faço escolhas, envolvo-me, participo. 

Sempre fui Humanista e, por isso mesmo, sempre me posicionei, no espectro político, na área da Direita social. Para mim, cada Pessoa é o primeiro valor. 

Assim, movida por ideais de cidadania liberal, humanista, faço opções e participo, como posso (e como me deixam), na vida da comunidade.

Ora, ontem à noite, alguém de quem MUITO gosto, o meu irmão muito querido, por eu ter dito que votarei em Marcelo Rebelo de Sousa para a Presidência da República, chamou-me "intelectual de esquerda"! Foi, para mim, mais ofensivo do que se me tivesse chamado um palavrão vernáculo. Em primeiro lugar, porque não quero ser intelectual, em segundo porque abomino a esquerda.

Para mim, as esquerdas, todas, não se libertaram, nem libertarão,  das amarras estalinistas que eu repudio! As esquerdas perseguem a individualidade, combatem o direito à iniciativa privada, são, para mim, abjeções sociais. Não! Eu NÃO SOU de esquerda. 

E sim, vou votar Marcelo. Porque o meu país não é uma brincadeira, porque só Marcelo tem cultura e educação, porque só ele (errando com certeza muitas vezes) sabe o  que é uma sociedade humanista. Votar em Ana Gomes é apoiar uma esquerda que já mostrou do que é capaz, votar Ventura é abrir a porta à falta de liberdade, votar Marisa é ser pretensioso e vazio de projeto, e votar em qualquer um dos outros candidatos é brincar com coisas tão sérias como o dia-a-dia de cada um dos portugueses.

Doeu-me a ofensa. Mas sigo firme nas minhas convicções e sim, vou votar em Marcelo!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

PRIVILÉGIOS

 Eu penso que sou uma privilegiada dos afectos. Tive uns pais que privilegiaram os Valores e a educação, tenho duas filhas que são um privilégio de ternura e carinho, e sou professora. 

Sim, ser professora é uma profissão quase sempre cheia de privilégios. E não é o vencimento (curto e ofensivo), as condições de trabalho (absurdas), as chefias (ridículas muitas vezes), que tornam especial esta profissão. Não, o que faz com que o professor seja um ser privilegiado, é a possibilidade de criar laços com gente jovem e de ajudar a construir futuros. É a possibilidade de inscrever no coração olhares que fazem sentido.

Hoje, com a máscara quase a esconder os olhos lindos que tem, a Sofia chegou com um presente para mim. Quando lhe disse que o melhor presente é poder estar com ela umas horas na semana, quase se desculpou pelo que trazia, dizendo: - Foi por ser Natal! 

A Sofia trouxe-me uma caixa com bolachinhas, deliciosas (já comi uma dúzia) feitas por ela. 

Eu não tenho forma de agradecer suficientemente a todos os alunos, e ex-alunos, que adoçaram e adoçam a minha existência. São tantos!! Mas, mesmo em silêncio, agradeço o privilégio de ser professora e a capacidade que tenho de amar os meus alunos (quase todos)!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Dia de Reis

Hoje, é Dia de Reis. Gosto desta metáfora da descoberta de Jesus. Gosto, também, da tradição da romã, do bolo rei, do desmanchar do Presépio. Contudo, este ano resolvi deixar a sagrada Família do Presépio numa estante o ano todo. Para me lembrar que, como fizeram os Reis Magos, depois de descobrir Jesus há que escolher novos caminhos!